Também faz parte da etapa de sinergia com outros modelos de gestão a adequação do AR com o Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Os novos guias de implementação terão o cuidado de responder também os questionamentos necessários para concorrer ao PNQ, e de forma ainda mais detalhada. “Convidamos a FNPQ [Fundação para o PNQ] e a FEA-USP [Faculdade de Economia e Administração da USP] para participar da elaboração do novo modelo”, ressalta Kós. 

Depois de discutido o modelo com as signatárias, o plano é sentar com as certificadoras para promover melhor sinergia e até mesmo alterar o atual VerificAR, para adequar automaticamente as empresas aos outros sistemas.

Para o coordenador executivo do Atuação Responsável, Antonio Rollo, também diretor superintendente da Akzo Nobel, toda essa movimentação, em resumo, se traduz em dois pontos fundamentais: transformar o programa em uma ferramenta de gestão ampla e inédita e simplificá-lo de tal maneira que qualquer empresa química, inclusive as não-associadas da Abiquim, possa implantá-lo. “A revisão é uma oportunidade única de se criar um programa que definitivamente melhore a imagem da indústria química, tornando seu processo mais transparente”, diz. 

Rollo quer aumentar transparência externa

Tanto é assim que, segundo ele, são grandes objetivos da revisão focar com mais preocupação os indicadores de desempenho, para oferecer e divulgar mais dados ao público externo, e a tentativa de voltar as atenções da sociedade e do próprio setor mais para os produtos da indústria do que para seus processos. Nesse ponto, ganha importância os trabalhos de análise do ciclo de vida do produto.

Para facilitar o acesso do programa a empresas menores, a idéia é escrever uma cartilha com as 20 principais práticas. Voltada especificamente para indústrias sem muita estrutura, a iniciativa será um Atuação Responsável resumido, possivelmente denominado manual PreparAR. “Será uma ponte para quem não tem nenhum sistema de gestão poder se aproximar do programa”, afirmou Marcelo Kós. Segundo ele, aliás, trata-se de projeto pioneiro no mundo. Nenhum dos 47 países signatários do AR até hoje cogitou iniciativa semelhante. “Tenho certeza que o manual terá boa aceitação mundial, visto que atende um anseio da coordenação mundial do programa de expandi-lo a empresas e países de menor importância econômica”, diz.

Mas não é só nesse aspecto que Marcelo Kós vê pioneirismo no processo de revisão brasileiro. De acordo com ele, apesar de a associação internacional da indústria química (ICCA) promover mundialmente o reordenamento do Responsible Care, nenhum país faz as modificações no nível da realizada pelo Brasil. “No mundo, a revisão se limita aos princípios diretivos, que vão ser mudados para ter um caráter global e voltado ao desenvolvimento sustentável”, afirma. Isso não significa que os outros países estejam mais avançados que o Brasil, por não estarem fazendo revisão. Nos Estados Unidos, agora é que está sendo criado um sistema de verificação para o programa completo de gerenciamento, o RCMS (Responsible Care Management System). Até então havia apenas uma verificação harmonizada com a ISO 14001, concedente da certificação RC 14001, voltada para atender às exigências ambientais de montadoras americanas.

Quando ficar pronta, a revisão deve tornar o programa brasileiro inédito. Apesar da versão canadense também ser estruturada por processos, ela não tem o mesmo perfil harmonizador com as demais normas e não inclui os novos temas, como questões sociais e a proteção corporativa (security). “Nenhum programa no mundo terá a amplitude do nosso”, prevê Marcelo Kós. Esse papel de liderança do Atuação Responsável nacional, aliás, se manifestará logo após o congresso deste ano, quando a Abiquim organiza nos dias 2 e 3 de outubro o 1º Encontro Sul-Americano do Atuação Responsável, atendendo a uma solicitação da ICCA para promover a união regional dos países signatários.

Security – Apesar do Brasil em certos pontos situar-se à frente de países desenvolvidos, na questão da proteção corporativa, ou security, a Abiquim e seus associados seguem uma onda provocada pelos Estados Unidos. Com os atentados às torres gêmeas de 11 de setembro de 2001, a sociedade americana aumentou consideravelmente as atenções contra eventos voluntários que coloquem em risco sua segurança. Esse surto paranóico atingiu também a indústria química americana, um alvo óbvio para terroristas que porventura desejem provocar acidentes de graves proporções em instalações industriais.

Como resposta, a associação americana da indústria química (ACC) criou em tempo recorde, um mês após os atentados, em outubro de 2001, um documento chamado Security Guideline for US Chemical Industry, que daria origem, em julho de 2002, ao código de segurança corporativa e logo em seguida ao seu guia de implementação. Trata-se de caudaloso material, criado com a liderança de empresas americanas mais adiantadas nessa questão, que em suma contém 13 práticas complexas para promover a segurança da corporação, das instalações e das pessoas da indústria contra eventos provocados. 

A partir da iniciativa, todas as indústrias químicas associadas da ACC passaram a ser obrigadas a adotar o código em um cronograma apertado. O documento tornou compulsória às empresas a aplicação de um protocolo da Sandia National Laboratories, que realiza análises da vulnerabilidade e cuja metodologia permite a definição dos riscos da corporação. Com o protocolo, as empresas passam a ter elementos para fundamentar medidas de proteção, com mapeamento das probabilidades de sofrer eventos indesejados e dos prazos para se proteger. 

Faz parte ainda do código americano medidas para pesquisar os antecedentes de funcionários e prestadores de serviços, para controlar o acesso e cercar as instalações, e até mesmo procedimentos para se adotar serviços de inteligência. 
Nesse último caso, embora pareça exagero, trata-se de ocorrência adotada por alguns grupos empresariais até antes do 11 de setembro. Para evitar e desmascarar casos de espionagem industrial, empresas como Dow e DuPont já utilizavam desse metiê e passaram a usá-lo com mais uma nova função: a de se precaver de terroristas. Não por menos, o diretor global de segurança corporativa da DuPont é um ex-agente da polícia federal norte-americana, o FBI.

No Brasil, logicamente, estão sendo necessárias várias traduções e adaptações. Em primeiro lugar, a própria tradução do inglês da palavra security demandou discussões no grupo de estudos da área na Abiquim. 

Isso porque tanto safety, utilizado para definir segurança do trabalho, como security, possuem o mesmo significado literal em português de segurança. “Mas não poderíamos manter a palavra, sob o risco de interpretações errôneas”, explicou o responsável pela comissão formada na Abiquim para implantar o tema, César Garcia. A solução foi criar o termo proteção corporativa. A discussão lingüística também gerou outras conclusões. Segundo explica Garcia, safety, a segurança ocupacional, significa proteger a empresa contra eventos involuntários, ou seja, acidentes do trabalho. Já security se traduz como a segurança contra agressões voluntárias, de terroristas ou afins.
Garcia: security vai dar origem a práticas

A definição para o sentido correto em português também demandou outra pequena correção, de cunho mais factual à realidade brasileira. As agressões voluntárias de origem nacional são provenientes de outro tipo de criminoso. Afinal de contas, até agora o Brasil não criou animosidade com o mundo islâmico, como os Estados Unidos. No caso brasileiro, evidentemente, as precauções são voltadas para o crime comum, desde roubo de cargas e agressões a funcionários e executivos das empresas, até assaltos, seqüestros e demais contravenções. 

Os trabalhos da equipe coordenada por César Garcia, que reúnem profissionais da área de segurança do trabalho e patrimonial, de tecnologia da informação e de logística, começaram com a tentativa de identificar nos códigos atuais do Atuação Responsável alguma prática igual à do documento de security da americana ACC. 
Para espanto da equipe, foi encontrada apenas uma, que dita procedimentos para a prevenção na entrada de pessoas não-qualificadas em áreas impróprias da fábrica. Mesmo assim, a prática é muito genérica e visa atender cuidados em prevenir acidentes de trabalho. 

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