Proteção interna – A parte interna das latas exige tratamento cuidadoso, de modo a garantir proteção tanto ao produto embalado, quanto ao aço da embalagem. No caso dos alimentos, a preocupação é maior, tanto que os revestimentos precisam ser aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Falhas do verniz podem permitir a contaminação do produto embalado, além de facilitar a proliferação de bactérias, entre as quais as do gênero Chlostridium, produtores da toxina botulínica. “As embalagens feitas no Brasil estão entre as melhores do mundo”, afirmou Bellizia. “Tanto que, nos últimos 50 anos, foram registrados menos de quatro casos de botulismo em alimentos e, em nenhum deles, a lata foi a culpada.”

Dominam o segmento de vernizes internos para latas de alimentos os epóxi-fenólicos. No entanto, cada produto precisa ser avaliado, podendo exigir complementos de formulação ou aplicação de uma camada superior, de modo a garantir a proteção. O pH ácido dos molhos de tomate exige cuidados, bem como os pescados. Não raro surgem problemas. Bellizia cita o ocorrido quando do lançamento dos molhos de tomate prontos (temperados). “O fabricante precisou recolher milhões de latas porque o verniz interno descolou do susbtrato, e ninguém sabia o motivo”, contou. O primeiro problema foi convencer o cliente a revelar a composição, ainda que apenas qualitativa, do produto, então considerado um segredo. Quando foi informado da presença de cebola no molho, a situação ficou esclarecida. “A cebola, quando cozida, libera uma substância que ataca o verniz epóxi-fenólico”, explicou. O problema foi solucionado incorporando pasta de alumínio e zinco à formulação do verniz.

A necessidade de aplicar uma camada dupla depende menos do verniz, e mais do processo de aplicação. “Mesmo feita com cuidado, a aplicação deixa alguns pequenos pontos mais frágeis, que podem dar origem à corrosão”, explicou Spiess, da ICI. No Brasil, por razões de custo, os vernizes óleo-resinosos são muito usados. “No exterior, a preferência recai na segunda camada feita com o mesmo epóxi-fenólico”, comentou. Há preferências regionais, segundo o diretor comercial. O mercado de pescados e mariscos enalatados no Chile prefere incorporar alumínio ao verniz epóxi-fenólico, demanda pouco usual no Brasil.

A ICI Packaging brasileira atende ao mercado sul-americano, desde 2002, substituindo fornecimentos feitos pelas subsidiárias do grupo nos EUA e na Europa, com participação muito forte no Chile e no Peru, além de iniciar trabalho na Venezuela, que não era atendida pela companhia. A fábrica aproveitou parte da antiga unidade da Coral (comprada pelo grupo ICI na década de 90) no bairro de Utinga, Santo André-SP, que passou por profunda reforma e atualização de equipamentos. Desde janeiro de 2000, o sítio foi dedicado totalmente à fabricação de tintas para embalagem, contando com grande capacidade produtiva, estimada em 27 milhões de litros por ano. “Estamos operando com um só turno, por volta de 10 milhões de litros/ano”, explicou o diretor de operações Cláudio Conde. A fabricação de resinas opera com três turnos, podendo produzir 18 milhões de litros/ano, aproveitando o parque de dez reatores modernizados.

Praticamente metade da área da antiga produtora de tintas imobiliárias e industriais da Coral (hoje instalada como ICI Paints próxima do pólo petroquímico paulista) foi desmobilizada e devolvida ao proprietário. A área remanescente absorveu investimentos de US$ 10 milhões, aplicados desde o ano 2000.

A instalação de laboratórios modernos apóia o desenvolvimento de produtos e a verificação do atendimento às normas sanitárias. Dotado de cromatógrafos e fotocolorímetros avançados, pode identificar e quantificar a emissão de substâncias voláteis no interior das latas revestidas, fator importante para evitar prejuízos ao sabor e odor dos produtos embalados. Spiess salienta que todos os ingredientes usados para os vernizes em contato direto com alimentos são aprovados pelo Food and Drugs Adminstration (FDA) norte-americano. “Os vernizes são certificados pelo Instituto Adolpho Lutz, mediante ensaios que se prolongam por até quatro anos”, afirmou.

Como parte da estratégia global do grupo, e reflexo da taxa cambial, a unidade brasileira produz quase todas as tintas e boa parte das resinas que comercializa para a região. “Como em todas as tintas, há ingredientes importados, como aditivos e pigmentos”, explicou Spiess.

Para a PPG, presente no mercado nacional desde 1996, por meio de importações, tendo recebido a fábrica de Cajamar-SP ao comprar mundialmente o negócio de tintas para embalagem da Courtaulds, em 1998, o segmento de vernizes internos para alimentos tem por base os epóxi-fenólicos, com espaço para poliéster-acrílicos, já usados para revestir latas de palmito exportadas para o Oriente Médio. “O poliéster isoladamente resiste menos ao meio ácido, exigindo combinação com o epóxi”, afirmou Walmir Pires. O mais comum é o epóxi-fenólico em mono ou dupla camada, esta substituível por verniz sanitário óleo-resinoso (resina fenólica modificada com óleo de tungue). “Temos encontrado nichos de negócios na confecção de latas destinadas a embalar produtos exportados para a Europa, que não aceitam BADGE [bis-hidroxifenil propano]”, comentou. Nesses produtos, os fabricantes se esforçam para obter aplicação uniforme, cuidar da cura ideal e confeccionar a embalagem.

Bellizia, da Revest, concorda que os vernizes epóxi-fenólicos apresentam bom desempenho e são mais econômicos, mas acredita que poderá, em breve, oferecer uma alternativa melhor para o mercado de alimentos. “Estamos desenvolvendo um verniz poliéster-fenólico, que já está em fase de análise prévia pela Anvisa”, comentou. Esse verniz já é usado há vinte anos na Europa, mas ficou de fora do Brasil nesse período porque o País segue, desde a Segunda Guerra, padrões norte-americanos. “Só a partir da década de 80 é que Basf e International apresentaram ao Brasil produtos de linha européia, mais avançados”, disse. Em comparação com o epóxi-fenólico, o poliéster-fenólico suporta mais a acidez, é menos agressivo, e pode ser formulado com maior teor de sólidos – até 50% no verniz e 62% no esmalte, contra 30% no epóxi-fenólico.

Fornecedora de insumos para a indústria de tintas, a Degussa recomenda o uso de poliésteres de alto e médio peso molecular para can coating. 

Para a parte interna das latas, de aço ou alumínio, a empresa indica a linha de poliésteres saturados lineares Dynapol, produzida na Alemanha, de alto peso molecular, com ligações intermoleculares feitas de poliuretano ou melamina. “O FDA recomenda o uso de melamina”, observou Elias Nahssen de Lacerda, chefe de produto da linha de tintas e resinas da empresa. A preferência pelo alto peso molecular se explica pelo menor número de ligações entre moléculas, considerados pontos mais vulneráveis do filme formado. Cuca Jorge
Lacerda: Suiça proibirá o uso de epóxi dentro das latas

“A legislação suíça, uma das mais rigorosas do mundo, vai proibir o uso de epóxi na parte interna até o final do ano”, comentou Lacerda. Os resíduos de bisfenol-A também são criticados em âmbito internacional, acusados de disruptores endócrinos. O uso de isocianatos como endurecedores é seguro, segundo Lacerda. “Usamos poliisocianatos cicloalifáticos, derivados da isoforona (linha Vestanat, em especial o tipo B 1358A)”. São produtos bloqueados, até a chegada à estufa, onde são desbloqueados pela temperatura de 180ºC, com tempo de cura de 10 minutos.

Algumas embalagens de alimentos exigem a aplicação de ceras para impedir que o alimento fique aderido às paredes. “Os produtos cárneos para o exterior precisam apresentar essa característica, chamada meat release, uma exigência dos consumidores”, comentou Lacerda, mencionando a linha de ceras Vestowax.
A linha interna de soldagem pode dispensar proteção, como no caso dos óleos comestíveis, que usam aço estanhado. Nas demais, essa faixa interna recebe uma camada protetiva especial, geralmente com o mesmo material do revestimento. Essa região estreita não é pintada antes para não interferir com a soldagem, nem ser queimada por ela.

Aparência melhorada – Do lado de fora das latas, a preocupação com a aparência precisa ser compatível com as linhas produtivas, cada vez mais velozes. Latas para a indústria geral e as para alimentos geralmente são do tipo três peças (tampa, fundo e lateral). A lateral é pintada interna e externamente nas chapas planas, posteriormente dobradas e soldadas, recebendo em outras etapas o fundo e a tampa, por recravamento.  Cuca Jorge
Lata nacional de três peças com easy open

O desenho das embalagens obriga a produzir dobras, ondulações e expansões na superfície lateral, exigindo que o revestimento acompanhe as deformações, sem prejuízo de brilho ou cor. “Em geral, quando as paredes da lata são retas e paralelas, recomendamos esmalte de base branco feito com acrílico”, afirmou Walmir Pires, da PPG. Desenhos mais complicados exigem tintas à base de poliéster.

Segundo explicou, nas embalagens para alimentos, a demanda se concentra nos esmaltes acrílicos e vernizes de cobertura epóxi-éster. A camada intermediária, voltada para embelezamento, é suprida por fornecedores ligados às tintas gráficas, podendo usar até linhas alquídicas convencionais.

Alexandre Spiess, da ICI, observa que os acrílicos proporcionam melhor cobertura de superfície que os poliésteres, com bom desempenho. Porém, os poliésteres apresentam aparência final superior, além de resistir mais ao repuxo. Nas tintas de impressão, a ICI atua apenas na Europa, com produtos de alto poder de tingimento, indicados para embalagens de alta qualidade.

A Revest investiu na linha dos poliésteres para todas as camadas, inclusive as tintas gráficas, de modo a atender clientes em processos exigentes em resistência e beleza. “Tínhamos produtos já aprovados para isso quando os clientes começaram a demandá-los”, explicou Bellizia.

Do ponto de vista de proteção ambiental, a empresa se diferencia por desenvolver linhas de altos sólidos, em vez dos produtos de base aquosa, preferidos pelos maiores fornecedores do mercado. “Adotamos sistemas de baixa cura, com temperaturas entre 100 ºC e 110 ºC, com economia de energia para os usuários”, afirmou. 

Instalada no distrito industrial de Araçariguama-SP, a Revest ocupa instalações construídas em 1988, capazes de fabricar, por mês, um milhão de kg de resinas, 30 t de vedantes (emulsão de borracha de látex de petróleo), 400 t de esmalte e 400 t de vernizes. “Cada cliente exige uma formulação específica, para funcionar bem no seu equipamento e nas suas condições climáticas”, explicou. 
“Desenvolvemos nossas próprias formulações, sem copiar nada de ninguém.” Atualmente, a empresa desenvolve, em escala laboratorial, a incorporação de PET reciclado em algumas formulações, tanto contribuindo para a proteção ambiental, quanto para a redução de custos.

Para indústria geral, Bellizia confia na resistência química dos epóxis para assegurar a resistência da embalagem. Para aerossóis inseticidas, por exemplo, eles conseguem suportar a presença de xileno e também dos ingredientes ativos. “Já fizemos revestimentos para tambores para ácido sulfúrico de alta concentração, usando epóxi especial, além de tintas para revestir pilhas”, comentou. A única ressalva de Bellizia é atuar em segmentos de mercado que ofereçam preços compensadores. “Se não tiver preço adequado, é melhor sair”, disse, citando como exemplo as tampinhas de garrafas, após a decisão da AmBev de verticalizar sua produção. 

A Degussa recomenda, para a parte externa de latas, os poliésteres Dynapol hidroxilados, de médio a alto peso molecular, endurecidos com isocianatos. “No esmalte base, os poliésteres superam os acrílicos por apresentar melhor balanço de dureza e flexibilidade, além de não sofrer amarelecimento mesmo em alta temperatura”, explicou Lacerda. O verniz externo precisa ter elevada resistência e pode ser formulado como epóxi-éster. “O mercado ainda vê o poliéster como um produto caro, mas estamos provando que a diferença no produto acabado é pequena”, explicou.

Lacerda admite que, nas aplicações para indústria geral, os acrílicos, embora com desempenho inferior, possam ser usados com bom custo-benefício, o mesmo não se dando nas linhas de alimentos, ou de embalagens mais nobres. Caso seja necessário aumentar a adesão do poliéster ao substrato metálico, a Degussa oferece resinas de adesão, feitas de poliésteres funcionais específicos, que interagem bem com o Dynapol e também ao material de embalagem. “É possível ampliar a resistência química e ao processo, em especial nas esterilizações”, explicou. Também são oferecidos aditivos para promover a flexibilidade do material e facilitar a incorporação de pigmentos. “O Oxiéster T1136 é um poliéster 100% sólido e linear com hidroxilas funcionais”, comentou. A linha da Degussa abrange também solventes (isoforona, decaidronaftaleno), aditivos Tego (da recém-incorporada Theodore Goldschmidt), sílicas, negro-de-fumo e dióxido de titânio (da Kronos). As ceras Vestowax também podem ser usadas na camada externa das latas, para aumentar o deslizamento das embalagens nas linhas de produção, evitando paradas.


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