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Situação instável – A expectativa da petroquímica mundial para os próximos meses já era débil, refletindo a desaceleração da economia americana, e tornou-se lamentável depois do atentado às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. “Apesar dessa crise imprevisível, não esperamos resultados dramáticos para o setor em âmbito mundial”, afirmou o superintendente da Oxiteno. Há redução do nível de atividade mundial, compatível com a queda de consumo, mas essa situação não deve perdurar. “Os Estados Unidos evitarão maior desaquecimento econômico, a Inglaterra já baixou sua taxa de juros e a Opep mantém o preço do petróleo em patamar responsável”, comentou.
Em âmbito global, verifica-se a queda de preços petroquímicos, comprimindo margens de lucro e dificultando exportações de países como o Brasil. Em escala local, apesar de alguns setores apresentarem bom desempenho, como a atividade agrícola, outros estão em queda, como a indústria automobilística e a de construção civil, gerando forte impacto no setor químico. “O nível de investimentos estrangeiros no Brasil também está caindo, pressionando as cotações do dólar frente ao real”, disse o executivo. Com isso, empresas endividadas em moeda forte sofrem mais, com situação agravada pelo fato de os empréstimos para países emergentes terem minguado. Nem mesmo a alternativa das captações por meio de emissão de ADRs deve ser cogitada, pois o alto risco desses papéis exige a oferta de remuneração excessiva, inviabilizando o negócio.
O resultado é o agravamento do déficit comercial químico do Brasil. “A previsão da Abiquim é de registrar US$ 1 bilhão a mais no saldo devedor, chegando a US$ 7,5 bilhões em 2001”, informou o executivo, também membro da comissão de comércio exterior da associação. Os números apontados pela entidade mostram elevação das importações setoriais de US$ 5,7 bilhões de janeiro a julho de 2000, para US$ 6,1 bilhões em igual período deste ano. Já as exportações caíram de US$ 2,3 bilhões para US$ 2,1 bilhões. “Tradicionalmente, no segundo semestre ocorre agravamento do déficit comercial”, afirmou.
Boa notícia para o setor consiste no anúncio de revisão nos tributos incidentes sobre petróleo e derivados, a vigorar a partir de 2002. Por meio da nova regulamentação, o PIS e o Confis deixarão de incidir sobre o preço da nafta petroquímica. “Ainda não temos detalhes, mas aparentemente, isso será bom para o setor”, disse. A necessidade de mudanças na política tributária fica evidente no estudo realizado pela Abiquim sobre o valor adicionado na atividade química brasileira no ano passado. Em média, desse valor, 44% ficaram com o governo, por meio dos tributos diretos e indiretos; 24% bancaram juros; 20% foram destinados ao pagamento do trabalho; e apenas 13% remuneraram o capital investido. “Isso é pouco para estimular novos investimentos no setor”, comentou Wongtschowski.
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O executivo Armando Guedes Coelho, da Suzano, espera problemas para o setor no curto prazo, mas acredita que o Brasil poderá sair da crise favorecido em horizonte mais amplo. “Nos próximos cinco meses deverá haver retração de mercado e encarecimento de matérias-primas, com reflexos ruins no mercado”, disse Coelho. “Depois de estabilizada a situação, o quadro fica positivo, até para o Brasil, porque os países desenvolvidos vão preferir investir em lugares com os quais tenham mais afinidade cultural.” |
Cuca Jorge
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| Coelho: crise pode ajudar Brasil a médio prazo |
Dessa forma, o Brasil desponta como excelente alternativa, melhor que o Sudeste Asiático, pela proximidade física e cultural, aliada à estabilidade política. Além disso, o consumo per capita de derivados petroquímicos no País ainda é baixo, metade do registrado na Argentina, e um décimo do dos EUA, significando existência de mercado local para absorver a produção. “No médio prazo, a situação é boa para o Brasil, mas quem estiver muito endividado em dólar passará por maus momentos”, afirmou.
Coelho também admite a possibilidade de cenário pior, por causa do alto risco envolvendo os principais países exportadores de petróleo do Oriente Médio, evidentes alvos estratégicos. “A metade do petróleo consumido nos Estados Unidos é importada da região, por isso eles mantêm duas frotas navais permanentemente por lá”, comentou. Em situação crítica, pode haver restrições de oferta. “Só o temor dessa possibilidade já faz o óleo subir”, disse. Caso a flutuação seja muito grande, a petroquímica mundial vai sofrer. O reflexo para o Brasil é amplificado pelo desequilíbrio das taxas de câmbio.
O desempenho do mercado de produtos petroquímicos no Brasil é considerado satisfatório pelo diretor de marketing da OPP, Alexandrino Alencar. “O problema é o excesso de oferta, porque várias fábricas novas foram inauguradas no passado recente, além da nova produção argentina”, explicou. Na sua análise, a transformação de plásticos no País mudou de perfil, tendo investido em máquinas de grande capacidade produtiva. “Demanda tem, margem, não”, disse. A culpada seria a Petrobrás, que estaria dolarizando o preço da nafta, atualizando-o a cada 30 dias. “O ideal para o setor seria contar com reajustes anuais da nafta, como foi feito com o gás natural das termoelétricas”, disse. A partir da formação da Braskem, o executivo espera ter maior poder de negociação com a estatal. “Seremos os compradores de 80% das 10 milhões de t/ano de nafta vendidas no País”, disse. Aliás, a Copene já conta com estrutura para importar nafta diretamente. Além disso, as centrais petroquímicas passarão a competir com a estatal na comercialização de gasolina, ponto capaz de gerar atritos.
Outra fonte de preocupação para a petroquímica é o excesso de tributos cobrados, muitos dos quais incidentes em cascata, agravando a situação de toda a cadeia industrial. Por causa disso, segundo Alencar, parte da transformação de plásticos caiu para a economia informal. “O mal da crise argentina, conjugada com a guerra no Oriente Médio, é desviar a atenção dos nossos problemas, adiando uma resolução”, lamentou.
Investimentos a caminho – “Desde 30 de março, quando decidimos entrar no leilão, nós estamos concentrados em consolidar as operações na Bahia”, informou Alencar. Com a vitória confirmada, no final de julho, começaram os trabalhos de avaliação interna, que verificarão duplicidades estruturais, permitindo reduzir custos.
No final de 2001, será a vez de incorporar à Copene os ativos da OPP, Trikem e Nitrocarbono, formando, enfim, uma companhia petroquímica mundial, de classe mundial, já denominada Braskem. São previstos alguns conflitos com sócios minoritários (com poder de veto) nessa ocasião, pelo fato de representar aporte de capital, que poderia ser acompanhado ou não pelos demais acionistas. Caso optem por não bancar a chamada de capital, haverá diluição de participações. “Depois dessas mudanças, será a hora de voltar a investir na produção”, afirmou.
O primeiro projeto a deslanchar deve ser o desgargalamento da Copene, de modo a ofertar mais 100 mil t/ano de eteno. “Com isso deverá haver uma sobra da olefina para permitir ampliação da Trikem (PVC) e iniciar o projeto de monômero de estireno, por parte da Dow e da Basf”, afirmou Alencar. Essas hipóteses são viáveis em horizonte de dois a três anos.
Em prazo pouco maior, é possível pensar em nova fase de desgargalamento da central, acrescendo outras 200 mil t/ano de eteno. Além disso, a sobra de propeno da Copene poderia suportar nova fábrica de PP, aproveitando a existência de um projeto elaborado pela antiga Polialden que, nos velhos tempos da reserva de mercado, já contava com a benção do extinto Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI). “A nova fábrica poderá ser até maior, se a unidade baiana da Polibrasil for comprada pela Copene”, comentou Alencar.
Será a hora de a OPP fazer a escolha entre integrar-se à central baiana ou aproveitar propeno de refinaria em Paulínia-SP, onde firmou protocolo de intenções com a Petrobrás, válido até 2005. Comenta-se no setor que a estatal gostaria de uma definição breve, para encontar uso mais rentável para essa corrente, hoje incorporada ao pool de GLP. “O projeto de Paulínia está no forno, aguardando as conclusões dos estudos de mercado”, explicou Alencar, salientando que a construção da fábrica é rápida, estimada em menos de dois anos.
Paulínia também seria a sede de novo pólo petroquímico, conforme outro protocolo de entendimento mantido com a estatal. “Esse projeto já foi deslocado de lá para a fronteira entre Mato Grosso do Sul e a Bolívia”, comentou o diretor. Seria a melhor forma de aproveitar o gás natural boliviano, retirando as frações de uso petroquímico para fazer resinas plásticas, abastecendo o mercado agrícola regional.
A área de aromáticos também pode ser alvo de mudanças, recebendo investimentos para a fabricação do ácido tereftálico purificado (PTA), permitindo produzir poliéster têxtil e polietileno tereftalato (PET) por rota mais econômica que a atual, via DMT da Nitrocarbono.
Todos esses projetos da Braskem deverão ser alavancados por emissão de ADRs no mercado de capitais do exterior. “Temos dívidas contraídas para fazer fábricas novas, que nos tornaram mais competitivos”, afirmou. “O processo de fusão melhora a alavancagem financeira.”
Sudeste cresce – Consultores do setor apostam na consolidação de empreendimento petroquímico concorrente na região Sudeste do Brasil, a começar pela integração entre Petroquímica União e a projetada Rio Polímeros. A sinergia seria interessante pela localização dos empreendimentos e pela complementariedade das tecnologias, uma com base em nafta e outra alimentada a gás natural. No entanto, a central paulista também apresenta nós a desatar em sua composição acionária, que consumiriam recursos dos controladores, atitude pouco atraente no momento. Uma possibilidade de integração passaria pela maior participação da Petrobrás, uma negociação difícil.
A Rio Polímeros deve fechar a engenharia financeira nas próximas semanas, com a possibilidade de iniciar obras a partir de novembro. “Trata-se de contrato internacional de financiamento complexo, que exigiu muitas revisões para estabelecer qual o melhor modelo societário e as garantias necessárias”, afirmou Armando Guedes Coelho. O que nasceu como conjunto de duas empresas independentes, tornou-se uma só entidade, da separação do etano do gás natural até a fabricação de polietilenos, empreendimento conjunto da Petrobrás, Suzano e Unipar. Um dos entraves para o projeto foi o questionamento feito junto ao Cade, pela Copesul, já devidamente superado, segundo Coelho.
Melhor sorte teve o projeto da nova fábrica de PP da Polibrasil, em Mauá-SP. Em setembro foram concluídas as negociações com os agentes financeiros internacionais, permitindo prever para daqui a 26 meses o início de operações da unidade para 300 mil t/ano de PP, feitos com tecnologia Basell. O acordo acertado com a Petrobrás há dois anos estabelece que a Polibrasil vai construir separador de propeno de fluxos de refinaria da estatal, que ficará dispensada de investir. “O spliter será da Petrobrás, que pagará por ele pelo fornecimento de propeno”, explicou Coelho. “Enquanto não remunera o investimento, a instalação fica arrendada à estatal, depois passa para o seu patrimônio.” Segundo o executivo da Suzano, a venda como propeno é duas vezes mais rentável para a Petrobrás que sua comercialização como GLP. Aliás, a remuneração pela olefina será feita por meio de participação no valor de venda do PP.
Para chegar a 300 mil t/ano, a Polibrasil deverá desativar a fábrica velha, para pouco mais de 100 mil t/ano, do pólo paulista. Desse modo, a unidade nova vai usar duas fontes diferentes de propeno. Como o projeto reduz a quantidade de um dos componentes do GLP, Coelho apressa-se em afastar qualquer risco de desabastecimento do popular gás de cozinha. “O GLP tem problemas de logística, não de oferta mundial”, disse. A Petrobrás, inclusive, é sócia do projeto Mega, criado para aproveitar o gás natural da província de Neuquén em associação com a YPF e a Dow.
Pelo acordo, a YPF (Repsol) ficará com a fração C4, vendendo-a para alimentar os sistemas de aquecimento de prédios e casas argentinas, sujeitos a invernos rigorosos. A Dow fica com o etano separado do gás, enquanto à Petrobrás cabem cerca de 600 mil t/ano de propano/butano, para uso industrial (após separação) e como GLP, que se tornará abundante no País. “Quanto mais usos, melhor”, disse.
A refinaria de Capuava, que processa 3 mil t/dia de petróleo, será a fornecedora complementar de propeno para a Polibrasil. “A refinaria foi alterada com tecnologia do Cenpes para craquear direto o resíduo da destilação atmosférica, aumentando a produção de frações leves”, informou Coelho. Mesmo assim, para chegar na quantidade contratada de 140 mil t/ano, a estatal deverá trazer um pouco do gás da refinaria de Cubatão-SP.
Da parte da PqU, na qual o grupo Suzano também é acionista (por meio da Polibrasil), estão sendo estudadas ampliações modestas, a partir de gás residual de São José dos Campos. Espera-se aumentar de 100 mil a 150 mil t/ano a produção de eteno na central, exigindo a construção de gasoduto e separadores adequados. “Talvez não valha a pena”, comenta Coelho.
Cuca Jorge
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Próximo round – Embora ruidoso, o leilão dos ativos do grupo Econômico ainda não encerrou a pendência com o Banco Central. Falta definir o destino de outro ativo petroquímico relevante, a Ciquine, produtora de plastificantes, cuja venda ficou para outra oportunidade. “Com a venda da Copene e reestruturação do pólo da Bahia, finalmente o Brasil começou a resolver um problema e poderá reativar o setor”, comentou Reinaldo Rubbi, diretor-superintendente da Elekeiroz, que prevê a ampliação da capacidade da central baiana para além dos desgargalamento anunciados. |
| Rubbi: Copene reformulada suporta novos
investimentos petroquímicos |
Na opinião de Rubbi, é necessário ter maior oferta de matérias-primas para permitir novos investimentos na região. “Da nossa parte, estamos esperando o leilão da Ciquine e buscamos novas oportunidades de negócios a partir da nova dinâmica empresarial de Camaçari”, afirmou.
A Elekeiroz sofre em duas linhas com a importação de produtos argentinos, cujo mercado encolheu com a crise econômica. “A Argentina tem problema estrutural de balança de pagamentos, como qualquer país da América Latina”, disse. Apesar disso, ele qualificou o desempenho dos negócios da companhia como bom, apesar do difícil cenário que se apresenta.
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