Fundidos preocupam – Como nem só de financiamento vive uma cadeia produtiva, o presidente da Câmara Setorial aponta outra fragilidade do setor: a oferta de fundidos. “Muitas fundições fecharam, e as que ficaram aumentaram seus preços, já inflados pela elevação das cotações do aço”, considerou. A qualidade desse serviço varia muito, mas há fornecedores confiáveis. Essa variabilidade é comum ao redor do mundo, com fundidos bons ou ruins de qualquer procedência. “Americanos e europeus já fundem parte até na China, mas exigem qualidade”, comentou.

Com o objetivo de integrar todo o processo produtivo, a Durcon/Vice comprou, no ano passado, a Fundição Eldorado, em Franco da Rocha-SP, produtora de peças de pequenas dimensões, mas que já atende a 30% das necessidades da empresa em fundidos. 

Cuca Jorge “A integração é estratégica para o negócio, as companhias internacionais fazem assim”, explicou o presidente da Durcon/Vice, Alejandro Hube.
Hube: meta é tornar-se multinacional

Como vantagens diretas da aquisição, ele considera a melhor compreensão da atividade de fundição e a busca de melhor qualidade de suprimentos. Hube verificou que a oferta de fundidos sofre com a inconstância da qualidade, exigindo manter caras estruturas de inspeção e análise dos materiais comprados. Apenas os grandes fundidores nacionais conseguem manter constante a qualidade do serviço, mas cobram preços nem sempre compatíveis com o interesse dos compradores de válvulas.

“Agora nós sabemos o quanto custa fundir uma peça, e podemos negociar melhor com os outros fornecedores”, disse. Hube afirmou que a Fundição Eldorado direciona apenas 40% de sua produção para a Durcon/Vice, atendendo também outros clientes nas linhas de aço carbono, inox e ligas especiais. Além disso, as empresas são administradas de forma independente, sem favorecimentos.

Para 2003, a meta da Durcon/Vice é de ampliar seu faturamento em 50%, mesmo com o cenário de guerra no Oriente Médio. “O governo brasileiro já está se antecipando às dificuldades e elevou a taxa de juros que implica retração da economia nacional”, observou Hube. O retrospecto tem sido favorável, com elevação de faturamento de 100% em 2001 (sobre 2000) e de 40%, em 2002, considerando valores em reais.

“Nos próximos dois anos, vamos ampliar as exportações”, afirmou o presidente da Durcon/Vice. Com 70% de suas vendas direcionadas para clientes na área de energia, alavancadas pelas válvulas de recirculação e pela experiência da Vice em linhas de gaveta, globo e retenção pressure seal para altíssimas pressões (até a classe 4.500 libras) e diâmetros até 16 polegadas, a empresa debutará na Power-gen, maior feira mundial de produtos e serviços para energia, em dezembro de 2003, em Las Vegas (EUA), na categoria de fornecedora. Fornecimento recente foi realizado para a termoelétrica Ibiriterm, em Minas Gerais, que encomendou válvulas tipo borboleta de 72 polegadas de bitola para atuar na tubulação de resfriamento de condensadores instalados na saída de gases de turbinas de geração.“Atuar na área de utilidades nos permite trabalhar em mercados diversos como o sucroalcooleiro, siderurgia e outros, ampliando a escala produtiva e aprimorando a tecnologia dos produtos”, disse Hube.

Como cabeça-de-ponte para atuar no exterior, a Durcon firmou acordo comercial e de tecnologia com uma fabricante de válvulas em Three Rivers, Michigan (EUA), dividindo com ela o controle das operações. Citando dados do mais recente congresso mundial do setor (The Valve World), realizado na Europa, o mercado mundial de válvulas industriais representa US$ 40 bilhões por ano, com crescimento anual da ordem de 2%. Desse montante, a metade corresponde a projetos novos e o restante, à reposição de peças.

“A concentração de negócios em âmbito mundial é cada dia maior”, disse Hube. Há 3.800 fabricantes de válvulas em todos os países, mas aproximadamente 11 grandes grupos operam perto de uma centena de fábricas e dominam 30% dos mercados.

No Brasil, o mercado é estimado em US$ 400 milhões ao ano, US$ 150 milhões oriundos de produção local e US$ 250 milhões obtidos a partir de importações. “As exportações brasileiras de válvulas industriais ficam entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões por ano, muito baixas”, comentou. Em comparação, o México produz US$ 800 milhões em válvulas por ano, tendo se beneficiado pela transferências de algumas unidades produtivas dos Estados Unidos, país no qual o setor apresenta produção da ordem de US$ 10 bilhões/ano. “O mercado interno do México também cresceu, o PIB deles já ultrapassou o do Brasil”, explicou. A Durcon/Vice abrirá em março uma unidade comercial no México, a qual poderá tornar-se fabril a partir de meados de 2004. 

Com a intenção manifesta de tornar-se multinacional, a empresa lamenta a elevação dos custos ocorrida nos últimos anos. “O aço inox praticamente dobrou de preço desde 2001, enquanto o custo de mão-de-obra subiu 20%, e é cada vez mais difícil repassar esses aumentos para os clientes”, afirmou Hube. A situação não é pior porque a desvalorização do real ofereceu alguma proteção contra importações. Mesmo as encomendas feitas em regime de turn key perderam força, depois do estrago provocado há quatro anos no mercado local de equipamentos industriais.

O presidente da Durcon/Vice recomenda também aprimorar a gestão dos empreendimentos. “Gestão é cultura, não se copia, cada empresa precisa desenvolver a sua”, afirmou. De modo geral, ele considera baixa a produtividade nacional para válvulas seriadas (commodities), estimada em US$ 35 mil por trabalhador/ano, contra US$ 120 mil nos EUA. 
“Esperamos chegar nesse nível de produtividade no próximo ano, contando com alto grau de automação de processos produtivos e administrativos”, afirmou, embora ressalte trabalhar mais com produtos especiais que seriados. A Durcon adotou um sistema informatizado de gestão integrada fornecido pela brasileira Microsiga, com bons resultados. 

Newton Araújo, da Ciwal, acredita na competitividade da fabricação brasileira de válvulas, em especial com o câmbio atual. Aos empresários do setor, ele recomenda evitar o endividamento financeiro, pois o custo do capital é extremamente elevado, e várias empresas do setor sucumbiram a ele. “Felizmente, a fase de quebradeira já passou”, disse. Na sua opinião, o setor de válvulas poderá ganhar mercado no exterior a partir dos planos da Abimaq de montar clusters (aglomerados de empresas) por cadeia produtiva. 


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