COMÉRCIO

Instabilidade cambial
prejudica o comércio



Valorização brusca do real faz clientes postergarem ou fracionarem pedidos, enquanto comerciantes  assistem à depreciação dos seus estoques, em ambiente cada vez mais competitivo


MARCELO FAIRBANKS

As empresas de comércio de produtos químicos sofrem os efeitos das oscilações econômicas nacionais, mas se mantêm animadas com as perspectivas de estabilidade nos próximos meses, além da possibilidade de ver concretizadas as reformas estruturais pleiteadas há anos. A recente valorização do real frente ao dólar, embora ainda não tenha recuperado o nível de junho de 2002 (por volta de R$ 2,30 por US$), foi significativa e trará alguns prejuízos para quem estava muito estocado, pois obriga a reduzir o preço de venda na mesma proporção da variação cambial.

“Ainda é cedo para avaliar o governo Lula”, disse Rubens Medrano, presidente da Associação Nacional e do Sindicato Estadual do Comércio de Produtos Químicos (Associquim/Sincoquim). O comportamento do mercado financeiro, para ele, refletiu a “demonização” do candidato petista às eleições passadas, e agora, aparenta concordar plenamente com a política do presidente eleito. “Nem ele era o demônio que estavam pintando, nem as condições econômicas atuais são maravilhosas”, ponderou. Levantamento preliminar da associação com seus filiados indica que o faturamento setorial cresceu 20% em reais durante 2002, tendo recuado de 8% quando cotado em dólares. Cuca Jorge
Medrano: juros altos reprimem a demanda

No entender do líder setorial, o panorama de negócios ainda é ruim, principalmente pelas altas taxas de juros praticadas no País, que restringem a oferta de crédito e, por conseqüência direta, mantêm reprimida a demanda local. Dessa forma, os investimentos produtivos ficam limitados, deixando de gerar empregos. Sem um mercado interno dinâmico, os produtos exportáveis obtêm melhor desempenho. “O setor automobilístico brasileiro está muito bem, graças às exportações”, afirmou. Ele não concorda que a alta do dólar (que beirou R$ 4,00, no início do ano) seja a responsável por isso, pois os carros possuem alto índice de componentes importados, implicando aumento de custos.

“Para a economia nacional, o ideal é uma certa estabilidade cambial”, disse Medrano. Ele salienta que o mercado de moedas estrangeiras não é totalmente livre no Brasil, de modo que as empresas importadoras não conseguem fazer hedge no valor integral das operações. “O Banco Central impõe limites para o fechamento de operações de câmbio”, explicou. Os importadores acabam arcando com riscos excessivos. Por exemplo, quem desembaraçou produtos no porto com o dólar a R$ 4, agora vai vender o produto com o dólar a R$ 3, ou seja, com uma perda de 25%. Já quem esperou para fechar o câmbio um mês depois, pagou menos pela moeda americana.

Cuca Jorge “Quando o dólar ficou caro, no ano passado, em ambiente econômico morno, fomos obrigados a repassar o custo para os clientes; agora, com o câmbio favorecendo o real, é hora de baixar os preços”, explicou Fernado Rafael Abrantes, diretor-superintendente da Ipiranga Comercial Química (ICQ). Ele afirmou que isso implica a depreciação, em reais, dos estoques existentes, compensado pelo ganho obtido no ano passado, com a desvalorização do real. “Essas oscilações cambiais muito bruscas são péssimas”, lamentou.
Abrantes: saúde ocupacional abre mercado

Medrano explica que poucas empresas estavam estocadas, pois tradicionalmente o material vendido no final do ano anterior ainda não foi reposto. “Mas, o setor estava em fase de planejamento de negócios, que precisará ser refeito, atrasando as compras”, informou. Como efeito reflexo, ele aponta que os compradores estão adiando ou parcelando pedidos, aguardando uma queda ainda maior na cotação da moeda americana frente ao real. “O resultado do mês de março sofreu com essa postergação de negócios, além do grande número de feriados, que também prejudicou o do mês de abril”, afirmou.

Há indícios, porém, de melhores dias. O governo federal encaminhou ao Congresso Nacional, no final de abril, projetos de reforma previdenciária e tributária. Antes disso, o PIS acumulativo foi eliminado, embora tenha sido mantida e majorada a Cofins. “As contribuições que tomam por base o faturamento das empresas são particularmente danosas para os atacadistas de qualquer ramo”, explicou Medrano. Essas empresas lidam com grandes volumes de produtos, sempre com margens reduzidas de rentabilidade.

Mesmo com as dificuldades conjunturais e estruturais, o comércio de produtos químicos ainda motiva a investir, como a Bestquímica, que alocou R$ 8 milhões na nova sede, em São Bernardo do Campo-SP. A Ipiranga Química constrói seu centro de distribuição em Guarulhos-SP, orçado em R$ 22 milhões, além de remodelar suas bases regionais e atualizar a informatização empresarial. “Os investimentos não são generalizados no setor, mas existem”, disse Medrano. “A distribuição de produtos químicos tem um papel relevante a cumprir.”

Em tempos conturbados como o atual, o presidente das entidades setoriais recomenda adotar práticas eficazes de administração empresarial, de modo a evitar prejuízos. Também se revela importante definir corretamente o mix de produtos e o alcance geográfico de atuação, apurando o foco dos negócios e atendimento aos clientes. Dessa forma, a atuação nacional deve ser criteriosamente estudada, levando-se em conta as diferenças mercantis regionais, que exigem políticas diferenciadas de preços, prazos e atendimento, por exemplo. “Abrir mais filiais só significa, com certeza, que os custos vão aumentar, o faturamento, nem sempre”, afirmou Medrano. A abertura de filiais também sofre com a confusa arrecadação de ICMS, que varia de Estado para Estado, além da exigência de licenças para cada sítio operacional.

A existência de alíquotas diferenciadas de ICMS para operações interestaduais, no entanto, pode ser usada para “anabolizar” maliciosamente as vendas. “Não tenho como competir com alguém que recolhe só 7% de ICMS, mesmo quando vende o produto dentro do Estado”, criticou um empresário do setor, em caráter reservado. O turismo de nota fiscal acaba saindo até mais vantajoso que outra fraude, a chamada “meia-nota”. 

Essas práticas podem se tornar muito perigosas para seus adeptos. A Portaria nº 169, de fevereiro de 2003, da Polícia Federal, ampliou a relação de produtos controlados pelo órgão, tendo em vista a adequação do Brasil ao Protocolo de Viena, da Organização das Nações Unidas, voltado para a repressão da produção e tráfico de drogas. A informatização dos procedimentos permitirá rápido e eficiente cruzamento de dados, apontando possíveis desvios de produtos. “O sistema é sofisticado a ponto de controlar até a evaporação dos produtos voláteis, exigindo a apresentação de relatórios muito precisos”, confirmou Medrano. Em abril, a Associquim/Sincoquim, junto com a Abiquim, Abrafati e Sitivesp, organizaram um seminário com a participação de especialistas da Polícia Federal e técnicos estrangeiros ligados à repressão às drogas para explicar as novas medidas de controle.

“Dessa vez, a Polícia Federal agiu em conjunto com a iniciativa privada e conseguiu remover algumas dificuldades do sistema anterior”, explicou. “O sistema deverá funcionar melhor, mesmo controlando número bem maior de produtos.” Medrano salientou que as empresas que já estavam cadastradas não enfrentarão mudanças importantes. No entanto, o controle incluirá pequenos consumidores, como o caso das saboarias artesanais, exigindo registro.
“Para a indústria e o comércio de produtos químicos, a existência de controles oficiais é salutar, moraliza a atividade e impede negócios e venda e transporte de mercadorias por empresas não-cadastradas”, afirmou. O sistema oficial pode ser consultado diretamente pela internet, informando o CNPJ a consultar, com resultado imediato.

Lamentavelmente, a relação de produtos controlados poderá crescer ainda mais. Os produtores de drogas revelam-se extremamente criativos no desenvolvimento de novas rotas de produção e refino, exigindo atualização constante por parte das autoridades. “O foco da fiscalização ainda é direcionado para a fabricação e refino de cocaína, mas as drogas sintéticas estão crescendo muito, e poderão ser incluídas no futuro”, comentou.

A crítica do setor comercial continua sendo a multiplicidade de órgãos controladores, espalhados por diferentes ministérios e em vários níveis administrativos (federal, estadual e municipal), muitas vezes abrangendo os mesmos produtos. Além disso, algumas taxas tomam por base o faturamento das empresas para atribuição de valor, desconectando-o da atvidade fiscalizatória.
“Em 2002, recolhemos um valor em tributos onze vezes maior que o nosso resultado”, lamentou Eduardo Castro, sócio-diretor da distribuidora Morais de Castro, com sede em Salvador-BA. “E não tivemos contrapartidas, basta ver o estado de abandono da malha rodoviária, que para nós significa aumento de custos e riscos.”

Preocupadas em apoiar os empresários comerciais, a Associquim e o Sincoquim preparam para o segundo semestre deste ano a realização de um seminário sobre a adequação ao novo Código Civil, que entrou em vigor em janeiro de 2003, com um ano de prazo para que as empresas se organizem segundo as normas. “A maior parte das empresas de comércio é formada pela antiga denominação de sociedades de responsabilidade limitada ao capital social e precisarão arcar com os custos da reestruturação”, informou Medrano. Porém, esse capítulo do código é alvo de mais de 80 emendas que tramitam no Poder Legislativo. A maioria dos interessados aguarda definições para reformular seus contratos sociais. 

Esse encontro também servirá para apresentar a segunda realização do Encontro Brasileiro dos Distribuidores Químicos (EBDQuim), previsto para março de 2004, em local ainda a definir. “O sucesso do primeiro encontro e a boa aceitação por parte do setor motivam a dar-lhe continuidade”, afirmou.

Um dos temas a tratar será o impacto da Alca (com instituição prevista para 2005) na atividade comercial química. “Quando se fala em comércio exterior, é preciso considerar o balanço final das operações, de modo racional, sem adotar bloqueios e privilégios para alguns setores”, disse Medrano. Ele salientou que o setor químico enfrenta crônicos problemas de normalização e déficit comercial. 
“O déficit químico contempla algumas distorções, pois há vários produtos que são incorporados a outros, estes exportados, mas que não são computados”, afirmou. Ele exemplificou com o caso das pinturas de automóveis, com grande participação de produtos químicos. Da mesma forma, os agroquímicos aparecem com elevadas importações, que deveriam, de alguma forma, ser compensadas pelas grandes exportações de produtos agrícolas.

De modo geral, a Alca não assusta os comerciantes nacionais. “O conceito de distribuição Pan-Americana não decolou, nem mesmo as fusões que foram alardeadas deram grandes resultados”, comentou. Ele salientou que as distribuidoras químicas do México apresentaram forte crescimento de negócios após a formação do acordo de livre-comércio americano (Nafta), mas já se estabilizaram. 

Do ponto de vista ambiental, o setor deslancha o Programa de Distribuição Responsável (Prodir). Atualmente, estão sendo credenciadas as empresas de auditoria que avaliarão o desempenho das empresas que se candidataram. A idéia da Associquim é contar com duas ou três auditoras, independentes de serviços de consultoria, um casamento que o escândalo Enron (EUA) acabou por sepultar. “Em setembro, os auditores serão definidos, iniciando a verificação de conformidades até o final do ano, de modo que possamos anunciar as primeiras empresas certificadas no Prodir durante o EBDQuim”, programou Medrano.

A questão da segurança ligada à distribuição química ganhou relevo desde os atentados terroristas realizados nos EUA, em setembro de 2001. Considerados alvos estratégicos, todas as instalações que armazenem produtos químicos e os seus sistemas de transportes ficaram sob severa vigilância das autoridades. “No Brasil o terrorismo não é problema, mas o roubo de cargas e os assaltos às empresas preocupam”, informou Medrano. As entidades setoriais tentam quantificar quanto as empresas comerciais gastam na prevenção dessas ocorrências, de modo a identificar o impacto nos custos. “Quem investe em segurança consegue reduzir o prêmio de seguro, mas fica caro trabalhar só com caminhões rastreados, contar com escolta e vigilância armada”, comentou. O item segurança, nessa acepção, também foi incluído nos quesitos do Prodir.


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