Salto brasileiro – O modelo exportador chinês inspira a cadeia produtiva de termoplásticos do Brasil a criar mecanismos para tornar-se mais competitiva internacionalmente. “A exportação de produtos petroquímicos aumentou em 2003 porque o mercado interno não absorveu a oferta”, explicou Mariani, que espera para 2004 uma recuperação do poder de compra da população nacional. A exportação de resinas não é muito favorável ao setor, uma vez que tem por base matérias-primas a preço superior ao do mercado internacional. No caso de haver o fly-up, os preços internos deverão acompanhar as cotações internacionais das resinas.

A intenção do setor é unir esforços em toda a cadeia produtiva, de modo a oferecer produtos plásticos prontos (convertidos ou transformados) a compradores internacionais, aproveitando a vantagem de custos competitivos em mão-de-obra. O projeto é suportado pela indústria petroquímica (primeira e segunda gerações) e pelas entidades representativas dos transformadores, com apoio da Agência de Promoção de Exportações (Apex), do Ministério da Indústria e Comércio. 

Cuca Jorge Denominado Export Plastic, o projeto setorial beneficiará convertedores de plásticos de pequeno e médio porte, hoje impossibilitados de arcar com os custos inerentes ao comércio internacional. “A Apex já está contratando pessoal especializado e comprando informações sobre vários mercados em potencial, de modo a identificar demandas que possam ser atendidas a partir do Brasil”, afirmou Merheg Cachum, presidente do Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado de São Paulo (Sindiplast) e da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).

A título de exemplo, Cachum citou as importações de produtos feitos de plásticos pelos Estados Unidos, que somam US$ 13 bilhões por ano, quase 30% a mais do que o faturamento brasileiro do setor. “Qualquer pedido feito a partir dos EUA é de tamanho gigante, eles exigem estoques locais e estrutura de entrega e assistência técnica”, comentou. 

Cachum: cadeia unida vai exportar transformados

“E o preço é sempre muito baixo, a despeito dessas dificuldades.” Daí a importância de buscar oportunidades de negócio mais compatíveis com a realidade nacional, em países da Europa, Oriente Médio, África e América Latina.

As vendas de produtos em grande volume não serão descartadas, mas devem ter rentabilidade razoável. “Pedidos grandes serão atendidos pela formação de consórcios entre várias empresas médias e pequenas, de modo a repartir lucros e riscos”, afirmou. O papel da associação setorial é de induzir a formação desses consórcios, operação que exige transparência no relacionamento entre empresas. “Os empresários que não abrirem a cabeça para aceitar novos conceitos estão condenados a sair do negócio”, disse.

O contrato de participação no Export Plastic será firmado em 15 de dezembro, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, com a participação do governo federal e entidades de todos os elos da cadeia. “A partir daí, é preciso arregaçar as mangas para reverter o atual déficit comercial de US$ 300 milhões de produtos transformados e gerar um superávit de US$ 1,2 bilhão dentro de oito a dez anos”, explicou. A idéia básica do programa consiste em aproveitar produtos fabricados no Brasil, como as resinas, para atender os pedidos. Caso seja preciso, importações serão feitas. “A China faz assim e obtém excelentes resultados”, disse.

Segundo Cachum, o programa contará com a participação do governo, no sentido de reduzir a carga tributária dos produtos exportados, com reflexos em toda a cadeia produtiva. “O projeto começou no final de 2001 e foi aperfeiçoado no novo governo federal”, afirmou Cachum. O novo formato de programa caprichou nos critérios rígidos de fiscalização e controle, de modo a impedir o desvio de resinas e transformados para o mercado doméstico. “Se não houver desoneração, seria melhor continuar fazendo drawback”, avaliou.
Cachum entende também que o projeto terá sucesso com a participação da Petrobrás. “Talvez possamos contar com um preço diferenciado da nafta para melhorar a competitividade do produtos de plástico fabricados no Brasil”, afirmou. Segundo o dirigente, há negociações em curso sobre isso.

Indefinição perigosa – Analistas no mercado financeiro enxergam dois pontos que necessitam de rápida definição para atrair investimentos para o setor petroquímico nacional, via mercado de capitais. O primeiro item é o equacionamento das dívidas das principais companhias brasileiras, principalmente da Braskem, a maior do setor no País. Nos últimos meses, a empresa empreende esforços para alongar o perfil da dívida, com sucesso. Outras, como a Ipiranga Petroquímica estudam alternativas semelhantes. Caso se confirme a previsão de um fly-up até 2005, a geração de caixa no setor será muito reforçada, deixando as companhias em situação mais confortável, inclusive para promover novas captações, visando acréscimos de capacidade produtiva.

O outro item diz respeito à participação da Petrobrás na indústria petroquímica. A aquisição do grupo argentino Perez Companc recolocou a estatal no controle de uma companhia de segunda geração, a Innova, produtora de estireno e poliestireno. Detentora de vasto portfólio de participações minoritárias, a companhia já demonstrou, por meio de declarações de seus executivos, o interesse em exercer papel mais relevante na condução dos negócios. No governo Lula, o presidente da estatal José Eduardo Dutra já disse ser favorável a uma reestruturação de capitais no setor, a partir da qual a companhia poderia ampliar sua participação. Daí para frente, sobram especulações. A mais conhecida aventa a possibilidade de a estatal concentrar seus interesses em um de dois possíveis grandes players nacionais a serem formados, a chamada Petroquímica do Sudeste (capitaneada por Unipar e Suzano) e a Braskem (com interesses nos pólos gaúcho e baiano), mantendo-se um modelo concorrencial. A menos provável seria a indução de uma única companhia petroquímica brasileira, claramente liderada pela Petrobrás, com máxima sinergia entre a produção de óleo/gás/subprodutos e as gerações subseqüentes. E sempre há a provável e cômoda possibilidade de deixar as coisas como estão.

“Não existem apenas duas correntes de pensamento dentro da Petrobrás, mas várias, com poder de influência variável, sempre de difícil conciliação sobre esse tema”, afirmou Armando Guedes Coelho, diretor-superintendente da Suzano Petroquímica e ex-presidente da estatal. “Não vejo nenhuma definição por parte da Petrobrás”, confirma o presidente do conselho diretor da Abiquim, Carlos Mariani Bittencourt. 

Na estatal não há pronunciamentos oficiais, mas se comenta que a decisão sobre isso será apresentada na revisão do planejamento plurianual, a ser concluída até abril de 2004. Até lá, vários projetos devem ficar em banho-maria, a começar pela ampliação da Petroquímica União a partir de correntes de refino ricas em eteno disponíveis nas refinarias paulistas Henrique Lage, no Vale do Paraíba (Revap) e na Refinaria de Capuava (Recap).

Do ponto de vista de uma empresa de petróleo, não faz muito sentido desviar recursos do core business para investir em uma atividade concorrencial de remuneração bem menor. “A Petrobrás tem grande número de campos de petróleo para explorar, que exigem pesados investimentos e oferecem uma taxa de retorno muito mais interessante que a petroquímica”, disse Coelho. Apesar disso, ele advoga que a estatal se dedique mais ao setor. “Sem ela, corremos o risco de ficar sem matérias-primas para os crackers.”

O diretor-geral da Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mário Mugnaini, assegura que a decisão sobre a participação da estatal no setor petroquímico será tomada em prazo adequado. “A decisão sairá logo, sem prejudicar o desenvolvimento do setor”, assegurou.

Hoje, como há anos, a maior crítica feita pelos representantes da petroquímica nacional diz respeito à política de preços da nafta e do gás natural. “Há anos que as coisas não saem do lugar; a Petrobrás precisa entender que é um elo da cadeia produtiva e que o custo da nafta determina a competitividade da cadeia toda”, lamentou José de Freitas Mascarenhas, vice-presidente do conselho diretor e coordenador da comissão de economia da Abiquim. Para ele, a estatal só enxerga resultados financeiros imediatos, seguindo a “regra do jogo” capitalista. “O governo precisa ser o fiel da balança, de modo a equilibrar as forças do setor e apoiar o esforço de exportação”, disse. 

Mariani critica a precificação da nafta, feita com base nas cotações internacionais, acrescidas dos custos de transporte e internação, mesmo quando o insumo é obtido a partir de petróleo brasileiro nas refinarias nacionais. “Isso é irreal, não conseguimos competir com outros países que pagam muito menos, sem falar na volatilidade cambial, pois o preço é dolarizado”, afirmou, prometendo levar a questão ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, instituído pelo governo Lula.

Mascarenhas vai além. “Além do preço, o problema é a disponibilidade da nafta, pois o projeto de expansão do refino nacional não contempla aumento ou maximização na oferta, mas a sua mistura à gasolina”, afirmou.

Segundo Armando Guedes Coelho, atualmente a demanda pela carga líquida no Brasil chega a 10 milhões de t/ano, das quais apenas 7 milhões são nacionais. Com base nas previsões de mercado, em 2010, o setor petroquímico local consumirá entre 15 milhões e 20 milhões de t/ano de nafta, exigindo importar de 8 milhões a 13 milhões de t/ano. “Sem suprimento local de nafta, torna-se inviável a atividade petroquímica dela derivada”, disse. O uso de outras cargas líquidas (condensados ou gasóleos) não apresenta o mesmo rendimento em eteno, ou não tem suprimento garantido a longo prazo. No caso do propeno, as refinarias nacionais ainda apresentam disponibilidade da olefina em seus fluxos gasosos. No exterior, essa fonte de propeno já está no limite.

Mariani entende ociosa a discussão sobre a influência das participações da estatal nas empresas do setor e o preço cobrado pela nafta. “A Petrobrás já esteve dentro e fora do setor, e os preços da nafta continuaram altos”, explicou. “No tempo do controle oficial de preços era possível repassar para os consumidores a elevação dos custos, sem maiores problemas, mas agora é preciso ser competitivo internacionalmente.”

 

<<< Anterior

Próxima >>>