Reatores


Reator de 90 t da nova fábrica da Polibrasil

Petrobrás ainda é quem dá suporte


Prontas para atender às demandas do País, fábricas de reatores estão de olho no desempenho do seu maior cliente

MÁRCIO AZEVEDO

A inserção do Brasil no mercado internacional de capitais, bens e serviços, incompleta ainda, há tempo explicita fatos extensivamente discutidos pela comunidade empresarial brasileira: a presença de competidores internacionais em solo nacional criou demanda por parceiros capazes de suprir com eficácia e qualidade produtos intermediários de diversos processos produtivos, germinando saltos no nível de qualidade das principais empresas nacionais, em alguns casos, e excluindo do mercado fabricantes tradicionais, incapacitados de adaptarem-se ao novo padrão estabelecido, em outros. Errado é, porém, crer que o impulso de modernização vem irremediavelmente do exterior. Em algumas, porém importantes exceções, empresas brasileiras com grande conhecimento acumulado em tecnologias particulares, e destaque global, tornaram-se a principal força a mover segmentos da indústria, como nos setores de prospecção e exploração de petróleo e de açúcar e álcool, um dos destaques do agronegócio nacional.

Um dos negócios cujos números podem ser brindados ou arruinados pelas compras da estatal brasileira do petróleo é a produção de reatores químicos, não somente porque a Petrobrás compre os produtos desses fabricantes, mas também por ser elemento central no jogo da petroquímica, também um consumidor de equipamentos para reações químicas. 

Dedini Indústrias de Base, CBC Indústrias Pesadas e Jaraguá Equipamentos Industriais são algumas das maiores empresas do setor. Todas atuam em caldeiraria na indústria de base pesada, fornecendo também outros tipos de equipamentos metálicos pesados, como torres de processo. Há também os fabricantes de equipamentos de menor tamanho, como a Incase (Indústria Mecânica de Equipamentos), e aqueles especializados em nichos de fabricação. No País, a Pfaudler Reactor Systems é sinônimo de produtor de reatores vitrificados. 

A Dedini, originária do segmento de açúcar e álcool, produz reatores em Piracicaba e Sertãozinho, no interior de São Paulo. Capacitada a fabricar desde equipamentos de pequeno porte, até unidades de 100 toneladas, basicamente para resinas, a empresa atende a clientes do ramo petroquímico (o principal), farmacêutico e químico. Tradicionalmente, pois os materiais empregados na fabricação de reatores químicos há mais de dez anos são em grande parte os mesmos, a Dedini produz máquinas em aço-carbono, aço com requisitos especiais e aço inoxidável, ou quando necessário, utiliza ligas especiais (monel e outras) ou chapas do tipo clad, constituídas por uma chapa de aço carbono integrada a uma camada fina, que confere resistência química ou resistência à abrasão. 

Os reatores produzidos pela empresa podem ou não estar equipados com sistemas de agitação. Várias configurações diferentes são possíveis: a agitação pode ser por fluxo de fluídos, ou no caso de agitação mecânica, podem ser construídos sistemas de pás retas ou curvas, pás helicoidais, ou em vários níveis de agitação, por exemplo. “No que se refere à execução, estamos qualificados à produção de quase todo tipo de reator”, afirma o gerente comercial das áreas de cimento e mineração, siderurgia e metalurgia, e petróleo e gás, Angelo de Souza Ferreira. A fabricação de reatores de pequeno porte, entretanto, não é regra na Dedini.  Cuca Jorge
Ferreira: projeto Rio Polímeros aqueceu os negócios em 2002

Ao contrário dos materiais usados na manufatura de reatores, o controle e a automação dos equipamentos experimentaram sensíveis avanços. Mas como essa atividade não é relacionada à atividade principal das caldeirarias, o fornecimento dos controles multiprocessadores e dos controladores programáveis lógicos (PLCs, na sigla em inglês), normalmente fica a cargo de empresas tradicionais nesse segmento, como Yokogawa, Honeywell e Alen Bradler. Segundo Ferreira, quando a Dedini, por contrato, é a responsável pelo processo industrial, em geral o sistema de controle do reator é especificado, sendo também fornecido o equipamento apenas eventualmente.

Expectativas elevadas – 2002 foi um bom ano para a empresa, com negócios concentrados em petroquímica. A Dedini fechou quatro contratos de fornecimento com a Rio Polímeros, tornando-se o maior fornecedor individual do projeto, com mais de 70 itens. O primeiro dos contratos englobava a fabricação de reatores, sem o fornecimento do sistema de agitação. Já em 2003, de acordo com o gerente comercial, as vendas até o momento concordam com o previsto. 
Mas há boa expectativa devido ao grande número de cotações efetuadas para diversos projetos de ampliação e construção de novas unidades da Petrobrás. A Dedini é subcontratada de empresas de engenharia parceiras da estatal, sob o modelo EPC (Engineering Procurement Construction). 

Outro importante fabricante de bens de capital para a indústria de base é a Jaraguá, de Sorocaba-SP, adquirida pelo grupo Garcia há cerca de três anos, e apta a produzir reatores para fase líquida e gasosa (reatores de contenção em batelada, abertos ou fechados), vasos de agitação vertical, reatores contínuos horizontais e reatores intensivos, em batch ou contínuos.

Cuca Jorge Um desenvolvimento exclusivo da empresa são os reatores rotativos, cuja tecnologia de produção já tem cerca de dez anos. São equipamentos específicos para reações críticas em termos de estequiometria do processo, caracterizados por grandes volumes, como a produção de 350.000 toneladas/ano de produto. 
Empresas do setor de fertilizantes, como Copebrás e Ultrafértil, são consumidoras desse tipo de equipamento. A Copebrás adquiriu, segundo Oswaldo Luiz Guimarães, gerente de engenharia da Jaraguá, equipamento para a produção de 15.000 toneladas/ano de fosfato bicálcico, utilizado na produção de ração animal. Segundo ele, os reatores rotativos também são caracterizados pela alta longevidade (superior a vinte anos), complexidade e elevada massa. “É um reator apropriado para trabalhar com sólidos”, explica Guimarães. 
Só a Jaraguá constrói reatores rotativos, explica Guimarães

“Na produção de MAP (mono fosfato amônico, um intermediário da produção de fertilizantes) usa-se amônia gasosa, ácido fosfórico líquido e vapor d’água”, completa. As especialidades da Jaraguá são os reatores para ração animal (rotativos e intensivos) e fertilizantes (horizontais, reatores de zona fluidizada e convencionais). O principal cliente individual da Jaraguá, entretanto, principalmente em vasos de pressão, é também a Petrobrás. 

A empresa fabrica reatores em diversos tamanhos. Em Sorocaba produz equipamentos de até 100 toneladas; em Itaguaí-SP, sob parceria com a Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), equipamentos de até 500 toneladas podem ser produzidos (podendo chegar a 900 toneladas em situações especiais), e em Osasco-SP e Itapevi-SP a Jaraguá produz equipamentos de médio porte (faixa de 50 toneladas).

Os reatores podem ser manufaturados com diversos materiais: aço carbono, aço inoxidável (304, 316, 390, 420 e duplex, que confere resistência adicional à abrasão e corrosão), ligas especiais (hastelloy, monel, inconel, titânio e uranus), clads (principalmente em vasos de alta pressão, feitos de inox ou ligas), e materiais revestidos com borracha natural, borracha nitrílica, politetrafluoretileno (PTFE), ou policloreto de vinila (PVC). Apesar da inexistência de grandes novidades, “a Petrobrás é a grande fomentadora do uso de novos materiais, principalmente em atividades ligadas à exploração em águas profundas”, diz Guimarães. 

O gerente revela que a Jaraguá é capaz de construir equipamentos com diversos sistemas de agitação. “O que ocorre hoje é a possibilidade de geometrias mais complexas”. Sistemas de supervisão e automação do processo – CLPs, IHMs (interface homem máquina touch screen) e CCMs (centro de controle de motores) – também podem ser fornecidos, quando o contrato é em regime turn key. Os fabricantes, porém, são os tradicionais. Segundo Guimarães, a Jaraguá reserva um departamento próprio para gerenciar o assunto (equipe de automação e controle), dividido em potência e controle. Embora os equipamentos sejam todos importados, é a empresa quem aciona os fornecedores em caso de problemas. 

No ano passado, os principais clientes da companhia, em volume de negócios, foram a Petrobrás e o setor de fertilizantes, mas o setor é dinâmico, e em 2003 tal pode não se repetir. Guimarães reserva expectativas em 2003 para o setor de mineração – estão iniciando negócio na área – e para o nível de atividade da Petrobrás. A empresa atingiu R$ 115 milhões em vendas em 2002 (crescimento de 57% em relação a 2001) e espera faturar R$ 180 milhões neste ano. 
A CBC, fabricante de equipamentos pesados de processo no parque industrial em Jundiaí-SP, é um dos maiores produtores de reatores do País. Em 1963, teve seu controle transferido para o grupo Mitsubishi, do Japão, que atualmente detém 100% de seu capital. 

A empresa opera praticamente apenas em reatores de sistema contínuo, dos tipos leito fluidizado, conversores catalíticos e reatores multitubulares, em que são particularmente competitivos. A CBC produz reatores de materiais usuais (aço-carbono, aço inoxidável, ligas e aços inoxidáveis, super dúplex e clads). O principal mercado é o petroquímico, na produção de anidridos maléico e ftálico, formol, e em processos de hidrodessulfurização e hidrotratamento. Neste caso, o tratamento é com hidrogênio, injetado em correntes instáveis de refino de petróleo para a extração de enxofre. A CBC não fornece os sistemas de agitação e controle. 

Eli da Costa, gerente de vendas da área máquinas e equipamentos, revela que os dois últimos anos foram muito bons para a empresa, particularmente devido ao aquecimento das atividades da Petrobrás e das petroquímicas em geral. A CBC é fornecedora da petroleira por via direta (perante o Certificado
de Registro e Classificação Cadastral – CRCC) e como empresa subcontratada, e sua área de equipamentos registrou crescimento médio de 25% em 2001 e 2002. Mas Costa avalia 2003, por enquanto, como um ano muito ruim. “Tenho a impressão de que o ano ainda não começou”, lamenta Costa. 
Cuca Jorge
Ano ruim contraria tendência recente segundo Costa, da ABC
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