|
Biodiesel alimenta motor da economia
Brasil pode liderar produção mundial do combustível vegetal que substitui o diesel obtido do petróleo
JOSÉ PAULO SANT’ANNA
A guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, o interminável mal-estar entre Israel e seus vizinhos e a crise ocorrida no ano passado na Venezuela são exemplos recentes da instabilidade política vivida pelos grandes produtores de petróleo nas últimas décadas. Não por acaso, em todo o mundo, os técnicos responsáveis pelo desenvolvimento das matrizes energéticas não se cansam de pesquisar o aproveitamento de novos combustíveis, forma mais eficaz de reduzir a dependência dos países de um energético cujas condições de produção e preço são tão sujeitos a chuvas e trovoadas.
Entre as muitas alternativas avaliadas, uma das mais comentadas atualmente é o aproveitamento do éster metílico ou etílico obtido a partir da reação de transesterificação entre óleos vegetais e álcool. Batizado de biodiesel e indicado para aplicações similares às do diesel obtido do refino do petróleo, responsável pela alimentação da esmagadora maioria da frota mundial de caminhões e ônibus, o combustível “verde” é renovável e apresenta características químicas suficientes para alavancar seu uso de forma espantosa nos próximos anos.
Tal qual o álcool utilizado para substituir a gasolina, o biodiesel provoca menos danos ao meio ambiente, uma vez que sua queima emite menor número de partículas poluentes. Não é preciso ressaltar que se trata de uma vantagem enorme, uma vez que o elevado grau de poluição dos grandes centros urbanos é um problema que incomoda os governos de todos os países do mundo.
Outra propriedade muito importante é sua capacidade de atuar como aditivo do diesel do petróleo nas mais variadas proporções. E o que é melhor, os veículos para os quais os blends são destinados não necessitam de grandes adaptações. Pelo contrário. O uso de misturas com a presença de até 20% do combustível de origem vegetal obtido dentro de especificações apropriadas não exige qualquer alteração no projeto dos motores. Ou seja, nessas condições, o uso do éster não requer qualquer custo adicional para adequar as frotas que estão nas ruas.
Velho conhecido – A idéia de aproveitar óleos vegetais para alimentar veículos não é nova. Rudolf Diesel, o pai do motor a diesel, propôs a possibilidade de utilizar óleo de amendoim como combustível há cerca de cem anos, quando apresentou em Paris o projeto que o imortalizou. O baixo custo do petróleo até a década de 70, no entanto, provocou o desinteresse de qualquer projeto nesse sentido.
O éster metílico dos óleos vegetais transesterificados tem sido utilizado há muitos anos como intermediário químico em várias indústrias de cosméticos, alimentos, tintas e lubrificantes, até para fins escusos de substituir parte da manteiga de cacau nos chocolates pelo éster da gordura hidrogenada de babaçu mais barato, em 1967 (ver QD-44, Junho 69). Seu processo de produção é amplamente conhecido e os principais fornecedores mundiais dos equipamentos necessários para a montagem de fábricas dessa substância estão aptos a atender os pedidos dos interessados em implantá-las.
Para que se tornasse substituto do diesel derivado do petróleo, no entanto, algumas de suas características químicas precisaram ser adaptadas para atender as especificações exigentes propostas pelas montadoras. Afinal, os fabricantes de ônibus e caminhões não estavam dispostos a correr o risco de arcar com o desgaste de imagem gerado por quebras de motores provocadas pelo uso de um combustível inadequado. O problema foi contornado com a realização de um intenso programa de testes e o surgimento de normas internacionais bastante rígidas.
Definidas as especificações, o fato do preço do biodiesel ainda ser pouco competitivo na maioria dos países em relação ao do diesel obtido do petróleo não inibiu o surgimento, principalmente nos países do primeiro mundo, de legislações que incentivam ou, em situações particulares, obrigam o uso crescente do combustível renovável.
Defensor da criação de uma lei no Brasil que programe a utilização progressiva do biodiesel, o deputado Rubens Otoni (PT-GO), em discurso realizado na Câmara Federal no final de março, lembrou que nos Estados Unidos a capacidade de produção do biodiesel supera a cifra de 126 mil toneladas por ano e que lá o produto está sendo aproveitado em frotas de ônibus urbanos e em veículos de serviços postais e de órgãos do governo. Lá a produção do combustível renovável é obtida principalmente a partir de óleo de soja e metanol.
Ainda de acordo com o discurso do parlamentar goiano, na União Européia, 2% dos combustíveis consumidos terão que ser renováveis em 2005. Tal percentual subirá para 5% em 2010. Fabricantes europeus de veículos – entre eles Volkswagen, Audi, Seat, Mercedes Benz e Caterpillar – garantem o fornecimento de motores adequados à adição de biodiesel nos mais variados percentuais. Na Alemanha, atualmente, mais de oitocentos postos de combustíveis já vendem biodiesel puro para diversas aplicações. A capacidade atual de produção do combustível renovável no Velho Continente encontra-se na casa dos 2,1 milhões de toneladas por ano. O óleo de colza e o metanol são as matérias-primas dos ésteres produzidos na Europa.
Made in Brazil – O Brasil apresenta condições invejáveis para se tornar um grande fornecedor mundial de biodiesel por tratar-se do único país do mundo onde ainda existem grandes territórios agriculturáveis disponíveis. É também o país que possui maior experiência como produtor de combustível renovável. Sua capacidade atual de produção de álcool etílico, em condições de substituir o metanol utilizado para produzir o éster no exterior, é da ordem de 16 bilhões de litros por ano.
Quadro similar ocorre com a produção de óleos vegetais, principalmente de soja e de palma, que se encontram entre os que melhor atendem às especificações ténicas exigidas para a produção do substituto do diesel comum. O biodiesel, aliás, pode ser uma saída econômica muito interessante para o destino da produção da polêmica soja transgênica, cuja utilização tem provocado acaloradas discussões entre governo e produtores rurais.
A caminhada para transformar tamanho potencial em um projeto concreto, no entanto, não é tranqüila. Os primeiros passos já foram dados. Com o objetivo de criar um projeto de aproveitamento do combustível de origem vegetal no mercado nacional, o Ministério da Ciência e Tecnologia criou, em outubro de 2002, e hoje dirige o Probiodiesel – Programa Brasileiro de Biocombustíveis. O programa tem o apoio da Rede Brasileira de Biodiesel, que realiza experiências há mais de dois anos e reúne mais de 200 especialistas, entre eles técnicos da Petrobras, do Instituto Nacional de Tecnologia e de vários outros órgãos públicos, universidades, empresas privadas e produtores rurais. Também conta com a cooperação informal dos ministérios do Meio Ambiente, de Minas e Energia, da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Apesar de criado no final da era Fernando Henrique Cardoso, o projeto é visto com entusiasmo pela equipe do presidente Luís Inácio Lula da Silva. “O programa tem tudo para se transformar em um novo Pró-álcool”, garante Roberto Amaral, ministro da Ciência e Tecnologia do novo governo, entusiasmado com a possibilidade do projeto gerar 200 mil empregos no campo.
|
|