Tratamento de Superfície

TRATAMENTO DE SUPERFÍCIE

Recessão faz setor vender fórmulas para reduzir custos

Mercado se retrai com o desempenho negativo dos principais clientes, os setores automotivo e eletroeletrônico. A saída é tentar comercializar processos econômicos.



MARCELO FURTADO

Se fosse possível, o mercado de tratamento de superfícies gostaria de esquecer o último ano. Dependente de importações e de matérias-primas com preços cotados em dólar, cuja valorização impactou de maneira assombrosa o seu custo de produção, o setor ainda não se acostumou a conviver com uma queda brutal no consumo dos produtos de seus principais clientes, como a indústria automotiva e a de eletrodomésticos. 

No caso dos carros, considerados os principais consumidores de peças tratadas, a retração nas vendas dos últimos seis anos foi de 21% e o setor, assim como o de eletroeletrônicos, opera hoje com ociosidade próxima dos 50%. Alie-se à conjuntura desfavorável dos clientes a crescente importação de produtos metálicos acabados da Ásia, de qualidade duvidosa mas extremamente baratos, e não faltarão motivos para as empresas de processos químicos para eletrodeposição, galvanoplastias e demais participantes do mercado se esforçarem para apagar o período da memória. 

O pior para o setor, nesse momento de crise, é a sua fragilidade dentro da cadeia produtiva, em termos de poder de negociação. Pressionadas por clientes peso pesado, como montadoras e grandes grupos de eletroeletrônicos, as empresas ou limitam ao máximo os repasses dos aumentos de matéria-prima, na maior parte do tempo justificáveis, ou deixam de fornecer. Levando em consideração a forte concorrência do setor, em que cerca de 5 mil empresas de todo o País se engalfinham por negócios, a solução adotada pela maioria foi ceder às pressões.

Isso não significa, porém, que os fornecedores não tenham conseguido fazer nenhum repasse. Apenas eles precisaram ser bem aquém do necessário, segundo informa a maior parte das empresas. Em média, só foram possíveis aumentos entre 10% e 20%, inferiores à pressão cambial acumulada no período, de até 60%. 

“Tivemos que reduzir drasticamente as margens de lucro”, explicou Milton Moraes Silveira Jr., diretor-superintendente da Atotech do Brasil, uma das principais empresas de processo para tratamento de superfícies. Segundo ele, o repasse máximo a alguns clientes, depois de muito esforço de negociação, não ultrapassou o limite de 20%. Cuca Jorge
Moraes: margem de lucro reduzida

A queda do dólar, neste fim de semestre, e a prometida recuperação da economia, a partir do último trimestre de 2003, traz um pouco de alento para os produtores, mas ainda não suficiente para provocar euforia. Avaliado em US$ 500 milhões, contando galvanoplastias, empresas de processos, fabricantes com tratamento de superfície próprio e fornecedores de matérias-primas, o mercado ainda prevê um período longo de retração nas vendas. Primeiro porque as perdas oriundas do choque da variação cambial não têm muitas chances de serem ressarcidas. “Depois que aceitamos absorver os aumentos, os clientes não vão admitir que voltemos a trabalhar com as margens de lucro do passado”, ressalta o diretor da Atotech. 

O outro motivo para não se prever uma recuperação tão rápida tem a ver com a própria dinâmica da macroeconomia. Após períodos de retração do consumo, e de conseqüente ociosidade na indústria, os investimentos, responsáveis pelo crescimento de fato, demoram para surgir de novo. Analistas estimam que a possível recuperação no segundo semestre deve ser apenas para compensar o fundo do poço dos primeiros meses do ano e fazer o crescimento anual do PIB chegar próximo da meta do governo de 1,8%. Um pouco mais de otimismo só pode ser considerado sensato se for para embasar previsões relativas a 2004. Se nenhum acidente de percurso ocorrer, e o governo mantiver a estabilidade e promover a queda lenta nos juros, no próximo ano a classe média pode voltar a comprar carros, televisões e outros produtos que movimentam o mercado de tratamento de superfície, cujo crescimento anual historicamente é cerca de 20% a 30% maior do que o do PIB nacional.

Estagnação tecnológica – A recessão dos últimos meses, bem como o ritmo lento da economia nos anos anteriores, não afetou apenas o faturamento das empresas de tratamento de superfície. A evolução tecnológica do setor foi muito prejudicada em virtude da pressão exercida pelos grandes clientes para reduzir custos produtivos. Esse fenômeno fica nítido ao se observar algumas tentativas malsucedidas de introdução de novos materiais químicos de eletrodeposição.

No final da década de 90, havia a forte convicção de que as montadoras de automóveis passariam a exigir o uso de ligas de zinco para peças instaladas em ambientes de alta corrosão. A tentativa de repadronização dos revestimentos de zinco, cuja aditivação com níquel, ferro ou cobalto aumenta em muito a resistência anticorrosiva do material tratado, seguia tendência das matrizes dos grupos, que já possuíam normas para produção de peças, como tubos de fluidos de freio, parafusos e outras engrenagens de motor com as ligas de zinco.

No Brasil, as montadoras chegaram a tentar cumprir as determinações de padronização das matrizes e anunciaram metas de substituição, provocando forte expectativa de negócios para as novas formulações. Mas, do mesmo modo que cogitaram a nova obrigação, também passaram a exigir das galvanoplastias custos iguais aos praticados com os revestimentos apenas de zinco. Resultado: a mudança foi inviabilizada, pelo motivo óbvio de que as formulações das ligas eram mais caras. Hoje esses processos representam um percentual muito baixo do mercado.

Além da pressão dos clientes, que tornaram magras as margens de lucro do setor, as próprias características da indústria de galvanoplastia dificultam os investimentos em tecnologia. Por tratar-se de processo altamente agressivo, onde equipamentos possuem vida útil limitada, precisando ser constantemente trocados, e onde o tratamento de resíduos e efluentes tem peso importante no custo total, qualquer modificação na produção deve ser avaliada na “ponta do lápis”.

Cuca Jorge  Tem essa opinião o diretor técnico Airi Zanini, da Anion MacDermid, outra empresa importante em processos de eletrodeposição. “Hoje em dia quando o cliente junta todos os seus custos fixos e variáveis, ele percebe que não tem condições de investir em novidades”, lamenta Zanini. 
Zanini: nacionalização com americanos

Apesar da crise – O perfil desfavorável para investimentos não impede, porém, que as empresas de processo tentem aos poucos convencer os clientes em empregar algumas tecnologias desconhecidas no Brasil. A motivação se funda não só na esperança com a recuperação do mercado a longo prazo como na necessidade imediata de reduzir custos. Afinal de contas, o trunfo de alguns processos mais modernos é reduzir o consumo de insumos importantes da galvanoplastia, como água, energia e químicos. Por esses motivos, os fornecedores tentam aplacar o estado depressivo do setor com a divulgação de algumas novidades. 

Quando se fala em tecnologia de processos químicos de eletrodeposição, formulações de abrilhantadores e outros aditivos que integram os banhos de metais (anodos) e sais (condutores) para possibilitar os revestimentos, os desenvolvimentos vêm quase todos do exterior. As empresas da área ou são controladas por grupos estrangeiros ou precisam atuar com contratos de licenciamento tecnológico ou como representantes. A Atotech, de Taboão da Serrra-SP, pertence ao grupo francês TotalFina Elf; a Tecnorevest, de Barueri-SP, possui vários acordos com empresas estrangeiras; e a Anion Química Industrial, de Jandira-SP, foi adquirida pelos americanos da MacDermid em outubro de 2002.

O caso da Anion MacDermid é emblemático para explicar o desempenho atual desse segmento que representa negócios anuais por volta de US$ 75 milhões. A empresa, durante dez anos, manteve acordo tecnológico com a inglesa Canning, adquirida em 1998 pela MacDermid, daí a ligação com o novo controlador. 

“Após esse período de conhecimento, possível por intermédio da Canning, a MacDermid se interessou pelo mercado brasileiro, resolvendo comprar a Anion, e nós da mesma forma achamos melhor contar com um controlador de peso financeiro e tecnológico”, explicou o seu diretor, Gilberto Avanzo. O “peso” citado por ele significa um faturamento anual de US$ 1 bilhão e investimentos em pesquisa e desenvolvimento equivalentes a 2,5% desse valor. Cuca Jorge
Avanzo: agora com parceiro de peso

O impacto direto na Anion foi a possibilidade de ter capital para se tornar mais competitiva, investindo em nacionalização das formulações e dispondo de um portfólio maior de tecnologias. Com o domínio da tecnologia de produção dos americanos, a Anion passou a ter condições de fazer todas as suas formulações na unidade fabril de Jandira-SP e ganhou aí com a redução nas importações. “Hoje só importamos alguns reagentes orgânicos e inorgânicos, que não representam 10% do nosso consumo de químicos”, afirmou Airi Zanini. Com isso, hoje a capacidade de produção da fábrica é de 500 t/mês, com condições de produzir desde desengraxantes para pré-tratamento até formulações para cromação de plástico, por exemplo.

O outro ganho com o novo controlador tem a ver com a disponibilidade de novos produtos e processos. “Para ser competitivo em tratamento de superfície, você precisa ter sempre novos produtos. E isso só é possível ou com muito investimento em pesquisa própria, o que era difícil para uma empresa nacional, ou recorrendo a um grupo internacional com estrutura já pronta”, afirmou Airi Zanini. A escolha pela segunda opção fez a Anion MacDermid entrar em mercados onde ela não atuava, como o de circuitos impressos e de cartãos telefônicos, para os quais fornece todas as etapas do processo (preparação, processos de cobre químico, cobre ácido, de filme fotossensível, paládio, estanho chumbo e isento de chumbo).

Embora reconheça a fase recessiva do mercado, que dificulta a adoção por novas tecnologias, Zanini revela a intenção de divulgar processos já em franco uso em países desenvolvidos mas pouco difundidos no Brasil. Cita, por exemplo, o processo Duzinc 019 LF para depósito de zinco ácido, cujas principais vantagens são não conter solventes, tolerar altas temperaturas (acima de 48ºC) e produzir pouca espuma, permitindo uma agitação a ar mais vigorosa.

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