Entre os planos de expansão em estudo, o mais ambicioso é o da Ledervin, fabricante de fios e filamentos de poliéster. A empresa, que surgiu de uma fusão promovida pelas multinacionais Rhodia e Hoechst e que em 1999 foi adquirida pelo grupo nacional J. Serrano, estuda instalar, até 2007, duas fábricas de grande porte no Nordeste, com capacidade de produção, cada uma, de 180 mil toneladas anuais. Caso seja concretizado, a atual capacidade instalada das indústrias nacionais de fibras químicas vai se elevar em cerca de 75%. Outros planos, menos ambiciosos, também podem colaborar com o avanço da produção nacional.

Para que os investimentos previstos se transformem em realidade, no entanto, os empresários querem se sentir seguros para aplicar os muitos milhões de dólares necessários.  “Além de contar com moeda estável, financiamento a juros não abusivos e impostos compatíveis com os cobrados no exterior, itens imprescindíveis para a retomada dos investimentos, precisamos desenvolver uma política industrial consistente, que ajude o setor a ficar competitivo”, reclama Jörg Albrecht, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas (Abrafas) e da Polyenka, produtora de fios e filamentos tex­turizados de poliéster.

Com coragem suficiente para esquecer as dificuldades resultantes do cenário econômico, a Invista (nome recém adotado pela DuPont Têxteis e Interiores) inaugurou em Paulínia (SP), em agosto de 2002, uma unidade industrial que aumentou em 50% sua capacidade de fabricação de fibras químicas.  Os investimentos consumidos no projeto foram de US$ 200 milhões, valor que inclui ativos, marketing, desenvolvimento, novos produtos e treinamento.

Projetos de expansão à parte, uma saída encontrada por alguns fabricantes nacionais para melhorar suas receitas tem sido a de se dedicar a nichos de mercado sofisticados. Vários investimentos nesse sentido são feitos constantemente. Isso explica o fato de, apesar de não conseguir atender a todo o mercado interno, o setor tenha exportado 33 mil toneladas de fibras químicas em 2002, número que deve crescer nos próximos anos.

Contramão - O Brasil é um dos poucos países onde a indústria ainda utiliza mais fibras naturais do que químicas para a produção de tecidos. As naturais, quase a totalidade delas originárias do algodão, respondem por 60% do mercado interno, enquanto as químicas são responsáveis pelos 40% restantes. A divisão do mercado mundial apresenta proporção exatamente inversa: a produção de tecidos se utiliza de 60% de fibras químicas e 40% de naturais.

Realidade brasileira à parte, a evolução do uso de fibras químicas é um fenômeno irreversível, tanto no País quanto no exterior. Basta lembrar que na década de 60, por aqui, elas detinham apenas 9% do mercado nacional – no exterior, na época, elas respondiam por 22% das fibras utilizadas pelo setor têxtil. A conquista de mercado verificada nas últimas décadas pode ser explicada pelos bilhões de dólares investidos em todo o mundo por grandes grupos multina­cionais do ramo químico para desenvolver fibras com características diferenciadas e a preços competitivos.

Um grande marco tecnológico das empresas do setor foi o início da produção, em meados da década de 80, das microfibras, fios usados para a fabricação de filamentos têxteis cujo diâmetro é menor do que o de um  cabelo. De acordo com a convenção adotada mundialmente pelo setor, para que seja considerado microfibra, um fio deve ter menos de 1 dtex – o dtex representa o peso em gramas de 10 mil metros de um fio. Para se ter uma idéia do que significou esse avanço, na década de 70, o fio químico mais fino contava com 167 dtex. Hoje são produzidos fios com 0,579 dtex. Em outras palavras, 10 mil metros de alguns fios produzidos hoje pesam apenas 0,579 grama.

O avanço permitiu o surgimento de tecidos oriundos de fibras químicas muito mais  leves e confortáveis do que os fabricados no passado. Mas o desenvolvimento não parou por aí. Outros benefícios foram alcançados e permitiram a produção de tecidos que não amassam, absorvem suor, eliminam odores e permitem a limpeza fácil de manchas, entre outras características. E as constantes pesquisas devem resultar em mais novidades nos próximos anos.

Poliéster - As fibras químicas podem ser divididas em dois grandes grupos. Um deles é o das fibras sintéticas, obtidas a partir da transformação físico-química de derivados da nafta petro­química. Três são os tipos de fibras sintéticas presentes com maior força na indústria têxtil: poliéster, náilon e acrílicas. O outro grupo é o formado pelas artificiais, obtidas por meio da transformação química de matérias-primas naturais. A celulose é a matéria-prima que gera o produto do gênero mais utilizado pela indústria têxtil, o raion viscose.

O poliéster é, de longe, a fibra química mais vendida na indústria têxtil brasileira e mundial – no País ela responde por cerca de dois terços do mercado. Com bom índice de absorção de umidade, resistente às lavagens e com boa absorção às tinturas, ela apresenta preço bastante competitivo em relação ao das concorrentes. É fabricada a partir da poli­con­densação da mistura do dimetil tereftalato (DMT) ou do ácido tereftálico puro (PTA) com o mono­etilenoglicol (MEG), o que resulta no surgimento do polímero polietileno tereftalato (PET). O polímero, quando produzido com diferente índice de viscosidade intrínseca, é o mesmo utilizado para a fabricação de embalagens de refrigerantes.

No Brasil, quatro empresas de grande porte produzem PET voltado para a indústria têxtil: Ledervin, Polyenka, Vicunha Têxtil e Rhodia-Ster. As duas primeiras utillizam o polímero que fabricam para produzir fios lisos ou filamentos texturizados de poliéster, as duas linhas de produtos que comer­cializam. A Vicunha, além dos fios e filamentos, também oferece ao mercado o polímero PET, além de fabricar fibras artificiais e outros produtos.

Cuca Jorge
Albrecht: Polyenka tem projeto U$$ 15 milhões

A Rhodia-Ster, por sua vez, vende fibras de poliéster cortadas – voltadas para tecidos mais pesados e outras aplicações – e o PET. Outros produtores de poliéster trabalham a partir da compra dos fios usados como matéria-prima para a produção de fila­mentos já adaptados à indústria têxtil  -  entre eles, o mais utilizado é o conhecido por POY (fila­mento parcialmente orientado).  

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