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Revestimento protege saúde do consumidor
Tintas e vernizes devem suportar o repuxo e os meios agressivos, sem contaminar o
material embalado
MARCELO FAIRBANKS
O desempenho do segmento de tintas para embalagens refletiu a queda de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, ocorrida durante o primeiro trimestre de 2003. Segundo o IBGE, o consumo de produtos e serviços por parte das famílias brasileiras foi 2,3% menor nos primeiros três meses deste ano, quando comparado a igual período de 2002. Produtos nobres, porém caros, os alimentos processados e embalados já mostram sinais de retração de negócios, sendo substituídos pelo consumo de produtos in natura.
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O ano passado já foi ruim para o segmento. A queda do poder aquisitivo da população e a menor atividade econômica, que só não foi pior graças aos setores exportadores, desacelerou negócios. |
Cuca Jorge |
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| Chapas pintadas saem secas da estufa |
Nesse ambiente, fica difícil incentivar a adoção de tecnologias mais sofisticadas, prevalecendo os sistemas de revestimentos de baixo custo, com desempenho satisfatório já comprovado.
Existem duas linhas de embalagens: as rígidas (em geral metálicas) e as flexíveis, com diferentes características e aplicações, que se refletem no tipo de revestimento empregado. As embalagens metálicas oferecem vida de prateleira (shelf life) mais extensa, sendo direcionadas a alimentos prontos ou semiprocessados, como os molhos de tomate, pescados e vegetais em conserva, muitos dos quais devem manter preservadas suas caraterísticas organolépticas e higiênicas por até quatro anos. Para tanto, as superfícies interna e externa pedem proteção adequada.
Mesmo nos casos de produtos químicos, como as tintas, essa proteção se faz necessária, de modo a garantir a satisfação dos clientes.
Nos flexíveis, a durabilidade é menor, com o próprio filme plástico oferecendo proteção suficiente. Resta ao revestimento, nesse caso, a função de diferenciar e valorizar o produto embalado, atraindo o consumidor.
| Cuca Jorge |
“Atualmente, o mercado de tintas para embalagens metálicas chega a 20 milhões de litros por ano, quase 10% abaixo do volume produzido no ano passado”, informou Alexandre Spiess, diretor comercial da ICI Packaging Coatings Ltda. A metade desse volume é consumida pela indústria de bebidas, ficando o restante para ser absorvido pelas linhas de alimentos, tampas e produtos industriais. |
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| Spiess: fábrica de Santo André atende toda a
América do Sul |
Trata-se de mercado dominado por ICI, Valspar e PPG cuja soma detém entre 80% e 90% dos negócios, que passam longe de operações informais. “Os clientes são de grande porte, não há espaço para isso”, afirmou Spiess. A disputa por fornecimentos é acirrada, principalmente no ramo de bebidas, no Brasil profundamente concentrado entre os engarrafadores de Coca-Cola e a gigante AmBev. A disputa chegou ao ponto de tornar-se desinteressante para os fornecedores. “O mercado global de embalagens está estagnado, com perda de valor nas linhas; a alternativa é diversificar e atingir novos nichos de mercado mais interessantes”, explicou Walmir Pires, diretor gerente da unidade de Packaging Coatings da PPG para a América do Sul. “Em época de crise, o melhor é buscar rentabilidade e não market-share”, afirmou, criticando a instalação de uma guerra de preços entre concorrentes nos últimos meses.
Pires também critica o conservadorismo dos fabricantes de embalagens quanto à substituição dos revestimentos internos, impossibilitando a aplicação de tecnologia mais recente. “Nos EUA e na Europa, a PPG mudou suas formulações para reduzir a liberação de compostos orgânicos voláteis, além de eliminar residuais de bisfenol A”, comentou.
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Contrastando com essas visões de mercado, Antonio Bellizia Junior, proprietário da Revest Indústria Química Ltda., apontou aumento de 55% de volume produzido nos cinco primeiros meses de 2003, em relação a igual período do ano anterior, no qual já havia registrado aumento significativo de negócios. Em faturamento, porém, o crescimento ficou em torno de 26%, evidenciando a redução de preços. |
Cuca Jorge |
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| Bellizia: desenvolvimentos recentes garantem as
vendas |
O bom resultado é explicado pela introdução, iniciada há três anos, de linhas sintéticas, substituindo as óleo-resinosas para a embalagem de alimentos. Com 40 anos de atuação profissional no mercado de tintas, o químico e engenheiro químico Bellizia concentrou esforços para resolver problemas junto a dois clientes distintos.
O fabricante gaúcho de embalagens Bertol queria revestir latas expandidas (17% de expansão, pronunciada na metade inferior), enquanto a produtora de pescados enlatados Femepe queria um sistema que protegesse e decorasse as latas e fosse capaz de suportar o rigoroso processo produtivo. As sardinhas são cozidas nas latas (fechadas), dentro de autoclaves, com sistema de contrapressão, sob temperatura de 121°C, por 90 minutos, condições que provocam amarelecimento dos revestimentos comuns, feitos à base de epóxi ou acrílico.
A embalagem de sardinhas consumia folha-de-flandres, que foi sendo gradativamente substituída por folhas de aço com camada de cromo. Dada a severidade do processo de esterilização, a litografia externa é usualmente substituída pela aposição de rótulos. Atualmente, a espessura das folhas de aço está sendo diminuída, exigindo proteção mais rigorosa.
No caso das embalagens expandidas, Bellizia salienta tratar-se de uma folha-de-flandres diferenciada, produzida pela Cia. Siderúrgica Nacional (CSN), de modo a suportar a deformação. Em ambos os casos, o verniz interno é epóxi-fenólico, em dupla camada, no caso das expandidas, e monocamada, nas sardinhas.
Bellizia explica que os sistemas óleo-resinosos exigem aplicação em camada espessa sobre as chapas. “Isso tira o brilho do verniz final e prejudica a qualidade da impressão que sai borrada”, disse. Usando poliésteres, tanto no esmalte base, como nas tintas de impressão e verniz final, foi possível reduzir muito a espessura de camada, obtendo melhor resultado final. Com isso, o consumo de tinta acaba sendo menor, compensando, em parte, o custo superior.
| Cuca Jorge |
A procura por revestimentos adequados reflete a busca por maior economia e qualidade. “O aço pode representar até 80% do custo da embalagem, e qualquer redução de espessura da chapa representa uma economia brutal”, comentou Walmir Pires, da PPG. Isso deveria incentivar o uso maior de revestimentos mais modernos.
“O maior cliente de embalagens metálicas para alimentos usa folhas-de-flandres estanhadas de alta qualidade, com rótulo de papel”, afirmou. Mesmo esse cliente, quando compra embalagens de terceiros, já dá abertura para o uso de chapas finas revestidas. |
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| Pires: não é hora de ampliar o share,
mas a rentabilidade |
“Ao contrário da Europa, o Brasil usa aço em 90% das embalagens e apenas 10% de flandres, este direcionado para óleo de soja e tintas”, comentou Alexandre Spiess, da ICI Packaging. No óleo de cozinha, a situação dos revestimentos é pior. Segundo Spiess, esse cliente pode usar aço com uma camada de estanho, que impede o contato direto com o ferro (componente do aço), elemento capaz de alterar a cor e o sabor do produto. Além disso, boa parte desses óleos adotou embalagens transparentes, feitas de PET. “As latas de tintas também são estanhadas, mas levam revestimento interno de epóxi PVA para aumentar a resistência aos ingredientes químicos e à corrosão”, explicou, ressaltando que as tintas atuais são, em maioria, de base aquosa. No Brasil, as linhas de pintura decorativa feitas à base de látex PVA e acrílicos usam revestimentos sem adição de pigmentos. Nos Estados Unidos, segundo o diretor, revestimentos pigmentados são aplicados para dar mais resistência às embalagens, em especial nas linhas de manutenção marítma.
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