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Foto: Stéferson Faria
Mercado sinaliza recuperação de preços e margens no setor
Surgem sinais de evolução da demanda por petroquímicos acima da capacidade
produtiva instalada, provocando alta de cotações com ápice previsto para 2005
MARCELO FAIRBANKS
A conjunção de fatores de oferta e demanda internacional faz especialistas apostarem em um período de elevação de preços e recuperação de margens de lucro no setor petroquímico, com pico das cotações dos produtos esperado para 2005. Ao contrário de outras ocasiões similares, a queda posterior de preços não será abrupta, mas com valores sustentados até 2007, quando a curva inclina-se vertiginosamente, apontando o início de um novo período de baixa.
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Esse prognóstico é sustentado por Robert Bauman, vice-presidente da divisão de petróleo e químicos da Nexant/ChemSystems, sediada em White Plains, NY (EUA). “Em 2004, o crescimento de demanda mundial por resinas plásticas, sobretudo a asiática, será muito grande, puxado pela China”, afirmou, com apoio dos dados deste ano que já revelam aquecimento de consumo. Ao mesmo tempo, ele relatou que há poucos projetos petroquímicos em fase final de construção, e as fábricas existentes tendem a operar com ocupação média de 90% de capacidade. Além disso, os preços internacionais do petróleo seguem em queda, devendo situar-se entre US$ 22 e US$ 25 por barril em 2005, aliviando os custos da cadeia a jusante. |
Flávio R. Guarnieri |
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| Bauman: após 2005, queda de preços não será
abrupta |
Segundo o especialista, na iminência de elevação de preços, os consumidores de termoplásticos já reforçam seus estoques, movimento que deverá se intensificar até 2005. “Os preços das resinas plásticas poderão, então, superar o pico de US$ 1.200 por tonelada alcançado em 1994/1995, ou seja, custarão o dobro das cotações atuais para exportação”, disse Bauman. Até o final de 2005, alguns desengargalamentos entram em operação, e os estoques dos clientes estarão abastecidos, reduzindo a pressão de demanda.
Mesmo assim, a queda das cotações será lenta. “Só em 2005 as grandes companhias petroquímicas mundiais começarão a discutir a construção de novas capacidades”, afirmou o analista que salienta algumas diferenças no setor em relação a períodos passados semelhantes. O forte movimento de consolidação de negócios, fusões e aquisições reduziu substancialmente o número de players relevantes. Novos líderes de mercado como Basell (formada por ativos da Basf, Hoechst, Shell e Montedison), Borealis (Borealis e PCD), BP (Amoco, Arco, BP e Solvay), Chevron/Phillips, Dow (Dow e Union Carbide), Equistar (Lyondell, Millenium e Occidental) e Exxon Mobil resumem o movimento de concentração que perdurou pela década de 1990. Num primeiro momento, foi preciso integrar operações, verificando sinergias e pontos de conflito, atividades que drenaram recursos e atenções antes devotadas aos projetos de expansão. Além disso, o menor número de companhias implica menor número de projetos de investimento. “No último fly-up, todas as 19 companhias construíram um ou dois crackers e/ou linhas de produção de poliolefinas”, comentou Bauman. “Agora, as sete empresas remanescentes não serão tão ativas, erguerão quando muito sete crackers.”
Consolidadas as operações, muitas unidades produtivas européias e algumas norte-americanas foram fechadas, de modo a operar as remanescentes com melhor ocupação de capacidade. “Na Europa, 80% das unidades foram descontinuadas de modo permanente, e apenas 20% podem retornar à carga, se houver demanda e preço para tanto”, avaliou o especialista.
| Flávio R. Guarnieri |
O movimento de concentração de negócios mundiais no setor petroquímico conduz a uma situação de extrema competitividade. Armando Guedes Coelho, diretor-superintendente da Suzano Petroquímica, com base em estudos internacionais da Maack Business Services, menciona que a capacidade produtiva de eteno no mundo soma 110 milhões de t/ano. “A participação dos cinco maiores produtores globais [Dow, Exxon Mobil, Shell, Equistar e BP] era de 22%, em 1992, e subiu para 32% em 2002”, comentou. No caso do propeno, segunda olefina mais consumida, a capacidade mundial chega a 90 milhões de t/ano, e a participação dos mesmos cinco maiores players passou de 23% (1992) para 28% (2002). |
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| Coelho: setor tem menos players e mais
competição |
Movimento semelhante verificou-se nas resinas. Em 2002, a capacidade produtiva de polietilenos era de 65 milhões de t/ano, das quais 49% estavam sob controle dos dez maiores produtores [Dow, Exxon Mobil, Sabic, Equistar, Chevron/Phillips, Basell, Borealis, BP Solvay, Sinopec e Nova]. Esse percentual era de 34% em 1996. No polipropileno, os dez maiores produtores [Basell, BP, Atofina, Sabic, Exxon Mobil, Sinopec, Dow, Borealis, Reliance e Formosa] dominavam 54% da capacidade instalada de 37 milhões de t/ano, em 2002. Em 1996, os dez maiores ficavam com apenas 36%.
“Nesse quadro, é preciso ser mais eficiente a cada dia, para permanecer no mercado”, afirmou Coelho. O porte médio de unidades novas do setor apresentou forte crescimento entre 1990 e 2000. Para estireno, a média cresceu 122%, chegando a 500 mil t/ano; unidades de cloro passaram de 400 mil t/ano, com aumento no porte médio de 220%; no metanol, a alta foi de 55%, beirando 800 mil t/ano; e no polietileno linear de baixa densidade, a média ficou 88% maior, perto de 400 mil t/ano.
Para um número menor de projetos de investimento, Bauman espera também uma clara elevação de escala. “Os novos crakers para eteno, com base em gás, devem ter capacidades superiores a um milhão de t/ano”, afirmou. Isso implica contar com suprimento garantido de gás natural a preço baixo, hoje só disponível no Oriente Médio. Ou, talvez, nem lá. “Os três principais projetos petroquímicos da Arábia Saudita foram adiados por causa de problemas na negociação da matéria-prima”, explicou o especialista. Ele comentou que o preço histórico do gás natural mal chegava a US$ 0,50 por milhão de BTUs.
No entanto, com a elevação das cotações no mercado norte-americano, os fornecedores árabes passaram a exigir ao menos
US$ 1 por MM BTU dos investidores petroquímicos. “Isso alterou o equilíbrio dos projetos, que pretendiam formar um pólo exportador de resinas para a Europa e para a Ásia, em especial a China”, afirmou.
A escala de um milhão de t/ano pode até ser superada, chegando a 1,5 milhão ou mesmo 2 milhões de t/ano, dependendo da disponibilidade de matérias-primas. Da mesmo forma, Bauman entende plenamente viáveis projetos de 600 mil t/ano de eteno localizados em países com demanda local compatível e disponibilidade limitada de gás ou nafta.
No Oriente Médio, apenas dois projetos estão em início de operação: a Petrokemya (da Sabic) e a unidade de PEAD de Amir Kabir (Irã). Segundo Bauman, três dos sete projetos apresentados de crackers no Irã avançam em diferentes velocidades. Há projetos de expansão ainda a finalizar em Abu Dabi, Egito, Kuwait e Omã. No Qatar, foi aprovado um segundo cracker em parceria entre a Chevron/Phillips e a Atofina.
“Mesmo que todos esses projetos entrem em operação, ainda vai faltar eteno, pois o mundo está em fase de recuperação econômica, a começar pelos EUA”, afirmou.
A capacidade produtiva de eteno dos países do Oriente Médio situa-se ao redor de 10 milhões de t/ano. Com os projetos previstos, espera-se que essa capacidade mais do que dobre até 2010, chegando a 23 milhões t/ano. A produção de resinas ao lado dos crackers deverá crescer proporcionalmente, tomando o rumo do mercado asiático, no qual a China mantém índices de aumento do PIB da ordem de 8% ao ano, seguida pela Índia e Coréia do Sul, ambas com 5% a 6%.
Cargas líquidas – Nos últimos dez anos, os projetos petroquímicos priorizaram o uso do gás natural (etano) como matéria-prima. Baixos preços e produção isolada de eteno tornavam mais atraente a alternativa. Na contramão, a nafta perdeu prestígio. A crise de energia nos Estados Unidos, no entanto, catapultou o preço do gás natural para mais de US$ 5 por MM BTU, quase tornando inviável o consumo petroquímico. “O uso petroquímico sempre sai perdendo quando compete com o consumo para a geração de energia”, comentou Bruno Albuquerque Piovesan, diretor-financeiro da Cia. Petroquímica do Sul (Copesul). Com dados da consultoria Parpinelli Tecnon, ele indicou que o etano de gás natural ainda será o preferido dos projetos petroquímicos até 2010, passando a responder por 33% de toda a produção de eteno no mundo, contra os atuais 29,2%. Já as cargas líquidas perderão participação, dos 52,1% atuais para 46,6%.
No caso da central gaúcha de matérias-primas petroquímicas, Piovesan salientou a flexibilidade operacional alcançada pelas instalações, ampliadas e modernizadas há dois anos. “Podemos processar nafta, gasóleos, condensados e até GLP, dependendo da disponibilidade e preços desses produtos”, explicou. Antigamente, informou, as petroquímicas dos EUA apresentavam flexibilidade semelhante, sendo aos poucos convertidas para etano de gás natural, tornando-se muito dependentes e suscetíveis do comportamento do insumo.
Bauman recomenda observar com cuidado a dinâmica da oferta e demanda das cargas petroquímicas. “A tendência é de redução dos preços do petróleo, que será forçosamente acompanhada pelas cotações da nafta petroquímica”, afirmou, salientando que a nafta hoje se encontra no final de uma fase de alta de preços, tendendo a baixar no médio e longo prazos. O gás natural, por sua vez, já iniciou a marcha de redução de cotações, pois os EUA conseguiram reforço de suprimento junto ao Canadá e a perfuração de poços no território americano mais do que dobrou neste ano, em relação ao anterior, havendo grandes estoques formados. Em contrapartida, as novas unidades de geração de eletricidade usarão gás natural, criando uma demanda elevada e constante durante o ano todo, com picos no inverno, sustentados pelo uso em sistemas de aquecimento. Além disso, dois terços da capacidade norte-americana de eteno se alimentam de gás. “Analisando esses fatores, pode-se esperar que os preços do gás recuem para a faixa entre US$ 3 a US$ 4,25 por MM BTU até 2005”, disse. “Isso ainda é bem mais do que a média histórica, inferior a US$ 2 por MM BTU.”
Por isso, Bauman critica a adoção das cotações do gás no mercado norte-americano para a fixação de preços em outros países, como é feito no Brasil e na Argentina. “Esses contratos usam como referência o preço mais elevado do mundo, o que pode torná-los inviáveis”, disse. “Seria necessário desenvolver outros parâmetros para a correta precificação do gás.”
A relação de preços entre gás e nafta ainda precisa ser complementada pelo fato de um cracker de nafta ser mais completo, oferecendo maior número de correntes aproveitáveis, como C4 e aromáticos. Como os investimentos mais recentes priorizaram o gás natural, o suprimento de aromáticos apresenta-se apertado, com elevação sustentada de cotações.
Bauman aposta no crescimento da petroquímica do Oriente Médio com base no gás natural, com apoio e participação dos grandes players internacionais e dos governos locais. Em algumas regiões específicas, como a China, as cargas líquidas poderão suprir alguns crackers. “Não acredito que os investidores aceitarão a construção de mais capacidades nos EUA, Europa e Japão”, afirmou. A Coréia do Sul, segundo ele, está em fase de reestruturação de negócios, depois de ter perdido dinheiro na última década. “A Atofina assumiu a Samsung, que era muito agressiva, mas não vai manter o ritmo de investimentos da antecessora”, afirmou. Quanto à Rússia, que disputa a liderança do suprimento mundial de petróleo, o país não considera a petroquímica o investimento principal, dedicando-se mais à química básica.
De modo geral, a maioria dos novos crackers, seja de nafta ou de gás, será construída por companhias petrolíferas em associação com governos locais. Para Bauman, as petroleiras serão a força dominante no futuro da petroquímica mundial, pelo controle das matérias-primas do setor.
Já no campo da disputa por mercados, os negociadores chineses levam vantagem. “A única maneira de vender plásticos nos EUA e no Canadá é por meio de produtos transformados”, alertou Bauman. A China se especializou no atendimento a mercados de baixa sofisticação e, depois, ampliou o leque de produtos. Dados da Nexant indicam que a China responde por quase a metade dos sacos e sacolas plásticas importadas pelos EUA. A importação total representa 26% do mercado local.
Embora tenham forte presença no mercado norte-americano, principalmente por causa do baixo custo de mão-de-obra (estimado em US$ 0,35 por hora) e da política cambial, os produtos chineses começam a enfrentar vários processos antidumping, além de sofrerem pressões por parte do governo dos EUA para adotar as normas da Organização Mundial do Comércio. “É possível que o relacionamento entre esses países se deteriore, abrindo caminho para novos fornecedores”, comentou.
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Carlos Mariani Bittencourt, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) aponta a China como um bom exemplo de integração setorial a montante. “Primeiros eles desenvolveram um grande parque transformador, com base em resinas importadas, e agora constróem uma grande estrutura petroquímica, que reduzirá a dependência de importações”, comentou. A capacidade produtiva chinesa já se aproxima da alemã, a terceira maior do mundo. Importante salientar a magnitude do mercado interno chinês, com 1,5 bilhão de habitantes, ainda pequenos consumidores de petroquímicos. |
Cuca Jorge |
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| Mariani: preço alto da nafta prejudica o setor |
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