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Curtumes aderem à onda ecológica
Encontro técnico da indústria do couro em Foz do Iguaçu reúne especialistas para discutir meios de
reduzir os impactos ambientais do beneficiamento químico
Texto e fotos de Fernando de Castro
Tornar a atividade do curtume um processo ecologicamente viável é o principal desafio lançado pela Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), com sede na cidade gaúcha de Estância Velha, a meca da tecnologia em curtimento de pele no Brasil. A cada dois anos, a entidade reúne seus associados para debater os avanços alcançados e os obstáculos para o futuro. Entre 9 e 11 de outubro, o grupo de técnicos repetiu a rotina no XVI Encontro Nacional da Abqtic, realizado na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná. Na pauta do evento, as novidades em insumos, processos e controle de efluentes, sempre com os olhos voltados às legislações ambientais, sobretudo com relação às normas da União Européia e dos Estados Unidos, países importadores de grandes volumes do couro made in Brazil.
Entre os principais trabalhos a grande maioria bateu incisivamente na tecla da questão ambiental. Quando se fala em fabricação de couro existem duas preocupações ecológicas importantes: a primeira diz respeito ao processo em si, uma vez que da pele esfolada até o produto acabado podem ocorrer aproximadamente 24 reações químicas. O segundo ponto é o tratamento do resíduo industrial, pois toda gama de substâncias – incluindo a incidência cada vez mais contestada de metais pesados – precisa passar por tratamento adequado dentro da planta, antes do despejo em rios e mananciais.
Pelo que foi dito e repetido no XVI Congresso da Abqtic a parte de processo parece ser o aspecto mais complicado. Um dos primeiros palestrantes a tomar a palavra, Lukas Haeussling, da alemã Basf, desembarcou no Brasil com um retrato realista do cenário sobre substâncias restritas ou proibidas e uma bíblia de legislações da União Européia, algumas valendo desde 1º de julho de 2003, e um conjunto de regras a vigorar até 2006. Em sua palestra, Haeussling esclareceu uma série de aspectos sobre normas técnicas relacionadas com a poluição do ar, reciclagem, controle de processos na indústria automotiva e tratamento de resíduos industriais.
Há ainda uma norma mais antiga, VOC, de março de 1999, para produtos voláteis, restringindo os etoxiliados de alquilfenol. Da Califórnia, Estados Unidos, vem a norma NMP, sigla do solvente N-metilpirrolidona, utilizado no acabamento do couro e alvo de enorme pressão. A tendência é o NPM ficar restrito nos demais estados norte-americanos nos próximos dois anos até a proibição definitiva. Também se encontram na lista negra diversas substâncias como o PCP (pentaclorofenol), o TBT (tributilestanho), encontrado como impureza na catálise para dispersões, metais pesados dos pigmentos e solventes.
Já os alcanoclorados C-10 e o C-13 estão proibidos desde primeiro de julho na Europa. Como frisou Haeussling, muitas dessas substâncias aparecem durante o processo e desaparecem no produto manufaturado, como calçados, por exemplo, não acarretando em problemas para os exportadores brasileiros. Ele sugere, mesmo assim, a realização de análises de substâncias no couro vendido ao exterior, evitando prejuízos irreparáveis. Para se ter uma idéia do alcance do problema, no caso da Alemanha, se algum produto restrito ou proibido aparecer no lote, a carga é confiscada e destruída. “A situação é complicada. Há naturalmente dúvidas por parte dos curtumes em relação ao fornecimento e à qualidade da matéria-prima”, assinalou o executivo da Basf.
Para Haeussling, o endurecimento das legislações obriga os curtumes a se ajustarem às novas regras. A Basf, enfatizou, assim como a indústria química de primeira linha, já oferece uma gama de produtos ambientalmente corretos. Basicamente, a nova geração de substâncias busca a substituição de solventes, engraxantes de origem animal e petroquímicos por produtos solúveis em meio aquoso e óleos vegetais provenientes de plantas como a carnaúba.
De qualquer forma, o vilão dos curtumes continua sendo o cromo. Embora na valência 3 não ocorram maiores restrições, a presença de sua variação em valência 6, devido às propriedades supostamente cancerígenas, estão restritas a 3 ppm na Alemanha e 10 ppm, na legislação da União Européia, à qual todos os países do bloco deverão aderir em 2004. Recentemente, em um ensaio de laboratório no país germânico, pares de sapato formatados em couro brasileiro apresentaram cromo 6 além do permitido. Estudo posterior absolveu o produto made in Brazil e mostrou que a combinação da cola e do catalisador, sob o calor de uma estufa, na etapa de montagem dos calçados, provocou a reação química, elevando a valência do cromo de 3 para 6.
Atualmente, a pesquisa em torno do cromo está voltada ao aperfeiçoamento do processo. Conforme o estudo da Basf, alguns procedimentos podem diminuir os riscos de incidência do cromo 6: evitar substâncias com amoníaco, baixar o pH nas reações e não usar óleos saturados de peixe são algumas das sugestões. O raio ultravioleta e o mofo também ajudam no aparecimento dessa variação do elemento químico. Agentes curtentes vegetais como o tanino, e recurtentes sintéticos em substituição ao cromo, também aparecem como alternativas, além do uso controlado de agentes engraxantes. “Na Alemanha, os automóveis da Volkswagen estão saindo da linha de montagem, com estofados curtidos e recurtidos sem cromo”, antecipou Haeussling.
Quando o Congresso da Abqtic passou a discutir os corantes entrou no circuito a equipe de técnicos da Clariant, com um aviso. Pela diretriz 2002/G1/ CE do Parlamento Europeu há uma lista com 2.500 substâncias azóicas em suspeição, embora apenas 100 tenham apresentado uma das 22 aminas com propriedade carcinogênicas. Em termos práticos, explicou Jorge Maldaner, executivo da empresa, não muda muita coisa porque as principais fábricas de corantes globalizadas estão vinculadas a um tratado internacional por meio do qual se comprometem a eliminar as substâncias restritas dos corantes. A situação mais grave, no seu entender, se relaciona com os pigmentos à base de benzedina, empregados para o couro com acabamento em preto, classificados como cancerígenos desde os anos 70. Apesar da abolição desses produtos pelos principais fabricantes de corantes, pigmentos de baixa qualidade, originários da China e Índia, onde a substância é tolerada, podem apresentar uma das aminas condenadas. Maldaner calcula que 25% dos corantes pretos para couro consumidos no Brasil são importados. Nesse caso, ele sugere aos curtumes a exigência, por parte do fornecedor, de laudo técnico, produzido por laboratórios idôneos, atestando a ausência dessa toxina. “Você até pode usar um produto que contenha uma amina proibida desde que ela não se torne uma molécula livre”, esclareceu Maldaner.
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Tratamento dos resíduos – Se nas reações de processo os curtidores precisam ficar antenados, com relação ao tratamento dos resíduos pós-industriais não existem motivos para preocupação. Esse é o entendimento do atual presidente da Abqtic, Alexandre Finkler. “O curtume é visto como um vilão. Todos os curtumes do Brasil têm tratamento exemplar. As águas resultantes do processo são tratadas e devolvidas aos rios e mananciais nas condições determinadas pela legislação ambiental. São melhores do que muito esgoto sanitário”, desafiou Finkler. |
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| Finkler: curtumes são vítimas de preconceito |
“Em Estância Velha todos os curtidores exibem placas indicando onde estão localizadas suas estações de tratamento para quem quiser conferir e para onde vai a água. Esse é o quadro nacional”, declarou o presidente da Abqtic em entrevista à Química e Derivados.
Há pelos menos 20 anos, acrescentou Finkler, os curtidores foram obrigados a construir sistemas de tratamento de seus esgotos industriais. Numa defesa contundente de seu segmento, ele indagou: “Se não existisse o curtume para onde iriam as 35 milhões de peles de boi esfoladas a cada ano no Brasil, onde ocorreria a decomposição dessa matéria orgânica?”, finalizou.
Quando o tema é tratamento de efluentes, a despesa do curtume é significativa.
Em média, são mil peles abatidas por dia em cada um dos 320 curtumes brasileiros, gerando 500 metros cúbicos de esgoto industrial por unidade produtiva. A implantação de uma estação de tratamento não sai por menos de US$ 1 milhão e o custo mensal para a operação, levando-se em conta essa média, chega a US$ 250 por dia. Para o consultor de empresas e engenheiro ambiental Roberto Maia, o importante é que o processo melhora a cada dia, facilitando a operação de limpeza dos efluentes. “Os donos de curtumes estão aprendendo a substituir insumos, a melhorar o esgotamento do couro e aprendem a reciclar produtos”, opinou.
Um exemplo da afirmação de Maia é o sulfeto de sódio, empregado na depilação do couro, numa das primeiras etapas. Atualmente, o material é reutilizado após passar por uma filtragem. Seu resíduo sólido é repassado à indústria de fertilizantes para a fabricação de corretores de pH do solo. Além disso, o sulfeto de sódio reciclado demonstrou funcionar melhor do que o novo por conter matérias orgânicas com propriedades capazes de melhorar o processo de depilação. “A maioria já está fazendo isto”, afirmou Maia. Outra prática adotada é a redução da água consumida. “Hoje existe uma guerra na indústria química que é uma briga sadia para ver quem consegue fabricar o produto mais reciclável ou menos nocivo ao meio ambiente”, elogia o consultor.
Existem diversas experiências no sentido de reaproveitar os resíduos do curtimento. Em Apucarana, no Paraná, uma olaria está misturando as cinzas de um curtume da região à argila. “O resultado é um tijolo mais leve e ao mesmo tempo com maior resistência”, atestou Fernando Richter, um dos participantes do congresso da Abqtic.
O tratamento do resíduo industrial em curtumes tem três gerações tecnológicas. A primeira dos anos 70 consistia em atacar quimicamente os agentes poluentes numa lagoa de estabilização. Na segunda geração, os técnicos desenvolveram um sistema de lodo ativado, onde a matéria orgânica e demais substâncias entram em reação formando a cadeia alimentar de bactérias pelas quais são consumidas. Na terceira geração, a mais recente, busca-se a diminuição do uso de produtos poluentes, reciclagem, melhoria dos processos, esgotamento maior dos sais de cromo e eliminação do cromo no recurtimento. A quarta geração, ainda em fase de pesquisa, consistiria em montar a estrutura para a reutilização da água pós-tratamento no processo industrial em ciclo fechado. Uma das partes com custo mais alto é a eliminação de substâncias nitrificadas, cuja eficácia depende do uso de carvão ativado, material considerado muito caro.
Mesmo assim, chamou atenção uma experiência realizada no curtume-escola do Senai do Rio Grande do Sul. Financiado por verba do Projeto Brasil Alemanha – um programa de pesquisa tecnológica em controle ambiental que funcionou até junho deste ano em convênio com o país germânico. No estudo, a equipe coordenada por Roberto Maia utilizou um reator de lodo óxico tipo Carrossel, com uma zona anóxica, para recirculação de licor nitrificado. Os pesquisadores conseguiram remover o nitrogênio, após oito dias de retenção hidráulica do efluente, proveniente do curtume em temperatura média de 20ºC, submetido a carvão ativado em pó, adicionado ao lodo, compondo assim um sistema de carvão ativado-lodo ativado.
No período de testes, todo o lodo biológico foi recirculado para os reatores, e não foi realizado descarte de lodo biológico com carvão ativado. A presença do carvão ativado potencializou a remoção do nitrogênio. “Estamos atrás de um curtume pioneiro disposto a investir nessa experiência”, informou Maia. A contrapartida seria um aporte inicial de R$ 2,5 mil para aquisição do carvão ativado em pó.
Ainda assim, uma minoria de curtumes em regiões de Minas Gerais e Mato Grosso podem estar encontrando dificuldades para montar a estrutura adequada no tratamento dos resíduos industriais. “Eu andei por lá e não gostei do que vi em alguns lugares”, afirmou Roberto Maia. No seu entender, as empresas com problema são pequenas exceções e não a regra geral. “De São Paulo para baixo todos os curtumes estão perfeitamente adequados à legislação de controle de resíduo industrial”, finalizou Maia, referindo-se também aos curtumes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
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