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Curtumes aderem Fornecedores químicos Marcelo Furtado Se
depender da disposição da importante e tradicional indústria coureira
nacional, o setor químico deve manter um ritmo crescente de vendas de
insumos para o beneficiamento das peles animais. A perspectiva tem
relação direta com a modernização em curso nos curtumes, que de uns
quatro anos para cá têm dado preferência a produzir couros acabados
ou semi-acabados (crust), cujos processos consomem muitas vezes
mais produtos químicos, sobretudo especialidades, em detrimento dos
couros wet-blue, beneficiados apenas até o curtimento primário
com sais de cromo. Mas como a economia de um país não é
apenas regida pela disposição dos seus empreendedores, dependendo
ainda de políticas públicas, se não protecionistas pelo menos
sensatas, esse cenário favorável também corre riscos. Isso porque na
primeira vez que a indústria do couro precisou de uma “ajudinha” do
atual governo, esta lhe foi negada. Recentemente, a Câmara de Comércio
Exterior (Camex), órgão interministerial que regulamenta as exportações
do Basil, achou por bem não prorrogar resoluções temporárias
adotadas pelo governo anterior, a partir de dezembro de 2000, e
revalidadas várias vezes até 15 de janeiro de 2004, cujo teor
principal era sobretaxar a exportação de couro wet-blue com alíquotas
de 9%. A nova determinação do governo Lula estabelece a redução do
imposto para 7% até o fim de 2004, e para 4%, em 2005, chegando a zero
em 2006.
A gravidade da suspensão da taxa é por
ter sido justamente ela a principal responsável pela modernização dos
curtumes, motivando a demanda por novos processos e produtos químicos.
Basta recordar o que ocorria antes desse período, quando não havia a
proteção na década de 90. Apesar das exportações de couro terem
triplicado entre 1990 e 2001, o valor adicionado às peles embarcadas
decresceu. A participação do couro acabado nas exportações, em
valor, passou de 33%, em 1990, para 19%, em 2000, enquanto a de wet-blue
aumentou de 35% para 57% nesse período. Pela inibição da venda externa de um bem
de processamento primário e o estímulo à exportação do couro
acabado, os curtumes passaram a ver vantagens em estender o
beneficiamento às fases de recurtimento e acabamento. Levando em conta
a extrema dependência local do mercado externo, visto que 80% das 35
milhões de peles bovinas processadas por ano são exportadas
diretamente ou em forma de sapatos, o Brasil tornou-se palco de
investimentos e de nacionalização de tecnologias. Grandes e médios
curtumes, antes no wet-blue, passaram a produzir couro acabado. Marcelo Furtado Para os fornecedores químicos não poderia
ter sido melhor. Sobretudo porque até a etapa do curtimento a quase
totalidade dos insumos utilizados em curtumes são commodities,
como o curtente sulfato de cromo, o cal para inchar e corrigir o pH das
peles salgadas, o sulfeto de sódio usado para remover os pêlos do
couro ou os ácidos sulfúrico e fórmico empregados na preparação
para o curtimento (piquelagem). Passar a vender especialidades de
acabamento e recurtimento, de maior valor
agregado, livrou um pouco a sina do setor químico de ser vendedor de
produtos com ínfimas margens de lucro e cuja única estratégia
comercial viável é procurar ganhos de escala. Os números recentes do setor coureiro provam
o movimento de modernização iniciado. Desde a adoção da medida no
final de 2000, de pouco mais de 10% do total exportado os couros
acabados chegaram ao final de novembro de 2003 a cerca de 27% das 17
milhões de unidades comercializadas no exterior. Enquanto isso, a
exportação de wet-blue caiu de 66% para 60%. As conseqüências positivas sobressaltaram em
termos financeiros. Por ser
produto mais caro, já que a unidade de couro wet-blue é cotada
em US$ 30, contra US$ 90 do acabado, de janeiro até novembro de 2003 as
exportações de 5,2 milhões de peles bovinas acabadas renderam ao País
US$ 419,8 milhões. Já o wet-blue, apesar de muito mais
comercializado em volume, com um total no mesmo período de 11,8 milhões
de unidades, gerou receita de apenas US$ 371 milhões. Não por menos,
desde a adoção da alíquota de 9%, o Centro das Indústrias de
Curtumes do Brasil (CICB) notificou a geração de divisas extras para o
setor de US$ 632 milhões, com o crescimento acumulado de 240% nas
exportações de couro acabado. Marcelo Furtado Ainda segundo o CICB, se o ciclo de modernização se mantiver inalterado, o Brasil tem condições de alavancar o faturamento com exportação de couro de US$ 791,5 milhões para US$ 1,37 bilhão, caso todo o material seja vendido na forma acabada. Mas caso se privilegie o wet-blue, e hipoteticamente todos deixem de produzir o couro acabado, o valor total cairia para US$ 521,9 milhões. Isso tudo, lógico, sem se considerar ainda outras perdas importantes em toda a cadeia do setor, como o desemprego. Estima-se que para cada milhão de couros semi-acabados (até o recurtimento) são gerados 650 empregos diretos, enquanto o igual montante de acabados geram mil. Se a produção for de manufaturados de couro, então, os postos são aumentados em mais 25 mil a 30 mil. Já no wet-blue, o milhão de couros só geram 300 empregos.
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