Seguidos investimentos em pesquisa fazem indústria nacional de aromas para alimentos movimentar US$ 135 milhões por ano Aos moldes dos grandes chefs
gastronômicos, o mercado de aromas se fecha a sete chaves. O sigilo e a
discrição são palavras de ordem. Cheio de mistérios, o setor
contraria a tendência atual de exposição excessiva e se mostra avesso
à onda de celebridade. Porém, não se trata de uma possível antipatia e
sim de uma estratégia de manter a excelência na prestação de serviços.
Com taxa de crescimento anual de 5%, a indústria nacional de aromas,
segundo estimativa de seus representantes, movimenta ao ano US$ 135 milhões.
Esses números se sustentam em constantes investimentos tecnológicos e,
sobretudo, no foco, com lente de aumento, nas necessidades do cliente. Na opinião do diretor corporativo da Takasago Fragrâncias e
Aromas, de Diadema- SP, Frank Inaba, “ao contrário de quase todo
restante da indústria de aditivos, o aroma não é commodity, é tailor-made
(feito sob medida).” Daí o porquê de tanto mistério. “O aroma
é a alma do produto”, avalia a coordenadora de marketing da Danisco
Brasil, de Cotia-SP, Daniela Eduardo. O ingrediente responde pela
principal característica de uma formulação: a identidade. Responsável
pelas propriedades organolépticas de um gênero alimentício, o aditivo,
apesar de não possuir nenhuma qualidade nutritiva, tem papel essencial na
aceitação do consumidor. “O aroma imprime marca ao produto”, define
o diretor técnico da VittaFlavor, de Barueri - SP, e também aromista
Antonio Miguel Martinez. Além disso, o
ingrediente instiga as percepções sensoriais, sendo capaz de satisfazer
os sentidos, proporcionar prazer e estimular sentimentos. Para a indústria,
de forma geral, os conceitos são menos subjetivos, porém de igual efeito
para o consumidor. O aditivo caracteriza o produto e também atua como
ferramenta para melhorar a composição final e padronizá-la, frente à
temporada das frutas e legumes, por exemplo. A estes se somam as funções
de reconstituir o perfil aromático, perdido durante o processo de fabricação
do produto, e de mascarar notas não-desejáveis das formulações. Toque especial - A composição de um aroma está longe de ser simples reação entre carga aromática, solventes e outros aditivos. A fórmula pode envolver até 40 componentes e depende de precisa perícia dos aromistas. Porém, mesmo assim, os projetos são confidenciais e mantidos em segredo, como forma de garantir a exclusividade e proteger o produto. Para as casas de aroma, manter os projetos em sigilo é maneira de agregar valor ao negócio. “Este mercado exige especialização”, explica Moisés Galano, aromista sênior e gerente de criação e aplicação de aromas da Givaudan do Brasil, empresa líder do setor, localizada no bairro do Jaguaré, em São Paulo.
De acordo com Martinez, os custos das matérias-primas são
bastante semelhantes, tornando a prestação de serviço um diferencial.
Essa particularidade fundamenta outro ponto de sustentação do setor: o
foco no cliente. Mais do que um conceito de marketing, a idéia é o princípio
norteador desse mercado. “A simbiose é tamanha que fica difícil saber
onde termina a indústria de alimentos e começa a casa de aroma e
vice-versa”, afirma Galano. Essa sintonia com o cliente representa a
principal ferramenta do setor. “Nestes últimos anos, surgiu uma forte
tendência de deslocamento da relação fornecedor/cliente para uma
parceria entre a indústria de aroma e a de alimentos”, completa Inaba. Fabricante de matérias-primas para a criação dos aromas, a Frutarom do Brasil, de São Paulo, também aposta em uma relação de alto valor agregado. Essa postura se aplica no fornecimento de especialidades. De acordo com o seu representante do departamento de vendas Rubens Sérgio de Castro, as casas de aroma não estão sozinhas na tarefa de encantar o cliente. Para dar conta do dinamismo do mercado alimentício, o fabricante de matérias-primas precisa oferecer para o aromista um ingrediente o mais próximo possível do resultado final. “Entregamos quase a formulação do aroma pronta”, diz. No portfólio da empresa destacam-se as pirazinas e especialidades cítricas, entre os químicos aromáticos, óleos essenciais e extratos naturais. No Brasil desde 1999, a companhia restringe sua atuação à venda das matérias-primas. A empresa possui sede em Israel e fábricas nos Estados Unidos, Inglaterra e Suíça, onde produz aromas e fragrâncias. Na avaliação de Castro, o mercado brasileiro não abarcaria mais casas de aroma, por isso se coloca apenas como fornecedor destas.
Constantes incrementos tecnológicos também dão o tom ao
mercado. Um dos resultados desse posicionamento se traduz no equipamento
da Givaudan, o sintetizador de aromas virtuais ou VAS, como é conhecido.
A máquina possibilita o desenvolvimento de aromas em tempo real, segundo
as determinações do cliente. Tendo como princípio a agilidade no
atendimento, o instrumento, segundo informações do grupo, mede, com
precisão a porcentagem do fluxo de cada ingrediente misturado (pode
chegar a 20 de cada vez), permitindo calcular a fração molar na fase do
vapor. Os ingredientes são misturados e o aroma encaminhado ao operador
por meio de uma saída especial, chamada nosepiece. Depois desta
etapa, um software interpreta e quantifica a fórmula
armazenada em sua memória. Outra iniciativa da Givaudan dá conta de nova
linha de microencapsulados, cuja proposta é reter por mais tempo a fixação
do aroma na formulação. Por meio desta, a companhia consegue oferecer ao
cliente a possibilidade de estender o shelf-life do aroma, mesmo se
este for submetido a tratamentos em alta temperatura, como as aplicações
destinadas para frituras e processamento em microondas.
In
natura –
Apresentar
boa fixação é um dos pilares da qualidade de um aroma. No entanto, o
principal deles, segundo uma tendência anunciada pelo setor, é a imitação
fiel do produto in natura. “A indústria se volta para a produção
de cópia idêntica ao que existe na natureza”, explica o diretor
comercial da IFF Brasil, de Taubaté - SP, Oreste Cesco Fieschi. Para dar
conta deste desafio, as companhias têm apresentado constantes
desenvolvimentos tecnológicos para identificar o maior número de
componentes voláteis emitidos por produtos encontrados na natureza. Presente no Brasil desde 1951, a IFF investiu mais de US$ 30 milhões em sua fábrica de aromas, inaugurada em 1995, em Taubaté. Após forte atuação do seu centro de pesquisas, a companhia reformulou a tecnologia living flavors ou aroma ao vivo.
O processo
representou um grande avanço para o setor. No entanto, a IFF sentiu a
necessidade de reavaliá-lo, dando origem à nova tecnologia, denominada generessence. Para Fieschi, o princípio é o mesmo, a mudança
ficou por conta da ampliação do conceito. “Conseguimos nos aproximar
ainda mais do aroma natural”, comenta. Outras tecnologias foram
desenvolvidas pela empresa, a fim de oferecer esse mesmo benefício. Todo o setor ruma nesta direção: de reproduzir em laboratório
aromas com o sabor mais próximo do natural. No entanto, Galano faz uma
ressalva. Para ele, por mais que as casas de aroma consigam dar conta
dessa proposta, ainda há muito a avançar. Dinâmica, a indústria
alimentícia exige sempre algo mais. O desafio atual seria o de ampliar
essa reprodução do sabor original da referência in natura, para
a maior gama de categorias de produtos. “Uma coisa é você reproduzir o
sabor, outra é adaptá-lo à linha do cliente”, afirma. |
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