A condição de empresa que negocia ADRs na Bolsa de Nova York não permite especular, alega a Braskem para não comentar a fundo a questão do suprimento. Revela apenas que tal questão passa, primeiramente, pelo aproveitamento de gases de refino da Relam. Alexandrino Alencar confirma, sem prever data, que a instalação do terceiro cracker, "fator altamente estratégico", está nos estudos preliminares que indicarão as alternativas de crescimento. 

Há, também, a possibilidade de o gás natural fazer parte de um mix de suprimento, hipótese considerada interessante pelo ex-superintendente da Copene, Ary Silveira, hoje atuando como consultor e técnico em desenvolvimento. Silveira acredita que a soma das históricas reservas de gás do Recôncavo, correspondentes a 30 bilhões de m³, com o gás descoberto em 2000 na Bacia de Camamu, ao Sul do Recôncavo, avaliado em 20 bilhões a 25 bilhões de m³, poderá garantir suprimento diário de 10 milhões de m³ à Região Metropolitana de Salvador, dos quais um volume na ordem 800 mil m³ (8%) seria a fração do etano, cujo craqueamento resulta, quase exclusivamente, em eteno. Ele valoriza: "Seria mais um fator de vantagem da Braskem".  Divulgação
Silveira: gás natural pode aumentar competitividade

Haveria então etano suficiente para 250 mil t/ano de eteno, sem a contrapartida de serem produzidos co-produtos que tendem a ser gravosos, como alguns aromáticos e olefinas mais pesadas resultantes da nafta. A Copene dispõe de flexibilidade na pirólise para craquear diferentes matérias-primas, incluindo o gás. Teria apenas de construir uma estação para separar etano das outras frações. 
Em função do gás da Bacia de Camamu, onde ainda está concluindo os estudos, a Petrobrás anunciou investimento de 250 milhões a 350 milhões de dólares na produção do gás e implantação de 110 quilômetros de gasoduto, até São Francisco do Conde, na Grande Salvador.

Mercado local - A ausência de mercado local para a maior parte das resinas é causa do "turismo molecular", como na Bahia chama-se a descida, até as fábricas de transformação localizadas no Sudeste, a bordo de caminhão, trem e navio, de cerca de 75% do volume destes petroquímicos de segunda geração, parte do qual volta para o Nordeste transformado em embalagens e produtos de consumo. O custo deste "turismo", nos bons tempos desconsiderado e simplesmente somado ao preço final, hoje é acentuadamente gravoso – representa na descida 5% a 6% da receita, percentual não raramente superior ao lucro pós-Imposto de Renda. 

Cogitar de mercado local e lamentar o turismo molecular eram atitudes incompatíveis com a dinâmica do 2° Pólo até o começo da década passada, quando a política quase xenófoba de substituir importação a qualquer preço assegurava, tonelada por tonelada, o melhor mercado do mundo para as resinas, em ambiente de oligopólio acrescido de intransponível barreira aduaneira para barrar excedentes do Primeiro Mundo. As regras de formação de preço, estabelecidas ou homologadas pelo Conselho Interministerial de Preços, asseguravam o retorno do investimento em seis anos, uma ofensa às leis do mercado, hoje impraticável. Era o "preço esquerdista" – a conta era da esquerda para a direita: somavam-se todos os custos e acrescentava-se a pretendida margem. Naquela situação de forte demanda, pouco importava aos acionistas, a começar pela Petroquisa, se havia ou não empresas de transformação no entorno do 2° Pólo. Tal sentimento prevaleceu até a abertura para o exterior, no governo Collor. 

Divulgação Um dos empreendedores do Pólo, pelo lado do governo baiano, José de Freitas Mascarenhas, hoje diretor da Abiquim e da Odebrecht, reconhece esta realidade e admite que faltou espírito de previdência. Poderia ter ocorrido um esforço baseado no suprimento de resina, a preço bonificado, para atrair empresas de transformação.
Mascarenhas: erros estratégicos afugentaram transformadores

Expansão - Entre os desdobramentos de negócios que são considerados pela Braskem no âmbito do novo modelo de produção verticalizada, o mais apontado preconiza a instalação de uma unidade de ácido tereftálico (PTA) em Camaçari, a peça que falta para viabilizar a produção de poliéster e impulsionar a formação do pólo têxtil, um imaginado cluster que aglutinaria fábricas de fios, tecidos planos, malharias, confecções, etc.

As matérias-primas do PTA, o paraxileno e o monoetileno glicol (MEG), já são produzidas localmente, o primeiro na Braskem, que supre com parte desse aromático sua própria produção de 60 mil t/ano de poliéster grau embalagem (PET); e o MEG, na Oxiteno (Grupo Ultra). À jusante, o pólo têxtil se apoiaria também na florescente cultura do algodão do cerrado, a fronteira agrícola. "A Bahia voltou a ser grande produtor de algodão e a qualidade só é comparável ao egípcio", ressalta Ary Silveira. Neste ano, serão colhidas 100 mil toneladas. Ressalta também que a demanda de poliéster grau têxtil não atendida é superior a 300 mil t/ano. "Ou seja, equivale a uma planta de porte mundial". 
A região, precisamente o eixo Bahia-Alagoas, onde se produz a maior parte do PVC, reúne as melhores condições para a formação de um pólo cloroquímico

Estireno - Mas a expectativa mais imediata que há em Camaçari refere-se à possível formação da joint-venture entre a Dow Química e a Basf para a implantação de uma planta de estireno, investimento de 250 milhões de dólares, que pode ficar em Camaçari, São Paulo ou Rio Grande do Sul, a depender das negociações com a Braskem e outros supridores de matéria-prima. Seria uma planta de 500 mil t/ano, escala que exige 370 mil t/ano de benzeno, aromático disponível na Braskem, e 120 mil t/ano de eteno.

Já no horizonte próprio de expansão da Braskem, confirmou em março o presidente José Carlos Grubisich, há o projeto de construção de uma fábrica de polipropileno, que pode ser em Camaçari ou no interior de São Paulo, a depender dos estudos de viabilidade. 

Há também a possibilidade de a Braskem, que herdou da Copene autorização para comercializar a gasolina que produz na condição de subproduto, em vez de devolvê-la para a refinaria, criar uma distribuidora com sua própria marca, que ocuparia 20% do mercado local.. "É uma possibilidade", admitiu Grubisich. 

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