CAMAÇARI ABRE O CAMINHO
PARA A REESTRUTURAÇÃO


NOVOS CONTROLADORES DA COPENE PREPARAM A INTEGRAÇÃO  COM AS EMPRESAS DE SEGUNDA GERAÇÃO, 
SEGUINDO A TENDÊNCIA GLOBAL DA CONCENTRAÇÃO DE NEGÓCIOS PETROQUÍMICOS. PROCESSO PODE ENVOLVER O PÓLO GAÚCHO E ATIÇA CONCORRENTES A FORMAR PÓLO SUDESTE. 

Marcelo Fairbanks

O nó baiano da petroquímica brasileira começou a ser desatado no dia 25 de julho deste ano. Em lance ousado, os grupos Mariani e Odebrecht, a princípio vendedores de suas participações, acabaram por comprar as posições ofertadas pelo Banco Central, arrecadadas do acervo de liquidação do Banco Econômico. O negócio deu partida em amplo processo de reestruturação do pólo petroquímico de Camaçari-BA, o maior do Hemisfério Sul, que está longe de terminar.

Tão difícil quanto reorganizar as empresas do pólo é entender as operações realizadas. Não foi à toa que as participações cruzadas nas empresas de primeira e segunda geração deram origem à expressão “nó baiano”. A complexidade de relacionamentos foi até um dos motivos alegados por companhias internacionais para ficar de fora dos dois leilões anteriores, ambos fracassados. O outro motivo, esse compartilhado pelo Grupo Ultra, também desistente, foi o preço de R$ 785 milhões estabelecido como lance mínimo pelo Banco Central. Além de comprar essa parte, o eventual comprador também deveria respeitar os direitos de venda conjunta, formado por participações dos grupos Odebrecht e Mariani, montando a pouco mais de R$ 968 milhões.

Unidos, Mariani e Odebrecht formaram a Nova Camaçari Participações, por meio da qual bancaram o preço mínimo do leilão, arrematando a maioria das ações da holding Conepar (56,31%) e da Proppet (produtora de PET). Com isso, a Nova Camaçari assumiu 66,7% do capital da Polialden, fabricante de PEAD, e 31% do capital da Politeno (PELBD/PEAD e PEBD).

Ao mesmo tempo, a Odebrecht Química acertou a compra de 16,03% do capital da holding Norquisa, alienada como direito de venda conjunta por parte da Trikem. Os 23,69% de participação na Norquisa em poder da Polialden também ficaram com o braço químico da Odebrecht que, aliado à particpação do grupo Mariani, assumiu o controle (com 55,78% dos votos) da holding, majoritária no capital da Copene. Essas operações foram financiadas pelos bancos Citbank e ABN Amro.

Simultaneamente, por força do direito de venda conjunta, a Nova Camaçari comprou os 31,92% do capital da Conepar que estavam em poder da Intercapital (pertencentes a Mariani/Odebrecht e CBP), além dos 11,76% em poder do BNDES, assumindo a totalidade do capital dessa empresa.

Após o leilão, em segundo movimento, dessa vez autorizado pelo conselho de administração, a Copene comprou toda a Nova Camaçari, incluindo os ativos recém-adquiridos e os financiamentos correspondentes, no valor de R$ 1,4 bilhão.
No final dessa maratona, os novos controladores anunciaram para o futuro a adoção de novo nome comercial para a Copene e ativos incorporados: Braskem. Sob essa denominação deve se consolidar grande parte do pólo petroquímico baiano, a começar pela plena incorporação da Polialden e da Proppet, aprovadas pelos acionistas minoritários da antiga Copene (Petroquisa e fundos de pensão, como Previ e Petros) no final de setembro. 

Na segunda fase da reestruturação, a ser efetivada no final de 2001, serão integradas à Braskem as empresas Nitrocarbono, Trikem e OPP. Na terceira fase, serão adquiridas as participações dos minoritários japoneses (Mitsubishi e Nisso Iwai) na Polialden, além de negociada a posição dos demais acionistas da Copene, os quais precisarão aportar recursos financeiros para não ver diluídas suas participações acionárias na central.

Ao cabo da hercúlea tarefa, restará um gigante petroquímico integrado, a Braskem, que terá por objetivo estratégico ampliar seu campo de atuação, promovendo a fusão com o pólo petroquímico gaúcho, de Triunfo-RS.

 “A Braskem já conta com participação de 30% no capital votante da Copesul, antes mantida pela Odebrecht”, explicou o diretor de marketing da OPP, Alexandrino de Alencar. Uma evidência dessa aproximação Nordeste-Sul foi o ingresso da presidente da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, no conselho de administração da nova Copene.

Cuca Jorge
Alencar: Braskem já nascerá com participação de 30% na Copesul.

Os executivos não esperam problemas junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para a aprovação dessas operações, por dois motivos básicos. O primeiro reside nos movimentos de fusões e aquisições feitos pelas grandes companhias internacionais petroquímicas, de modo a garantir a competitividade, exigindo iniciativas simétricas por parte das companhias nacionais. O segundo motivo parte da existência do Mercosul, que obriga a enxergar os países-membros como apenas um só mercado. Dessa forma, a presença da Dow Chemical na Argentina, com planta de larga escala de termoplásticos (polietilenos) em Bahía Blanca, garante suficiente concorrência. Essa concorrência, aliás, motivou queixa de dumping por parte da OPP junto à Secretaria de Comércio Exterior (Secex). “Já no ano passado, as vendas de polietileno da Dow no Brasil foram muito altas, apesar da variação cambial, principalmente porque o mercado argentino está em crise, não absorvendo a produção”, disse Alencar.

A união das empresas de Camaçari, se realizada da forma como pretendida pelos controladores, apresenta sinergias óbivas, com reflexos muito positivos para o empreendimento. “Já calculamos que, em dez anos, as economias obtidas pela aglutinação de empresas somam US$ 500 milhões”, comentou o diretor. Metade dessa soma se refere a impostos incidentes em cascata, recolhidos em cada transferência entre primeira e segunda gerações. 

Problema residual do pólo de Camaçari consiste na acomodação de interesses de companhias fora do bloco de controle Mariani-Odebrecht. É o caso de Oxiteno, Politeno e Polibrasil-BA, principalmente. O grupo Suzano integrou o chamado Grupo Protocolo até o malogrado segundo leilão do espólio do Econômico, ofertando sua participação na Politeno (35% do capital votante) em conjunto com o sócio japonês Sumitomo (30%), que permitiriam colocar no bolo mais 12,5% de capital ordinário da Norquisa. Expirado o prazo de venda conjunta, o grupo de origem papeleira resolveu tentar a venda isolada, sem sucesso. Logo após o leilão, representantes do grupo Odebrecht negaram a intenção de comprar a posição majoritária na Politeno, pelo menos a curto prazo, deixando poucas alternativas para a companhia.

“Da nossa parte, entendemos que a Politeno é um excelente negócio; tanto podemos vender nossa parte, quanto comprar o restante das ações”, disse Armando Guedes Coelho, diretor do grupo Suzano para negócios petroquímicos. Aliás, em setembro, o grupo anunciou que dividirá seus negócios em duas empresas independentes: uma para papel e celulose e a outra para petroquímicos. “A participação na Politeno poderá até entrar em um eventual acordo de aglutinação de negócios entre os pólos de São Paulo e o que estamos construindo no Rio com a Unipar e a Petrobrás”, explicou. 

De qualquer forma, para Coelho, o relacionamento, tanto da Politeno, quanto da Polibrasil (associação paritária entre Suzano e Basell) com a Nova Copene/Braskem (apelidada Copenão) é considerado muito bom. “Temos contratos de fornecimento de matérias-primas de longo prazo que certamente serão cumpridos”, comentou. Além desses negócios, a Copene detém aproximadamente 20% do capital da Petroflex (produtora de borracha SBR), ao lado do grupo Suzano (20%) e Unipar (10%). A empresa passa por longo período de rearranjo estrutural e comercial, que começa a dar bons resultados. Apesar disso, os novos controladores da Copene aparentam desintereesse pelo negócio, embora seja a central baiana a principal fornecedora de butadieno e, em contrapartida, a Petroflex seja, de longe, a maior consumidora dessa diolefina. Essas características tornam as participações interessantes como moeda de troca em eventual acordo entre os grupos.

Cuca Jorge
O diretor-superintendente da Oxiteno, Pedro Wongtschowski, também afirma manter relacionamento cordial com os novos condutores da petroquímica baiana. “Possuímos, por meio do grupo Ultra, 10% do capital da Norquisa, portanto temos o máximo interesse em uma Copene forte e sadia, capaz de gerar dividendos”, afirmou. Do ponto de vista da Oxiteno, as modificações por que passa a central não a afetam diretamente. “Fizemos ampliação recente [1997] que absorveu o último eteno disponível na Copene e, de lá para cá, o crescimento dos principais mercados não foi nada fantástico”, explicou. “Temos posições muito fortes nos mercados em que atuamos e a companhia é rentável.” De agora em diante, a Oxiteno segue analisando opções para investimentos futuros.
Wongtschowski: estímulo para os investimentos produtivos é baixo

Especialista em negócios petroquímicos, Wongtschowski considerou alto o preço mínimo exigido no leilão. Tanto que, após a negociação, o preço das ações iniciaram queda abrupta, agravada pela crise internacional. Uma grande empresa internacional de análise de mercados, ligada ao Crédit Lyonais, divulgou relatório em agosto recomendando a venda de posições na Copene, entendendo elevados demais os preços pagos pelos direitos de venda conjunta exercidos no contexto do leilão, além de considerar em estágio inicial a consolidação da companhia.

Depois de ter desistido do leilão, o grupo Ultra verificou forte valorização de suas ações em bolsa de valores, até porque iria distribuir dividendos alentados. “O mercado de gás liquefeito de petróleo (GLP) tem grande potencial de crescimento, mas sua exploração não inibe os investimentos petroquímicos do grupo, são áreas independentes”, salienta Wongtschowski. 

 
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