CORANTES

Indústria de alimentos adere aos corantes naturais

As opções naturais começam a ganhar mais mercado com o veto crescente aos corantes sintéticos para alimentos

MARCELO FURTADO

A notória simpatia dos consumidores pelos ingredientes de origem natural tem feito nos últimos anos um conjunto de indústrias de formulação de aditivos alimentícios prosperar e investir em pesquisa e desenvolvimento. Os felizardos são os fornecedores de corantes naturais, insumos com função estética e de grande importância para a indústria de alimentos, onde são utilizados para deixar os produtos com cores mais sedutoras para o consumo.

A tendência “natureba”, mais forte no exterior mas aos poucos tomando corpo no Brasil, fez as principais empresas e centros de pesquisa do ramo quebrarem um pouco a cabeça para deixar os corantes naturais mais estáveis à luz e ao calor, para desenvolver novas aplicações e superar problemas de fornecimento. Foi um esforço concentrado e que se aproveitou da cautela mundial com os corantes sintéticos, contra os quais vários estudos ao longo dos anos vêm apontando problemas de alergia e outros malefícios à saúde.

“Dos sintéticos ainda permitidos pelas legislações, todos são obrigados a divulgar os limites de ingestão diária aceitável, o chamado IDA, porque em excesso podem ser prejudiciais”, explicou Paulo Roberto Nogueira, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Alimentos, o Ital, órgão do governo paulista com longa tradição na pesquisa e em análises voltadas ao desenvolvimento da indústria de alimentos.  Cuca Jorge
Nogueira: pesquisas melhoraram estabilidade

A literatura científica, aliás, é farta em apontar cuidados com a ingestão dos sintéticos, a despeito do ainda grande uso deles pelos produtores de alimentos e bebidas processadas. Esses corantes são pigmentos ou tintas sintéticas do grupo azóico, sendo a maior parte delas sintetizada a partir do alcatrão do carvão mineral. Pois bem: sabe-se que 20% da população é alérgica a esses corantes artificiais. Em comum, trata-se de pessoas também alérgicas à aspirina (ácido acetilsalicílico), um universo formado principalmente por adultos de meia idade, com maior incidência no sexo feminino. 

Além desse grupo, também podem ser afetados pela ingestão desses corantes os asmáticos e convalescentes de eczema. Há estudos ainda que associam os corantes azo com casos de hiperatividade em crianças, urticária, indisposição gástrica e vômitos. Logicamente, a quantidade dos corantes sintéticos em produtos não é muito grande (em frações médias de 0,01%), mas preocupa os especialistas a freqüência com o expressivo consumo diário nos mais variados alimentos e bebidas, desde balas, laticínios, sobremesas até refrigerantes e sucos. 

As pesquisas, além de alertar sobre os limites de tolerância dos corantes permitidos, já fizeram vários sintéticos serem proibidos pela maior parte dos países. A publicação de estudos do Codex Alimentarius, órgão ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS), já fundamentou a banição de alguns corantes por ministérios da saúde de todo o mundo, inclusive o brasileiro. Foram proibidos, por exemplo, o amarelo sólido, até então muito empregado em gelatinas; o laranja GGN, usado em pós para sorvetes; o vermelho sólido, para recheios e revestimentos de biscoitos; o azul de alizarina, corante em óleos emulsionados e gelatinas; e o escarlate GN, com uso em recheios de confeitarias.

Tais proibições devem se acelerar no futuro. Os Estados Unidos, onde apenas cinco sintéticos são permitidos, e o Japão já alertaram suas indústrias de que pretendem bani-los na próxima década. A Austrália e os países escandinavos também possuem leis restritivas aos corantes sintéticos e o mesmo deve ocorrer nos demais países europeus, que por vocação dão preferência a produtos naturais. 

No momento, a legislação brasileira, atualizada com boa parte das leis internacionais e seguindo as recomendações multilaterais da FAO (Food and Agriculture Organization), permite apenas oito sintéticos (ver tabela pág.20) e mais cinco sintéticos idênticos aos naturais (betacaroteno, beta-apo 8’ carotenal, éster etílico do ácido beta-apo 8 carotenóico, riboflavina e xantofila). A permissão é condicionada à indicação nos rótulos sobre a sua condição sintética e sobre a ingestão diária aceitável.

O fato destes corantes sintéticos serem permitidos, porém, não anula seus efeitos adversos, que embora não sejam divulgados na embalagem estão disponíveis em artigos científicos. Por exemplo, a eritrosina, corante sintético vermelho, consta como causadora de hipertireoidismo quando consumida em excesso. Também o vermelho Ponceau pode causar anemia e uma doença renal (glomerulonefrite), enquanto o amarelo tartrazina recentemente foi associado como causa de insônia em crianças. 

Alternativa natural – Como resposta aos riscos, e tirando o proveito da crescente má fama dos sintéticos, os corantes naturais ganham espaço. Trata-se de uma conquista gradual, não maior por causa das vantagens competitivas dos sintéticos. Além da estabilidade bastante superior aos naturais, esses corantes artificiais possuem maior capacidade tintorial, traduzida por um poder de melhor fixação nos alimentos, com cores mais intensas e menor custo, tanto por necessitar de dosagens menores como por seu preço direto inferior. 

Mas foi justamente para diminuir essa diferença na disputa que os interessados na comercialização dos aditivos naturais procuraram, em conjunto com alguns clientes, melhorar o desempenho dos corantes naturais. As iniciativas tomaram as mais variadas formas, desde as tecnológicas, até as de garantia de fornecimento constante de matérias-primas, no passado muito sujeitas à sazonalidade da atividade agrícola.

Os desenvolvimentos englobaram as principais famílias cromáticas dos corantes naturais: amarelo (curcumina, luteína, carotena); a laranja (urucum e páprica); vermelho (carmim, licopena, betanina e antociana) e verde (clorofila). Mas, de forma específica, prevaleceram nos cinco corantes naturais considerados de maior importância no mercado mundial: o urucum, a páprica, a cúrcuma, as antocianinas e o carmim de cochonilha. 

Divulgação
Colheita de Cochonilha (no destaque): carmim estável e versátil

No caso do aspecto tecnológico, destacam-se os esforços de alguns grandes laboratórios para tornar os corantes solúveis em água. Isso foi possível, segundo explicou o pesquisador do Ital, Paulo Nogueira, com o encapsulamento dos corantes em bases de amido, gomas e gelatinas, tornando-os uma emulsão. “Isso ampliou o uso para outros produtos, tendo em vista que a maior parte deles, sobretudo os carotenóides e antraquinonas, eram apenas lipossolúveis”, afirma.

 
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