ICE 2003
Sobriedade foi a marca dos estandes

Tinta “verde” explode na feira da Filadélfia


TEXTO E FOTOS DE MÁRCIO AZEVEDO

O maior evento da indústria de tintas dos Estados Unidos, a International Coatings Expo 2003 (ICE 2003), ou Exposição Internacional de Tintas, realizada entre 12 e 14 de novembro no Centro de Convenções da Pensilvânia, revelou o compromisso dessa indústria, estigmatizada por produtos agressivos ao meio ambiente e aos trabalhadores, com o desenvolvimento de produtos mais aceitáveis sob o ponto de vista ambiental. Resinas à base d’água, produtos com baixíssimo ou nulo teor de solventes, e máquinas estanques, que diminuem ou eliminam o contato dos operadores com produtos perigosos, deram o tom do evento na Filadélfia, cidade que por última vez se dedicou a exposição em fase de transferência para Chicago, em 2004.

Não obstante o bom número de novidades vistas durante a feira, foi clara a retração em seu porte. Unânime entre os pouco mais de 270 expositores e 6.000 visitantes, prevaleceu a opinião de que o evento encolheu, fato notado em estandes de pequena área, sem a tradicional suntuosidade de eventos do quilate da ICE. Empresas multinacionais, grandes players globais, escolheram apresentar-se em estandes laterais, normalmente reservados às companhias sem grandes somas para investir. A Degussa, por exemplo, montou estande simplório, sem novidades; a Rhom and Haas limitou-se a instalar um painel com a linha do tempo de sua história, marcada pela introdução das emulsões acrílicas nos anos 50. Ciba e Clariant nem ao menos compareceram.

Esse fenômeno recessivo, aliás, foi marca de algumas grandes feiras internacionais em 2003. Muitos expositores confirmaram que a audiência, enxuta, esteve mais qualificada, e o que se viu foi menos oba-oba, e mais consultas técnicas e propostas consistentes de negócios. A seguir, a reportagem de Química e Derivados lá presente relata alguns dos principais desenvolvimentos lançados na ICE 2003, em meio a temperaturas ao redor de 5°C e ventos cortantes no berço dos Estados Unidos. O leitor conhecerá novos produtos nos segmentos de surfactantes e aditivos antiespumantes, agentes de cura, dispersões, intermediários químicos e resinas diversas de uso nas tintas, além de instrumentos de controle de qualidade.

Muitos expositores da ICE 2003 apresentaram produtos pela primeira vez ao público durante o evento. No estande da norte-americana 3M, um dos destaques foi a nova geração de fluorsurfactantes Novec, composta por dois produtos poliméricos não-iônicos à base de sulfonato de perfluorbutano (PFBS).

 Conforme explicou a gerente de negócios Judith Dow-Grant, da divisão de materiais de performance, os novos fluorsurfactantes oferecem excelentes condições de fluidez, penetração e recobrimento da superfície do substrato, além de maior brilho e adesão para grande variedade de sistemas orgânicos de revestimentos poliméricos, incluindo sistemas à base d’água, à base de solventes e altos sólidos. 
Judith: mais eficiência com menos massa

Recomendados para o uso em revestimentos industriais permanentes, não-dispersivos, como tintas e adesivos, os novos aditivos são compatíveis com diversas resinas, como poliuretanas, epóxis, poliésteres e acrílicos, além de monômeros reativos, como os isocianatos. 

Surfactantes (do inglês surface active agents) são compostos cuja função primordial é reduzir a tensão superficial de líquidos. O uso deles em tintas reduz a ocorrência de defeitos superficiais comuns durante a etapa de secagem do revestimento, como as “cascas de laranja” (orange peeling), as “crateras” (cratering), a repelência (crawling and deweting) e os “olhos de peixe” (fish eyes). 

“Os fluorsurfactantes da 3M são mais eficientes que os à base de hidrocarbonetos e silicone, em quantidades consideravelmente menores”, disse Judith. Os produtos da linha Novec reduzem a tensão superficial de sistemas aquosos ou orgânicos até cerca de 20 dynas/cm, menos que o possível com hidrocarbonetos (30 dynas/cm) ou surfactantes à base de silicone (25 dynas/cm). E, no caso dos hidrocarbonetos, concentrações com magnitude de uma ordem maior são necessárias para obtenção do mesmo efeito. Outra vantagem é que, diferentemente de surfactantes à base de silicone ou de outros fluorsurfactantes convencionais (caso dos sulfonatos de perfluoroctano), os fluorsurfactantes da 3M não prejudicam a adesão das camadas intermediárias de revestimentos (mesmo em altas concentrações), em razão do menor tamanho da cadeia fluoralquílica empregada, comparado às convencionais. A empresa pesquisou também o uso de cadeias ainda menores, como perfluormetil e perfluoretil (obtidas pelo processo de fluoração eletroquímica), mas sem obter os resultados desejados.

Outro produto em destaque foram os metal coated glass flakes (flocos vítreos revestidos com metal), lançados por ocasião da feira. O produto tem funções estéticas (confere brilho metálico quando incorporado às tintas), e pode ser utilizado, inclusive, em esmaltes para unhas e outros cosméticos. Mas, de acordo com a gerente de negócios da empresa, a 3M ainda estuda novas aplicações para os recém-lançados glass flakes.

A divisão de surfactantes da Dow Chemical introduziu um novo produto, o Triton GR-PG70, um dioctil sulfosuccinato aniônico não-inflamável, disponível em ampla faixa de solventes, adequado para tintas à base d’água. O produto melhora a cor, mesmo em sistemas de pigmentos instáveis, favorecendo a umectação dos pigmentos. A empresa também anunciou um novo látex acrílico, o UCAR 9192, para vedantes, além de quatro novos látices para a indústria automotiva.

A bicentenária DuPont também investiu nos fluorsurfactantes, mas como agentes de extensão do open-time, definido como o tempo em que é possível unirem-se as bordas de duas demãos sem que a pintura final apresente marcas. A linha é própria para o uso em tintas látex à base d’água, e pode ampliar o open-time entre 15 minutos e 40 minutos, quando utilizada em concentrações entre 0,1% e 0,5%.

Outra empresa com novidades na área de tensoativos foi a Air Products, originária de Detroit, estado de Michigan. Nesse caso, entretanto, o produto (Surfynol MD 20) introduzido agora no mercado dos Estados Unidos é utilizado como antiespumante molecular em sistemas à base d’água. “Esse é um antiespumante que proporciona controle da formação da espuma mas também melhora as características de molhabilidade da formulação. Diferentemente dos anti-espumantes tradicionais, o princípio de ação do MD 20 não se baseia apenas na incompatibilidade com o sistema”, disse Robert Stevens, Ph.D e gerente de tecnologia da área de performance solutions. 

O aditivo da Air Products interage com a superfície interna das bolhas da espuma, desestabilizando em nível molecular as forças (iônicas, pontes de hidrogênio e forças de van der Waals) criadas pelos surfactantes usados em formulações de tintas que sustentam a estrutura da lamela. 

Durante a ação do produto na interface com a espuma, também ocorre a redução da elasticidade e da viscosidade superficial das lamelas, bem como o aumento da taxa de drenagem do líquido. Todos esses efeitos, combinados, conferem as propriedades diferenciadas dos antiespumantes moleculares. Stevens vai além: “Os anti-espumantes tradicionais tornam-se compatíveis com o sistema após alguns meses, perdendo o seu efeito. Isso não ocorre com o MD 20, cuja ação não depende exclusivamente da incompatibilidade, por isso o aditivo prossegue funcionando indefinidamente”, assegura o gerente. O MD 20 é adequado a diversos sistemas à base d’água, incluindo pinturas automotivas, pinturas industriais, tintas gráficas e adesivos. Stevens não revela a molécula constituinte do aditivo, mas dá a dica: “É um hidrocarboneto baseado na química do acetileno”.

Tensoativos à base de cera - Instalada em um dos maiores estandes, a alemã Byk Chemie participou da ICE 2003 com o objetivo de introduzir no mercado norte-americano os aditivos à base de ceras, uma das especialidades da companhia. A linha de 60 produtos destinada a revestimentos arquitetônicos, industriais, tintas em pó e tintas para impressão engloba emulsões de cera à base d’água, dispersões de cera à base d’água e à base de solvente, precipitados de cera à base de solvente e ceras micronizadas para formulações à base d’água, base solvente ou livres de solvente. 

Aditivos de ceras são usados para melhorar as propriedades superficiais dos revestimentos, bem como controlar as características reológicas e a orientação dos pigmentos em sistemas de alto brilho. “Esses aditivos já são utilizados no Brasil, mas ainda não eram comercializados ou produzidos pela Byk Chemie nos Estados Unidos”, afirmou Aurélio Rocha, gerente de vendas da filial brasileira. 

A empresa destacou dois novos produtos da linha à base d’água, BYK-012 e BYK-017. O primeiro, um antiespumante de alta eficiência livre de óleos minerais e silicone, é especialmente recomendado para emulsões de tintas com faixa de PVC (do inglês pigment volume concentration – fração volumétrica percentual de pigmentos) entre 30% e 85%. 

Cera tem uso no País, mas nos EUA não, afirma Rocha

Devido a sua alta resistência a álcalis, o produto mostra excelente estabilidade durante o acondicionamento em sistemas à base de silicatos. Sistemas de cura ao ar ou por aquecimento em fornos também são algumas das aplicações indicadas. 

No caso do BYK-017, outro antiespumante, o alvo são os concentrados de pigmento base d’água. O aditivo melhora o desempenho do processo de moagem e o manuseio do produto final, pois o produto, ao contrário de muitos antiespumantes convencionais, não perde a ação quando da estocagem.

A empresa também atua no ramo de instrumentos para controle de qualidade, e apresentou um novo medidor de brilho multi-ângulo, o micro-TRI-gloss, e um novo transdutor de força, para a medida da tendência de deslizamento em superfícies lisas.

Outra européia, a Rhodia Additives, também compareceu à ICE 2003 para oferecer novos antiespumantes ao mercado. Foram cinco novos produtos da linha Rhodoline, destinados a formulações de revestimentos, adesivos e tintas para impressão: DF 6120 (à base d’água, para formulações muito sensíveis ao custo, incluindo tintas látex com alta fração de pigmentos); DF 6130 (base óleo, para formulações desde fortemente ácidas até suavemente alcalinas); DF 6160 (base óleo vegetal, indicado para tintas com baixo teor ou livres de orgânicos voláteis, em particular tintas de impressão para embalagens alimentícias e adesivos); DF 6600 (base óleo, próprio para tintas arquitetônicas à base d’água); e DF 6681 (à base de óleo e glicol éster, ideal para sistemas aquosos como adesivos sensíveis à pressão e tintas de alto brilho). 

Segundo o gerente nacional de distribuição Richard Marsh, da área de revestimentos de alto desempenho, a característica comum a todos esses produtos é a ausência de tensoativos à base de EPA (em inglês, alkylphenol ethoxylate, ou alquil fenol etoxilato), prejudiciais à saúde humana. Essas substâncias, produtos da reação de alquilfenóis ramificados – os mais comuns são nonilfenol e octil fenol – com óxido de etileno, sofrem crescente resistência na Europa. Na Inglaterra já foram totalmente banidos. Marsh afirma que a rejeição à substância começa a crescer também nos Estados Unidos, mas ainda é pequena. “Apenas 10% dos visitantes que procuraram a Rhodia demonstraram alguma preocupação com o uso de EPA”, atestou.
Procura por aditivos sem EPA foi baixa, diz Marsh

Cura com epóxis - Na área de aditivos epoxídicos, a Air Products destacou os agentes de cura Anquamine 287 e 701. O primeiro, uma solução 50% de adutor amínico do tipo base de Mannich (aminas cetônicas preparadas pela condensação de uma cetona com formaldeído e amônia, ou uma amina primária ou secundária), foi desenvolvido inicialmente para uso à temperatura ambiente em sistemas epoxídicos bicomponentes à base d’água, tradicionais ou do tipo novolac. A empresa enfatizou seu uso na construção civil, particularmente no recobrimento de concreto fresco. 

“Essa é a única tecnologia disponível que fornece um agente de cura que também funciona como primer e selador”, garante o gerente de mercado da divisão de performance materials Marino Papazoglou. As tintas de fundo (primers) formuladas com o Anquamine 287 seguem os requisitos da norma ASTM 309 para agentes de cura de concreto (perda de água máxima de 0,55 kg/m2), e devido ao seu alto poder de secagem, podem ser aplicadas em 48 horas após o derrame do concreto, muito menos que os 28 dias de espera normalmente necessários. 
Papazoglou: reticulante também é selador e primer

Segundo Papazoglou, há outras vantagens, entre elas a ausência de compostos orgânicos voláteis (VOC, de volatile organic compounds) na formulação, a excelente adesão, a facilidade de mistura com água e resina, a baixa viscosidade (que promove excelente penetração no substrato) e a eliminação da necessidade de jateamento de areia ou remoção do agente de cura antes da instalação de sistemas de pisos. 

Outro produto da linha de aditivos epoxídicos, o Anquamine 701, é um agente de cura semi-permeável à base d’água, adequado a paredes de concreto, novas ou não, expostas à umidade. O agente consiste de uma emulsão polimérica formulada para o uso com resinas epoxídicas líquidas, com zero VOC sem a necessidade de emulsificantes. “Este agente de cura permite a obtenção de sistemas de piso com alta permeabilidade, cerca de cem vezes maior que o observado nos típicos sistemas cicloalifáticos”, disse Papazoglou. Além de prevenir defeitos derivados da transmissão de vapor em substratos de concreto, como a delaminação e a formação de bolhas (blistering), o Anquamine 701 possui conteúdo de aminas livres bastante baixo, e permite a criação de formulações com baixo custo (baseada na incorporação de cargas em frações mais elevadas que as usuais). Afora os revestimentos permeáveis, topcoats com alto brilho, revestimentos anticorrosivos e revestimentos em contato com alimentos e água potável são algumas aplicações em que este agente de cura proporciona desempenho superior. 

A ICE 2003 também foi o palco escolhido pela Air Products para o debut do Hybridur 870, uma dispersão acrílica-uretânica à base d’água, livre de NMP (n-metil-2-pirrolidona), para emprego em tintas monocomponentes de alto desempenho. A resina cura à temperatura ambiente, ou por aquecimento em baixas ou altas temperaturas, e pode ser aplicada em substratos metálicos e plásticos, bem como em madeira e concreto. A empresa afirma ser esta a melhor alternativa a sistemas poliuretânicos tradicionais, no quesito custo/benefício. As tintas formuladas com a resina possuem baixo teor de VOC, aliado à resistência química e à abrasão dos poliuretanos, e aos custos mais atrativos das resinas acrílicas. 

A criação de dispersões livres de NMP, usado como solvente para controlar a viscosidade das formulações, é uma tendência entre produtores, e não apenas por preocupações meramente ambientais. A proposição 65 da Agência de Proteção Ambiental do Estado da Califórnia, por exemplo, lista, desde junho de 2001, o NMP entre os produtos perigosos à reprodução humana. Mais que isso, a agência exige a etiquetagem dos produtos contendo a substância que circulem no Estado (a menos que o produtor comprove que as concentrações respeitam níveis aceitáveis), o que encareceria os produtos finais revestidos com tintas contendo NPM. Latente no discurso ecologicamente correto, o item preço foi também um dos propulsores desse desenvolvimento.


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