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Risco
tecnológico
– Se apenas pela questão do emprego
já não fosse suficiente estranhar a medida do governo, que segundo se
diz no mercado cedeu a pressões de alguns frigoríficos poderosos que
exportam o wet-blue, há vários outros pontos negativos a se
considerar. Um muito importante diz respeito ao aprimoramento tecnológico
e produtivo dos curtumes. Nada garante que, desestimulada a produção
de couro acabado, muitos
investimentos sejam descontinuados e projetos engavetados. Seria uma perda considerável para o setor químico
deixar de lado o que já foi feito e o programado para o futuro próximo.
Mercado importante para grandes holdings químicas, como Bayer,
Basf e Clariant (consideradas, nessa ordem, as três primeiras em
beneficiamento do couro), e fundamental para outras estrangeiras e
nacionais que praticamente vivem desse mercado, como TFL, MK Química,
Tanquímica e Tanac, em
quase todas essas corporações há exemplos de planos executados ou em
andamento para atender a demanda de dar acabamento ao couro.
A expectativa do mercado, levando em conta a
experiência positiva dos últimos três anos e a possível reconsideração
na mudança da política tarifária (através de lobby realizado
pelos curtumes), é haver aumento substancial na venda de produtos para
acabamento. Hoje a estimativa, segundo levantamento da Bayer, é a de
que o mercado total brasileiro de produtos químicos para couro gire em
torno de US$ 200 milhões. Desse valor, cerca de US$ 150 milhões são
de insumos até a fase do recurtimento. Os restantes US$ 50 milhões são
de produtos para acabamento, número considerado bem abaixo do
potencial. E mesmo sob risco, é provável que as
empresas não tenham mais tempo para voltar atrás em suas estratégias.
A ordem tem sido especializar o fornecimento
de produtos, sistemas e serviços para beneficiamento. Colabora nessa
tendência não apenas o fato concreto provocado pela taxação sobre o wet-blue,
mas também um aspecto criado pela nova ordem comercial do mercado de
manufaturados de couro. Trata-se do desempenho arrasador da economia
chinesa, que cresce sem parar a uma média de 7% ao ano, e tem dominado
o mercado calçadista mundial, onde o Brasil sempre foi forte, mas passa
por estagnação. A “síndrome da China” tem feito os produtores
brasileiros – leia-se aí fabricantes e curtumes – procurarem nichos
de mercado onde os orientais ainda não tenham invadido. Estofamentos
para automóveis e móveis são os principais exemplos. Bayer
ataca
– Esses novos segmentos, com características
sofisticadas, incentivam a oferta de sistemas inéditos no Brasil,
obrigando o pessoal da química a se preparar e reestruturar seus
departamentos técnicos, comerciais e produtivos. Um caso bastante
ilustrativo da transformação é o da divisão couro da líder Bayer
Chemicals. Fornecedora completa do setor, desde os processos iniciais
de remolho até acabamentos elaborados, a empresa está investindo R$ 1
milhão para reformular toda sua operação na área, na sede da divisão
em Novo Hamburgo-RS. O objetivo é ampliar sua participação nas etapas
de acabamento dos curtumes.
O restante do fornecimento, segundo uma
estimativa informal do mercado, ficaria por conta da Stoppani do Brasil
(9 mil t), com fábrica em Uberaba-MG; da nacional MK Química (6 mil
t), de Portão-RS; e da uruguaia American Química (5 mil t), com escritório
em Novo Hamburgo-RS. A necessidade de não se tornar tão
dependente do cromo tem explicação. Embora seja líder no sulfato de
cromo, de longe o mais empregado agente de curtimento do mundo, a Bayer,
assim como os demais competidores, reconhece a reduzida margem de lucro
da venda. Esse argumento é ainda mais convincente ao se saber que a
empresa alemã consegue ter ganhos de escala em razão de seu porte
multinacional, ao contrário das demais. Sua fábrica argentina responde
por 65% do mercado latino-americano (até o México) de 90 mil t/ano e,
além desta, ainda possui outra na África do Sul, país onde mantém
jazidas do minério de cromo e a partir do qual abastece os mercados
europeu e asiático. A primeira etapa do projeto de investimento da
Bayer foi desfazer seu contrato com a distribuidora Corium, de Novo
Hamburgo-RS, até janeiro de 2004 responsável pela revenda de sua
extensa linha de produtos para recurtimento e acabamento. Assumindo a
venda direta das linhas, a empresa precisou ampliar sua equipe comercial
e de assistência técnica e construir um laboratório de aplicação e
desenvolvimento na sede gaúcha, etapas ainda em execução. “O
recurtimento e o acabamento são extremamente dependentes da assessoria
tecnológica do produtor”, ressalta o gerente Vallendor. Serão
comercializadas, com ênfase nessa nova fase, a linha de resinas acrílicas
para recurtimento e acabamento. Esses recurtentes sintéticos base acrílica,
utilizados nos fulões (tambor giratório empregado em curtumes para dar
os banhos químicos nos couros), após a etapa de cromagem, promovem
enchimento nas partes flácidas dos couros, além de solidez à luz,
capacidade de estampagem e leveza, entre outras propriedades. Também
haverá preocupação inicial na venda de óleos vegetais para engraxe,
usados na etapa de recurtimento para dar maciez ao couro e empregados na
forma de emulsão por meio da ação de emulgadores. Ainda em
recurtimento, a linha Tanigan de derivados de taninos merecerão importância. Dentro da lista completa de produtos para
beneficiamento do couro, a Bayer destacará vários produtos para
acabamento, etapa final responsável por propriedades de superfície,
como cor, brilho, toque e outras resistências específicas. São
exemplos as lacas de nitrocelulose, cujo emprego confere resistência à
abrasão, brilho e de fixação das camadas anteriores de cor, toque,
viscosidade, entre outras. A nova equipe da Bayer, que até o fim do ano
mudará de nome em razão da divisão de seus negócios mundiais, também
passará a vender diretamente óleos vegetais para engraxe e sistemas de
poliuretano. E também linhas recentes, como os compostos Xeroderm, polímeros
para hidrofugação de couros que dispensam o uso de sais de cromo ou
minerais para fixação. Está programado ainda um outro reforço de
peso nas áreas de acabamento e recurtimento. Em breve, o acordo mundial
mantido com a Rohm and Haas de produtos base acrílica será
nacionalizado. Segundo Tomas Vallendor, é cogitada até a produção
local desses polímeros.
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