GARANTIA DA QUALIDADE ANIMA VENDAS


USO DE BIOCIDAS AUMENTA PARA PREVENIR O ATAQUE  MICROBIOLÓGICO A DIVERSOS PRODUTOS. CONJUNTURA FAVORECE O USO DE BLENDS EM VEZ DO LANÇAMENTO DE NOVAS MOLÉCULAS

MARCELO FAIRBANKS

A demanda por biocidas segue firme, alimentada pela preocupação crescente das indústrias em garantir a qualidade de seus produtos. Além disso, a queda dos preços internacionais de muitos princípios ativos com poder microbicida incentiva a incrementar as fórmulas, oferecendo maior espectro de proteção e maior durabilidade do tratamento. 

A maior procura pelos biocidas também apresenta justificativa indireta. Alguns setores industriais, como o de tintas, alteraram radicalmente sua composição química, principalmente ao adotar emulsões ou dispersões aquosas em substituição aos antigos sistemas com base em solventes orgânicos. Em outros casos, como nos produtos de higiene e beleza pessoal, a palavra de ordem foi substituir ingredientes sintéticos pelos de origem natural, derivados de óleos vegetais e gorduras animais. Em ambas as situações houve favorecimento da multiplicação de microorganismos diversos, além de, muitas vezes, introduzir contaminações elevadas nas formulações.

Diversos são os resultados da proliferação microbiológica nesses sistemas de natureza orgânica. No aspecto físico, a mais evidente alteração é a desestabilização das emulsões, com a separação visual das fases. Freqüentemente observa-se variação de cor, situação indesejável nas tintas, por exemplo. Na composição química, a liberação de enzimas pelos micróbios provoca o fracionamento de cadeias poliméricas, gerando moléculas curtas, de mais fácil digestão ou assimilação pelas colônias. O resultado final é a liberação de gases, como o CO2, além dos fétidos sulfurosos. Lotes contaminados precisam ser descartados ou retrabalhados, elevando custos ou criando inconvenientes para os usuários finais.

País com a maior parte do território na região tropical, o Brasil apresenta indiscutíveis qualidades para a proliferação de microorganismos, exigindo o uso intensivo de conservantes biocidas. Existem muitas aplicações praticamente inexploradas pelos formuladores, como as tintas para madeira ou mesmo as linhas para ambientes de alta umidade (banheiros, por exemplo), que só há poucos anos passou a contar com produtos específicos. Mesmo nos cosméticos, a fabricação local de artigos de qualidade superior só deslanchou a partir do Plano Real, em 1994.

Embora o potencial de demanda seja promissor, há dificuldades no caminho dos fornecedores de ingredientes ativos. A reestruturação mundial da indústria química, em curso há quase cinco anos, cindiu alguns dos maiores grupos do setor. A tendência foi a separação dos negócios das ciências da vida (linhas farmacêuticas, veterinárias, de biotecnologia e agroquímicos) das linhas da chamadas química básica tradicional. Os biocidas ficaram nesse grupo. “Antes contávamos com laboratório específico para a pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas para controle microbiológico, um custo inaceitável hoje em dia”, comentou um executivo de empresa internacional do ramo, situação confirmada por alguns de seus concorrentes. Ainda surgem novos produtos, em ritmo bem menos acelerado do que há cinco anos, e, em geral, são frutos de pequenas alterações químicas nas moléculas disponíveis. “Além do custo elevado de pesquisa é preciso computar também os caríssimos estudos para conseguir a aprovação do EPA e FDA, nos Estados Unidos, e até da Vigilância Sanitária brasileira”, comentou outro executivo. 

Ao mesmo tempo, várias moléculas sobejamente conhecidas e com patentes caducas continuam sendo eficientes em muitas aplicações. Como são fabricadas em vários lugares do mundo, seus preços estão em declínio, para alegria dos compradores e preocupação da indústria química. Afinal, sem contar com margens razoáveis, torna-se impossível investir em inovações e há forte incentivo para a reestruturação das atividades. “Pode ocorrer nova onda de fusões e aquisições nos próximos anos”, comentou Dora Alice F. Campos, diretora da área de proteção e higiene da Avecia (ex-Zeneca, ex-ICI). 

Cuca Jorge

Dora Alice: mercado atual pede blends eficientes com baixo custo


Atualmente já acontecem acordos entre fornecedores para somar princípios ativos de modo a obstar iniciativas de concorrentes. “A tendência atual é o desenvolvimento de blends mais eficientes e econômicos, em vez lançar moléculas multifuncionais”, avaliou.

Cuca Jorge A mesma opinião tem o gerente regional de vendas de químicos funcionais da Clariant, Dimas Carlos de Campos. “A tendência é inovar nos blends, como forma de prestar serviço aos cientes, incluindo o controle microbiológico em todas as etapas do processo e até dos produtos finais nos pontos de venda”, comentou. 
Campos espera crescer nas tintas com pacote amplo de insumos

Com a aquisição, em 1999, do grupo BTP, controlador da Nipa, tradicional fornecedor mundial de parabenos (ésteres do ácido p-hidroxibenzóico), a Clariant consolidou posição estratégica favorável, atuando em todas as áreas industriais. 

“Já tínhamos atuação ampla na área de surfactantes, que nos permite abrir mercados em muitos negócios.” Os parabenos são muito usados na indústria cosmética, sob as denominações de Nipagin e Nipasol. A linha anterior da Clariant enfatizava as aminas quaternárias, área na qual conta com acordo mundial de cooperação com a Lonza, esta mais forte no campo dos domissanitários.

Ele ressaltou que a formulação de blends apresenta complexidade, a ponto de alguns países, como os Estados Unidos, oferecerem aos produtores proteção contra cópias desautorizadas. “Os países desenvolvidos também protegem seus mercados internos, nos quais praticam preços mais elevados”, afirmou.
Também por força do portfólio e do histórico de atuação, a Clariant pretende reforçar sua atuação em biocidas para tintas. “Temos condições de formar pacotes completos de aditivos para essa indústria”, comentou Campos. Trata-se de mercado que, segundo o gerente, não quer usar mais o formol como conservante, até pelo fato de se tratar de empresas globais, nas quais se exige o atendimento das normas mais rigorosas do mundo em saúde ocupacional e meio-ambiente.

A área de tintas já não é a mais interessante para a Avecia. “Esse mercado não absorve produtos de maior valor, que constituem o foco de nossas atividades”, informou Dora Alice. Na sua análise, desde 1994 o mercado de tintas, em especial as imobiliárias, cresceu na direção das linhas mais populares, obrigando os fabricantes a reduzir custos e reorganizar atividades, pressionando os fornecedores de insumos a reduzir preços. “Embora os biocidas pouco representem no preço final das tintas, a opção por linhas menos sofisticadas prevaleceu”, considerou. 

Ela reconhece a evolução empreendida pelos fabricantes nacionais de tintas, que deixaram de lado os produtos à base de mercúrio, substituindo-os pelos liberadores de formol e, mais recentemente, pelas isotiazolonas. Nesse grupo, a Avecia atua mais com a moderna benzisotiazolona do que com a clorometilistotiazolona, já considerada uma commodity. “Embora sejam mais tóxicas, com uso limitado a 15 ppm na Europa, e menos estáveis em pH acima de 7, as clorometil são as mais consumidas no ramo de tintas, principalmente em misturas com outros ativos”, explicou a diretora. Denominados CMT, esses biocidas são fabricados em muitos países, inclusive na Índia e China, apresentando preços reduzidos.

“A Europa está criando uma regulamentação harmônica para todos os países da comunidade, com grande possibilidade de instituir limites estreitos tanto das CMT quanto das benzisotiazolonas”, comentou Otto Rohr, diretor-presidente da Miracema-Nuodex, empresa nacional líder de vendas de aditivos biocidas para tintas. No entanto, ele considera que essas restrições de uso refletem exageros por parte dos órgãos reguladores. 

Marcelo Fairbanks

Rohr: serviço completo diferencia os fornecedores de biocidas

“Tentaram banir o formaldeído, mas só colocaram um limite de concentração que não pode ser superior a 5 ppm no local de trabalho”, comentou. “Nas medições feitas, o teor de formaldeído nunca passou de 3 ppm, dois cigarros acesos criam mais problema que isso”, afirmou.

A Miracema-Nuodex vende o Bodoxin, biocida que combina propriedades das metilcloroisotiazolonas com hemiacetais estabilizados. Segundo informou, as primeiras atacam a parede celular das bactérias, tornando inviável sua sobrevivência. Já os hemiacetais são liberadores de formol, estáveis na faixa de pH de 4 a 10. “O núcleo protéico das bactérias tem pH 2, que desestabiliza os hemiacetais, liberando formol que destrói essas proteínas, impossibilitando sua multipicação posterior”, explicou Rohr. Como reage com a proteína do núcleo, o formol não é liberado para o ambiente. O Bodoxin é um dos mais antigos produtos da Bode Chemie (Hamburgo, Alemanha), representada no Brasil pela Miracema-Nuodex desde 1980. “Esse produto é o responsável pela nossa grande participação no mercado de tintas”, admite Rohr. Sua empresa vendeu 1,2 mil t de biocidas em 2000 para todos os setores de aplicação. O Bodoxin e suas variações responderam pela metade dessa quantidade.

Também para controle da proliferação de bactérias nas latas de tintas, a Ipiranga Comercial Química distribui o Bioban CT (nitroidroximetilpropanodiol), fabricado pela Dow. “O Bioban amplia o espectro biológico controlado e reduz a dose de aplicação das caras isotiazolonas”, explicou Nixon Cláudio Sakazaki, assessor de desenvolvimento de produtos da ICQ. As isotiazolonas são eficientes e de alto poder residual, mas requerem um período de tempo para iniciarem a atuação antibacteriana, enquanto o Bioban funciona imediatamente, embora por pouco tempo. “O aditivo é compatível com todas as resinas usadas nas formulações imobiliárias de base aquosa e também em algumas linhas industriais”, comentou. A demanda por esse biocida permanece estável, alimentada pelas fórmulas de tintas mundiais, nas quais o Bioban já vem especificado do exterior.

Como os princípios ativos são conhecidos por todos e possuem vários fornecedores mundiais, a concorrência se dá no desenvolvimento de formulações mais eficientes e menos custosas, aliado a serviço técnico complementar de qualidade. “Praticamente todos os fornecedores internacionais de biocidas já estão atuando no Brasil, mas nem todos contam com laboratórios microbiológicos no País”, disse Otto Rhor, cuja empresa investiu US$ 250 mil no ano passado em dois novos laboratórios próprios.

A necessidade de contar com equipe e estrutura para análise do problema do cliente, desenvolvimento da formulação biocida mais adequada e também responder pelo controle microbiológico do processo e dos produtos finais é confirmada pelos entrevistados. A justificativa reside nos planos de reengenharia empreendidos nos últimos anos, que vitimou as áreas de serviços de apoio aos processos produtivos. Hoje, os fornecedores respondem por essas atividades, remunerando-as pelo valor de venda das formulações.

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