Críticas – Um dos motivos que levam as associações a caminharem em direção ao chamado pelos americanos de MSV (management system verification) é dar uma resposta aos críticos do programa. Ser auto-avaliado normalmente tem sido visto como uma ação cabotina. Foi para responder a terceiros também que a mesma associação norte-americana passou a estudar a adoção de um certificado do Responsible Care (o nome original), nos moldes do conferido pela norma ISO 14001. 

Mais especificamente, a iniciativa da certificação americana se deve a uma reivindicação da indústria automotiva daquele país, que cogitou exigir o certificado ambiental da ISO de seus fornecedores químicos. Por estar envolvida com o Responsible Care já há treze anos, a ACC pretende atender essa demanda de clientes por meio de um certificado do programa, sem precisar assim recorrer a um outro sistema de gestão.

Mesmo que o Brasil ainda esteja numa etapa anterior à americana, elaborando a verificação externa já em prática nos EUA, atitudes de melhoria podem amenizar as críticas e compensar algumas atitudes recentes não muito simpáticas. A principal delas ocorreu em abril numa reunião internacional do Responsible Care. Por pressão da ACC, os sindicatos de trabalhadores, representados internacionalmente pela federação dos sindicatos (ICEM), foram impedidos de assinar um acordo global para participar do programa. Isso teve efeito também no Brasil, onde a CNQ/CUT pretendia se fazer presente nos chamados conselhos comunitários.

No Brasil, segundo afirma o assessor do CNQ, Nilton Freitas, a resolução internacional, provocada pelos americanos, foi um banho de “ducha fria”. Colocados de escanteio pela Abiquim, os sindicatos só conseguiram espaço no Atuação Responsável em iniciativas isoladas, como uma da Basf, que permitiu a participacão de sindicalistas em conselhos do programa em Camaçari-BA e Guaratinguetá-SP. 

Cuca Jorge

Freitas: banho de ducha fria em sindicalistas

“Isso demonstra que nem tudo está perdido, visto que a empresa teve coragem de nos convidar, de forma experimental e a contragosto do resto da indústria”, observa Freitas.

Cuca Jorge Afora esses problemas, outra constante no trabalho da Abiquim tem sido conscientizar as pequenas e médias indústrias signatárias sobre a importância do Atuação Responsável. “Para essas empresas, o programa representa um custo a mais e isso inibe um pouco a adoção das práticas”, diz o coordenador Heinz Mayer, também presidente do conselho de administração da Basf. Embora as grandes empresas estejam em um nível bastante avançado, sendo que 25 delas nos últimos graus (5 e 6) do sistema, há casos de pequenas ainda no nível mais baixo possível, sem nada implantado, e sem nunca ter enviado à Abiquim seus índices de auto-avaliação.
Mayer: princípios éticos devem ser revisados

A dura realidade das empresas menores, que desde 1998 são obrigadas como associadas da Abiquim a ser signatárias, poderia de certa forma abalar a imagem do programa caso uma delas provocasse, por exemplo, um grave acidente. Mas, para Heinz Mayer, não é o caso. “Um hipotético acidente de uma dessas indústrias não deve ferir a credibilidade específica do Atuação Responsável, não muito conhecido para os leigos, mas de todo o setor químico”, diz. Talvez esteja aí a razão de fazer o programa ser levado mais a sério pelas empresas de menor porte.

ASSOCIQUIM INICIA PROCESSO DE DISTRIBUIÇÃO RESPONSÁVEL

O emprego do Atuação Responsável pela indústria química tem provocado um efeito cascata em outros setores correlatos. Mais recentemente, o de tintas, por meio da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), anunciou que em seu próximo congresso, em setembro, iniciará as discussões para a introdução no Brasil do Coating Care, um programa adotado pela indústria americana nos moldes do Responsible Care. Deve ser traduzido para “Responsabilidade em Tintas”.

Mas a iniciativa mais madura, sem dúvida, é a da Associação Brasileira do Comércio de Produtos Químicos (Associquim). Em 31 de maio, numa assembléia com todos seus 105 associados, a Associquim aprovou, depois de um ano de elaboração, o Processo de Distribuição Responsável (Prodir), uma versão brasileira do Responsible Distribution Process, da associação norte-americana de distribuição química (NACD).

Ao contrário do Atuação Responsável, o Prodir não será obrigatório aos associados. Para Glória Benazzi, assessora de logística e meio ambiente da Associquim e responsável pelo programa, essa escolha tem uma explicação: “O próprio mercado, com o tempo, vai obrigar as empresas a se adequarem às práticas do Prodir”, afirma Glória. Para ela, essa exigência deverá se tornar uma forma de a indústria qualificar suas distribuidoras.

A coordenadora acredita que a postura de adesão ao Prodir como forma de qualificação será melhor para ambas as partes. 

Cuca Jorge

Glória: mercado vai obrigar a adoção

Tanto as distribuidoras não precisarão ser constantemente auditadas por funcionários de várias indústrias, das quais distribuem seus produtos, como estas também não terão de realizar tantas vistorias. “Se a empresa tiver o Prodir, do qual pretendemos gerar um certificado, significa que ela está permantemente sendo auditada”, diz. 

O programa da Associquim foi traduzido do similar americano e terá o mesmo número de códigos (9) e de práticas (34), contando ainda com um guia de implantação. As associadas devem confirmar sua adesão até 15 de dezembro, tendo a partir desta data 30 meses para implantar e implementar os códigos. A cada semestre, precisarão enviar à Associquim uma auto-avaliação do programa. No final desse período, devem passar por uma avaliação externa, provavelmente executada por uma auditoria independente. Está previsto também o descredenciamento do Prodir de empresas reprovadas nessas verificações.

Para Glória Benazzi, a recepção da indústria tem sido a melhor possível. Nem mesmo o fato de o Atuação Responsável ter como signatários-parceiros cerca de 17 empresas do ramo da distribuição e de transportes abala o relacionamento entre os dois setores. Segundo ela, faz parte do comitê-gestor do Prodir várias indústrias (por serem também distribuidoras) participantes do Atuação Responsável, como Clariant, Peróxidos e Ipiranga. “As empresas parceiras foram obrigadas por seus clientes a adotar o programa da Abiquim, mas a tendência é isso não passar mais a ocorrer em razão do Prodir”, diz. 

OS PRINCÍPIOS DIRETIVOS DO PROCESSO DE DISTRIBUIÇÃO RESPONSÁVEL

- Estender a todas as pessoas que tenham envolvimento direto ou indireto com a saúde, segurança e meio ambiente da empresa. 
- Treinamento de todos os envolvidos nas atividades da empresa.
- Reconhecer e responder às dúvidas da comunidade relativas a produtos químicos, seu manuseio e transporte.
- Informar órgãos oficiais, funcionários e a sociedade quanto às informações fornecidas pelos fabricantes relacionadas aos riscos à sáude e ao meio ambiente dos produtos químicos e as medidas de proteção adequadas.
- Trabalhar com clientes, em concordância com as recomendações dos fabricantes relativas à pós-venda do produto, incluindo manuseio, uso, transporte e disposição final de produtos químicos.
- Operar as instalações de forma a proteger a saúde e a segurança dos funcionários, da sociedade e do meio ambiente.
- Colaborar na solução de problemas decorrentes de manuseio e disposição de produtos químicos perigosos ocorridos no passado.
- Promover os princípios e práticas do Processo de Distribuição Responsável pela troca de experiências, ou proporcionando assistência a outras empresas que produzam, manuseiam, usam, transportam ou descartam produtos químicos.
- Promover troca de experiência com entidades congêneres e órgãos governamentais de modo a aprimorar e divulgar junto à comunidade as normas de segurança a serem seguidas na distribuição de produtos químicos.


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