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Máquina de fiação na Polyenka em Americana
CADEIA VOLTA A TER SUPERÁVIT
Depois de um esforço setorial coordenado pela Abit, produtores recuperam desempenho e se
modernizam, ampliando as exportações e voltando a ser um bom filão de vendas para a química
JOÃO TEIXEIRA
Depois de chegar ao
fundo do poço no início da década de 90, a indústria têxtil brasileira
atravessa um momento histórico de recuperação. Um agressivo programa de investimentos,
desencadeado em um projeto setorial desenvolvido pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), já acumula mais de US$ 8 bilhões em desenvolvimento e aquisição de tecnologia, capacitação de recursos humanos e aumento de
produtividade, fatores essenciais de sobrevivência no mundo globalizado e competitivo.
Além da importância para a economia nacional, já que ao lado da
construção civil a cadeia têxtil pertence ao grupo de indústrias que mais empregam mão-de-obra, o renascimento do setor traz efeitos positivos diretos para a química industrial. Isso significa mais vendas de fibras sintéticas, que aproveitam seu próprio avanço tecnológico e as lacunas deixadas pelas oscilações no
desempenho da produção nacional de algodão, e de uma infinidade de produtos
químicos auxiliares, corantes e pigmentos utilizados no beneficiamento têxtil.
E a recuperação se deu de fato, em quase todos os indicadores do setor. Com mais de 30 mil empresas, faturamento de US$ 22 bilhões e empregando diretamente 1,45 milhão de pessoas, só em 2002 foram criados na cadeia têxtil 34.526 empregos, apesar de ter sido um ano de turbulência econômica. Nos últimos quatro anos, desde que a Abit mobilizou as empresas e implementou sua política setorial, 80 mil novos postos de trabalho foram criados. Outros números comprovam a magnitude do esforço conjunto: aumento das
exportações em 2002 para o México (+40,24%), EUA (+37,24%), Canadá (+9,03%) e previsão das exportações entre janeiro e dezembro (US$ 1,3 bilhão) que marca um superávit de US$ 145 milhões, 50% a mais (US$ 73 milhões) que em 2001.
As metas também demonstram um setor com fôlego renovado: investimentos até 2008 que devem superar US$ 12 bilhões, com o objetivo de recuperar 1% de participação no mercado mundial, exportando em 2008 US$ 4 bilhões. “São metas ambiciosas, porém factíveis. Desafios que acreditamos superar com muito trabalho, criatividade e
investimentos em novas tecnologias. Em suma, com a mesma maturidade empresarial com que já superamos as inúmeras crises do passado e que já se tornou
característica dos nossos empresários e profissionais”, discursou Paulo Skaf, o presidente da Abit, ao anunciar parceria da associação com o Museu de Arte de São Paulo (Masp) na criação do Instituto da Moda.
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O propósito de manter o setor superavitário implica negociações duras com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), segundo Skaf. “Vejam bem, eu não defendo um acordo com a Alca a qualquer preço, negociar não é ceder. A Alca pode ser uma oportunidade importante para o Brasil”, diz. A rigor, 70% das exportações globais do Brasil são feitas para 33 países da Alca. O cronograma de integração econômica permite aos setores competitivos a possibilidade de negociar a partir de 1° de janeiro de 2006. Os setores atrasados terão dez anos para começar a negociar. |
José Augusto Cindio |
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| Skaf: metas são ainda mais ambiciosas |
Para o presidente da Abit, o momento pode ser ideal para permitir que as reformas aconteçam e para promover um bom ambiente de negócios. Afinal, para os EUA o Brasil exporta mais do dobro do que importa.
Apesar da Alca, a preocupação de Paulo Skaf é maior com o saldo
comercial. “No início de 2002, a previsão era obter um saldo entre 100 e 200 milhões e alcançamos 150 milhões”, diz. “Queremos um saldo de 300 milhões em 2003”, afirmou. O inventário ambiental da cadeia produtiva, com distribuição de quatro mil folders, ações na mídia especializada e e-mails possibilitam satisfazer rapidamente às questões formuladas por países da Comunidade Européia e Alca. “O projeto
comunidades exportadoras das confecções de vestuário foi um importante passo neste ano”, diz. Segundo Skaf, toda a cadeia dos produtos de algodão, peças do vestuário e a linha do lar são importantes itens na pauta das exportações, bem como a moda praia, jeans e outros.
| José Augusto Cindio |
Estímulo à produtividade – “O setor têxtil é dinâmico, criativo e rápido. Mas a inspiração não é monopólio do Brasil”, comenta Sylvio Tobias Napoli Júnior, engenheiro têxtil e diretor de qualidade e tecnologia da Abit. “Os remédios no Brasil são dados em doses excessivas, não homeopáticas”, afirma Napoli, com 33 anos de experiência na área. Ele acompanhou as grandes mudanças recentemente desencadeadas na cadeia produtiva, que começaram na agricultura com as fibras naturais, e atingiram a confecção e a comercialização final. |
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| Napoli: adequação às normas para exportar |
Investiu-se pesadamente e houve mudanças na mentalidade de empresários competitivos. O algodão, outrora a grande matéria-prima dos tecidos consumidos no Brasil, com 60% a 62% de participação, teve seu percentual diminuído, mas não se reduziu sua área plantada. Com o crescimento vegetativo da população, o consumo de têxteis evidentemente aumentou. Para evitar a fuga de capitais, com o aumento das importações de fibras sintéticas e artificiais, a Abit empenhou-se na manutenção da área plantada de algodão, façanha empreendida principalmente na administração do presidente Paulo Skaf, segundo ressaltou Napoli.
Em 1988, quando a produção brasileira de algodão chegou a 800 mil toneladas, a indústria têxtil diminuiu gradativamente as suas importações da fibra natural. Entre 1990 e 2000, houve violento incremento da produção têxtil, que saltou de 1,1 para 1,5 milhão de toneladas. A partir de 1999, com o incentivo do plantio agrícola, houve equilíbrio entre a produção e o consumo.
“Antes a produção têxtil se concentrava em uma matéria-prima que o Brasil era superavitário, o algodão”, analisa Sylvio Jr. Mas mesmo que a aplicação dos sintéticos em têxteis tenha começado a reverter esse quadro, não chegou a haver queda na produção algodoeira. Tanto foi que houve aumento no
consumo interno de algodão, de 7.7 kg/habitante em 1990 para 11.2 kg, em 2000. Hoje, o consumo mundial oscila entre 14 quilos por habitante por ano, um índice que quase chega a 8,5 kg/habitante/ano no Brasil.
Este volume não chegava a 7.3 kg/ano há uma década. Cresceu a população com aumento proporcional no consumo de têxteis per capita. As fibras artificiais e sintéticas, de processo mais curto, passaram a ser aplicadas diretamente na área de fiação. “As fibras químicas transformaram radicalmente a indústria têxtil nos últimos dez anos, promovendo um notável aumento em substituição às fibras naturais”, comenta Sylvio Jr.
Tecidos finos e caros – Os químicos têm uma influência extraordinária na
produção de tecidos. Até 1985 o algodão e as fibras naturais detinham 70% do consumo interno. Hoje as fibras
químicas avançam com rapidez. As fibras artificiais e sintéticas entram na
produção de tecidos finos, mais caros e valorizados, de maior valor agregado.
Sylvio Jr. acha inviável a análise quantitativa do fenômeno. “Se for em custo, a influência da química é uma, em peso, outra. Sua influência estratégica na indústria têxtil é mais ponderável, aplicada do começo ao fim do processo produtivo”. O diretor de qualidade da Abit compara os químicos a um custo de risco, assim como energia elétrica, água e comunicações.
“Imagine os problemas se faltar algum deles. Tínhamos dois caminhos: tornar o País um enorme produtor têxtil ou promover a reorganização
internamente”, explica o diretor. A influência relativa dos químicos ainda é baixa mas indispensável na produção têxtil. O primeiro grande passo foi dado nos anos 90, quando a Abit criou o Comitê Brasileiro de Têxteis e Confecção, o CB-17, que preparou suas normas técnicas.
O passo seguinte foi modernizar a indústria da confecção, sempre atrasada na cadeia produtiva, que envolve muitas fábricas e milhares de
profissionais. “O grande desafio é colocar as confecções no mesmo patamar tecnológico para as exportações”, diz. A
extraordinária evolução da tecnologia têxtil deu-se em processos e produtos.
O grande marco foi a abertura comercial de 1990, no Plano Collor, que atingiu um setor não-competitivo que sobrevivia graças às defesas comerciais e impedia
importações. O setor têxtil sofreu forte reestruturação interna, capacitando-se para enfrentar as
importações e produtos mais baratos oriundos de países com mão-de-obra intensiva, grandes produtores têxteis como Taiwan, China, Indonésia, Paquistão e Índia.
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Remanejamento – Depois da reestruturação forçada, a indústria aprendeu a pensar globalmente. E em toda a sua cadeia de fornecedores, inclusive na química. As negociações com os países do Mercosul e eventuais acordos com a Alca e a Comunidade Econômica Européia (CEE) caminham rápido na Associação Brasileira da Indústria Química, Abiquim. A globalização alterou o perfil do consumo aparente de produtos químicos no Brasil, explica o coordenador da comissão setorial de corantes e pigmentos, Jandyr Falzoni. |
José Augusto Cindio |
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| Falzoni: concentração nos corantes |
“Proporcionalmente, aumentaram as importações e exportações, em
conseqüência de um fato notório: para
racionalizar a produção e otimizar sua participação no mercado, a maioria das multinacionais estão remanejando suas produções para outros países”, explica Falzoni. A concentração liqüidou a metade dos fabricantes de corantes, pigmentos e alvejantes ópticos. Os gráficos da Abiquim do consumo
aparente (diretos, ácidos, enxofre, tina, básico, dispersos, reativos e outros) demonstram esta realidade.
Em 1995, o consumo aparente de corantes (17.067 toneladas) tinha um valor médio de 12,67. Em 2000, para um consumo de 26.952 t. (+ 57%), o valor médio foi de 7.19 (- 44%) Em 2001, para 26.485 t, o valor
médio caiu para 6.71. A demanda aumentou mais de 50% em peso mas reduziu até 18% em dólares em 2001, porque o valor
médio caiu para menos da metade, uma “economia” que foi repassada para o
consumidor da indústria têxtil, segundo Falzoni.
Assim como os países americanos e europeus, as demandas no Brasil estão sendo atendidas
também pelos asiáticos, especialmente a China. Nas décadas de 80 e 90, oito
multinacionais concentravam a produção doméstica de corantes, pigmentos e alvejantes óticos. Restam quatro delas no setor. A Basf produz pigmentos. A Ciba, alvejantes óticos. A Clariant, pigmentos, corantes e alvejantes óticos. E a DyStar, corantes.
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