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Origem natural garante evolução de negócios
Lastreada por óleos e gorduras obtidos de fontes renováveis, a oleoquímica retoma
fatias de mercado nos produtos de consumo e mostra força para disputar aplicações
industriais
MARCELO FAIRBANKS
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A produção de derivados oleoquímicos virou o jogo. Mais do que centenária, essa indústria perdera prestígio com o advento da petroquímica, suportada com preços relativamente mais baixos, pelo menos até a década de 1970. Além do preço, os derivados do petróleo e do gás natural foram vistos como modernos, com possibilidades ilimitadas de oferecer variações de moléculas. No entanto, o apelo ecológico devolveu o charme aos produtos obtidos a partir de matérias-primas de origem natural e renovável, ainda que exijam processos mais complexos e sofram com sazonalidades e quebras de safra dos produtos agropecuários.
Na visão atual de modernidade, os derivados dos ácidos e álcoois graxos deslocam ingredientes sintéticos das formulações de produtos de higiene pessoal e cosméticos, além de mostrar força até em alguns domissanitários. |
Divulgação |
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| Hidrogenador de alta pressão da SGS |
Nas linhas industriais, o uso já é consagrado em lubrificantes e aditivos para plásticos e borracha, sem falar na produção de resinas alquídicas para tintas.
O mercado mundial reflete o quadro recessivo da economia global. “Os preços estão muito deprimidos, com demanda apenas estável, insuficiente para absorver toda a produção do setor”, avaliou Ramon Vargas Fernandez, gerente regional de vendas da Cognis Brasil.
| Cuca Jorge |
Na Europa, já se fala em excesso de capacidade de álcoois graxos, por exemplo, enquanto as produtoras de óleos e derivados da Ásia atuam com desenvoltura, apoiadas pela disponibilidade de óleo de palma barato. A queda foi recente, pois, segundo Fernandez, até 2002 os negócios cresciam muito bem, mantendo os preços equilibrados em todas as linhas. “Para 2003, não esperamos crescimento em nenhum mercado, nem para a Cognis, nem para os concorrentes”, comentou. No entanto, a empresa mantém firme o projeto de ampliar em 20% sua capacidade de álcoois em todo o mundo, além de estar estudando um reforço na oferta de ácidos graxos. |
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| Fernandez: investimentos em capacidade desafiam
crise |
O Brasil, com produções crescentes de soja e de bovinos, fica em estágio intermediário. A oleoquímica nacional segue limitada às operações básicas de destilação e hidrogenação, restringindo-se à oferta de ácidos graxos mistos, com honrosas exceções. No campo dos alimentos e aditivos alimentares os avanços são mais significativos, com a oferta das recentes gorduras e óleos hidrogenados isentos dos isômeros trans, de periculosidade controvertida. Já na área dos insumos industriais, a situação é mais conservadora.
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“Cabe informar, de princípio, que a oleoquímica industrial não concorre com a oferta de alimentos, como óleos comestíveis e margarinas, mas usa subprodutos dessas linhas”, salientou Munir Aboissa, diretor geral da Aboissa Óleos Vegetais, empresa especializada na comercialização de matérias-primas oleoquímicas. “O problema é que em toda a América Latina só existem umas três ou quatro indústrias com portfólio, escala e tecnologia de nível mundial no setor”, lamentou.
No caso brasileiro, a histórica deficiência local em ácidos fracionados é justificada pela carência de matéria-prima adequada, pois o óleo mais abundante, o de soja, é limitado a cadeias carbônicas na faixa de C18. |
Cuca Jorge |
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| Aboissa: América Latina carece de indústrias
de porte mundial |
“O ideal seria contar com um suprimento grande e estável de óleo de coco ou de babaçu, de composição mais diversificada, que permite a obtenção de frações mais nobres”, explicou Aboissa. Nesse quadro, os concorrentes asiáticos levam vantagem, operando instalações para mais de 100 mil t/ano de ácidos, enquanto a média nacional oscila entre 5 mil e 10 mil t/ano.
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O consultor independente Bernhard Reusch estima a capacidade mundial de oleoquímicos básicos em 6,5 milhões de t/ano, que deve ser mantida pelo menos até 2005. “Enquanto as regiões líderes, Europa, Ásia e EUA mantêm taxas de ocupação superiores a 85%, a América Latina e as demais oscilam de 50% a 60%, em média”, afirmou. A sub-utilização da capacidade existente é explicada no Brasil pela instabilidade econômica crônica.
“Sem contar com produção em larga escala, a América Latina importa grandes volumes de oleoquímicos”, comentou Reusch. Ele citou a exceção dos produtos derivados do ácido esteárico, bem abastecidos, pelo menos no Brasil. |
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| Reusch: logística prejudica a integração da
cadeia produtiva |
“O País deixou de ser importador para se tornar exportador de sebo bovino”, explicou. Com isso, a oferta local de ácido esteárico é boa, avaliada por ele em 15 mil t/ano, que representam mais ou menos 60% da produção latino-americana (exceto México).
Quase a totalidade da produção é realizada por meio de hidrogenação, permitindo obter produtos de baixo índice de iodo, mais estáveis e com menos cheiro. As antigas linhas de produção de estearina por filtragem sob pressão foram praticamente descontinuadas.
Enquanto vai bem a linha esteárica, a do ácido oléico conseguiu triplicar sua produção durante os últimos dez anos, passando de 3 mil para 10 mil t/ano, segundo estimativa do consultor. “Há espaço para crescer mais”, afirmou.
Reusch salientou que a América Latina é rica em matérias-primas vegetais e de origem animal, mas apresenta sérios problemas para o aproveitamento regional desses produtos. “As operações logísticas dentro da região, e mesmo dentro do Brasil, são muito caras, a ponto de inviabilizar movimentação de mercadorias de baixo valor”, comentou. “Às vezes, é melhor trazer o produto de Roterdã do que de Manaus.”
Segundo ele, há uma possibilidade de desenvolver a indústria oleoquímica na Colômbia, país que enfrenta escassez de óleo diesel. Como a produção de palma (dendê) é grande, Reusch defende o aproveitamento do óleo de palma para a produção de éster metílico, que poderia substituir de 5% a 7% do consumo de diesel. Das amêndoas ou nozes, pode ser extraído óleo de palmiste (palm kernel) suficiente para alimentar uma unidade produtora de álcoois graxos de alta qualidade. “A América Latina importa aproximadamente 250 mil t/ano desses álcoois”, salientou. O insumo é muito usado nas mais recentes formulações de artigos de higiene pessoal e cosméticos.
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