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Ilustração: Martinez

CORANTES E PIGMENTOS PERDEM RENTABILIDADE
E SOFREM OS EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO, QUE
FECHOU FÁBRICAS NO BRASIL PARA CONCENTRAR
NEGÓCIOS NA ÁSIA, ENQUANTO A TECNOLOGIA
DE APLICAÇÕES EVOLUIU A PONTO DE REDUZIR O
CONSUMO DESSES INSUMOS
MARCELO FAIRBANKS
A produção brasileira de corantes e pigmentos reflete com clareza os efeitos da globalização de negócios e da instabilidade econômica local. Obediente ao cânone de produzir apenas as linhas nas quais seja absolutamente eficiente, complementando a oferta por meio de importações, o setor apresentou dramático fechamento de unidades produtivas, enquanto verifica participação crescente de produtos estrangeiros.
Em âmbito mundial, já se consolidou a transferência da produção da Europa, tradicional centro produtor de insumos básicos sintéticos do setor, para a Ásia, em especial para China e Índia, os novos líderes dos corantes têxteis e pigmentos inorgânicos. Apenas as valiosas especialidades permanecem na origem, embora sem o mesmo apelo do passado que lhes justificava orçamentos polpudos de pesquisa e desenvolvimento. A palavra de ordem agora indica rentabilidade para os investidores, a prazos mais curtos.
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Nesse panorama, o Brasil teve algumas condições para disputar com os asiáticos a “hospedagem” de sítios produtivos mundiais. “Mesmo nos corantes reativos e diretos, perdemos a oportunidade por terem faltado condições para produzir na escala suficiente”, comentou Jandyr Falzoni, coordenador do comitê de corantes e pigmentos da Abiquim e diretor-técnico da Enía, produtora de corantes no Brasil desde 1924, controlada a partir de 1988 pela holding Norquisa. |
Cuca Jorge
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| Falzoni: corantes passam por processo de
commoditização |
Não fossem essas dificuldades, o País, por ser tradicional usuário de fibras naturais, com destaque para o algodão, poderia ter se tornado referência mundial nas linhas dos reativos e diretos, os mais indicados para tingir esses materiais. Na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, o uso de fibras sintéticas predomina, impulsionando a demanda por outras famílias de produtos. “De 1995 para cá, dos 18 produtores de corantes e pigmentos no Brasil, só restaram nove”, disse Falzoni.
Cuca Jorge
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Pelo menos para a DyStar, gigante mundial em corantes têxteis que reuniu as linhas da Hoechst, Bayer, Basf e Zeneca (ICI), a posição fabril no Brasil se destaca nos reativos, com a ressalva do fechamento de unidades em 2001. “Manteremos apenas a fábrica de Suzano-SP [no sítio da Clariant] em operação”, disse o gerente de marketing para a América do Sul Laércio Ferragina. As instalações de Jacareí-SP foram fechadas em fevereiro, enquanto as de Guaratinguetá-SP encerram atividade em novembro. |
| Ferragina: só alguns reativos mantém
competitividade |
“Só temos competitividade mundial nos corantes reativos vinilsulfônicos, a linha Remazol da antiga Hoechst”, explicou. Atualmente, as condições de mercado não justificam produzir, por exemplo, corantes dispersos em capacidades inferiores a 15 mil t/ano, segundo Ferragina. As produções descontinuadas serão transferidas para outras unidades da DyStar, principalmente na Ásia e também na Alemanha.
“Houve uma ‘commoditização’ dos corantes. Durante anos o mercado selecionou as linhas de menor custo, exigindo produção em larga escala”, disse Falzoni. Esse processo começou na década de sessenta, no Japão, sucedido pela indústria coreana e de Taiwan. Atualmente, chineses, indianos e tailandeses atuam com força no mercado, mas é possível imaginar nova onda de transferências. “Egito e África do Sul já contam com produção própria a preços interessantes”, afirmou.
A seleção geográfica teria sido impulsionada também pelo aumento das pressões ambientais nos países desenvolvidos. “Isso não é mais verdade, pois mesmo a China e a Índia já estão adotando padrões internacionais de proteção ambiental”, comentou Falzoni. Segundo verificou, na China o tratamento de efluentes é feito em instalações estatais, enquanto na Índia algumas fábricas de corantes e pigmentos foram fechadas por serem poluentes. O Brasil já segue legislação restritiva há anos. “A construção da fábrica da Enía, em Itupeva-SP, começou pelo tratamento de efluentes de projeto avançado para a época, com segregação de fluxos, que até hoje serve de exemplo”, disse.
A seleção pelo baixo preço inibiu desenvolvimentos técnicos recentes e restringiu o mercado de algumas linhas. “Os corantes à tina, mais caros, só são usados quando se precisa de alta solidez”, explicou. No mais das vezes, segundo ele, os reativos são preferidos, por aliarem preço baixo com uso rápido e bom desempenho. “Não há novidades nesse mercado; hoje se procura melhorar o que já existe, principalmente para melhorar a aplicação”, comentou. Como comprovação, citou a notável redução de verbetes de cor no disponíveis Colour Index.
A própria Enía, pioneira na América Latina, deixou de operar com pigmentos e passou a revender corantes têxteis asiáticos, mantendo produção própria para couros e papel. Ainda assim, alguns materiais básicos são importados. “Como os corantes são iguais para todos, a diferenciação se dá no serviço prestado ao cliente”, afirmou Falzoni, relatando avanços na tecnologia de tingimentos, especialmente em automação e instrumentação de processos. Cabe aos vendedores-técnicos resolver problemas de aplicação, o que implica absorver custos de pós-venda. “O problema é manter a rentabilidade”, disse.
“O preço dos corantes está caindo ano a ano, em dólar”, avaliou Ferragina. Somado à já conhecida crise econômica, isso justifica a queda de 15% nas vendas prevista para este ano. Para 2002, ele espera manter as vendas no mesmo patamar. “Em toneladas, as vendas ficaram praticamente iguais”, comentou. Na sua opinião, o mercado têxtil brasileiro apresenta amplas vantagens competitivas apenas em denim (jeans azul, bom para o índigo) nos artigos para cama, mesa e banho. “A Ásia já responde por 50% do mercado têxtil mundial e até os Estados Unidos apresentam redução de 10% ao ano na cadeia têxtil”, afirmou.
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