Estratégico – Embora o tema “sustentabilidade empresarial” tenda a parecer um efeito de linguagem com intenções marqueteiras, seus fundamentos têm sido abordados de forma mais séria, sobretudo por grandes empresas. 

Modelo de desenvolvimento empresarial que procura colocar em equilíbrio os aspectos econômico, social e ambiental, a sustentabilidade, na verdade, pode servir como eficiente princípio estratégico. 
A central petroquímica gaúcha Copesul, por exemplo, tem a expressão “desenvolvimento sustentável” em alta conta. “’Mais do que jogo de cena, trata-se do nosso objetivo estratégico”, afirma sua executiva da unidade de segurança, saúde e meio ambiente, Carla Rangel. Embora ainda não seja contemplado no Atuação Responsável, do qual a central tornou-se signatária a partir de 1992, o tema é a base do sistema de gestão integrado da empresa, que engloba também as práticas de suas certificações (ISO 14001, ISO 9002 e a breve OHSAS 18002, de segurança). 
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Carla: sustentabilidade é estratégia da Copesul

Para Carla, o tripé financeiro-social-ambiental deve estar sempre harmonizado. “Não adianta lucrar muito e ao mesmo tempo poluir ou deixar de lado os colaboradores e vizinhos; a longo prazo, a imagem da empresa pode se desgastar e, conseqüentemente, o valor das suas ações”, diz Carla. “Isso sem falar na queda de motivação e produtividade dos colaboradores, na animosidade da comunidade, nas multas, entre outros efeitos negativos.”

Para manter esse equilíbrio, o inverso também é verdadeiro. “Não podemos tornar a empresa uma instituição de caridade ou uma ONG ambientalista, em detrimento dos lucros”, continua a executiva da Copesul. Essa posição aparentemente contida da central, porém, significou em ações comunitárias, em 2000, um total investido de R$ 3,3 milhões, dividido entre projetos sociais, culturais, ambientais e eventos esportivos.

Um destaque nesse montante foi a doação de R$ 1 milhão para a construção de um hospital de transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre-RS, a ser inaugurado em outubro. Vale ressaltar ainda o projeto Nossas Escolas, que visa dar apoio financeiro e de mão-de-obra voluntária em infra-estrutura e educação ambiental para escolas da região do pólo, em cidades como Montenegro e Triunfo. “Além de reformarmos banheiros, muros e salas de aula, também preparamos cursos de informática e educação ambiental nas escolas”, orgulha-se Carla.

A participação comunitária da Copesul, já há três anos documentada em um balanço social bastante detalhado em relatos e números, também servirá de base para sugestões da central na proposta de modificação do Atuação Responsável. Isso principalmente ao se levar em consideração a opinião da executiva da área, que participa ativamente do programa da Abiquim. Segundo ela, há dois tópicos primordiais para serem objetos de reflexão nos próximos anos. Um deles, logicamente, é a responsabilidade social, que deve ser implementada de forma efetiva nos códigos e princípios. O outro é a questão ambiental. “O código de proteção ambiental enfatiza muito a reciclagem de resíduos, mas hoje em dia temos que partir para a prevenção, com a adoção de tecnologias limpas”, lembra Carla Rangel.

No aspecto responsabilidade social, a executiva não tem a menor dúvida da importância. Como argumento, chama a atenção para a última reunião do World Business Council, realizada no Brasil sob a coordenação do Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (Cebds). Segundo ela, nesse encontro internacional os participantes ficaram impressionados com os cases brasileiros de projetos sociais promovidos por empresas. E chegaram a uma conclusão: a ineficiência governamental de países pobres como o Brasil torna a iniciativa privada muitas vezes uma espécie de governo paralelo. “Temos que assumir essa responsabilidade”, diz.

Cuca Jorge Gestão ajuda – Da mesma forma que sua controlada Copesul, a OPP (é sócia meio a meio com a Ipiranga na central gaúcha) também está atenta à responsabilidade social. E, ainda de maneira similar à Copesul, o braço petroquímico da Odebrecht se fundou em seu sistema de gestão integrada de qualidade, saúde, segurança e meio ambiente para se preocupar com a questão.
Soto: gestão integrada engloba responsabilidade social

 Na verdade, segundo explica Jorge Soto, gerente geral dessas áreas na OPP, antes mesmo do sistema integrado, criado em 1997, a empresa já tinha esse propósito como um de seus fundamentos éticos.

Esse fundamento, segundo Soto, pode ser encontrado nos princípios da chamada Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), uma espécie de “lei sagrada” criada pelo fundador do grupo, Norberto Odebrecht. “Um dos conceitos, por exemplo, prega que a satisfação do cliente deve ter como pano de fundo a responsabilidade comunitária e ambiental, o que em outras palavras significa desenvolvimento sustentável”, declara o gerente. O TEO, além de enfeitar as paredes da OPP pendurado em quadros, serviu como base para o sistema de gerenciamento integrado (SGI), que abrange as práticas das normas ISO, OHSAS e, logicamente, o Atuação Responsável.

Para Jorge Soto, o SGI possibilitou ao grupo se antecipar de forma organizada aos objetivos próximos do Atuação Responsável de incorporar práticas assistencialistas. “Entre os objetivos do SGI está a melhoria contínua da saúde e segurança também dos vizinhos e o reconhecimento da sociedade de nossos trabalhos”, diz. “O Atuação Responsável é apenas uma das nossas ferramentas de gestão, portanto ele ter ou não práticas de responsabilidade social para nós não faz diferença.” Implantando de forma peculiar, segundo Soto, até 2002 todos os códigos do programa da Abiquim estarão adotados na OPP.

Os projetos comunitários da OPP estão muito envolvidos com a questão ambiental. Um bem famoso é a Operação Praia Limpa, para o qual a empresa já distribuiu mais de 38 milhões de sacolas plásticas, além de 3.640 papeleiras e contêineres para coleta de lixo em praias de São Paulo, Bahia, Alagoas e Rio Grande do Sul. Há também a promoção de vários cursos ambientais em escolas, de organização de programas de coleta seletiva e distribuição de hipoclorito de sódio para desinfecção de água em comunidades carentes, vizinhas às unidades da OPP. Vale destacar também a manutenção de cooperativas de reciclagem de materiais no RS, BA e AL e o fato de 25% dos funcionários do grupo participarem de trabalhos voluntários.

Muito por fazer – Algumas outras empresas, talvez por se basearem muito especificamente nos códigos do Atuação Responsável, não estão muito adiantadas na responsabilidade social. A Akzo Nobel, por exemplo, bastante adiantada na implantação do programa, encontra algumas dificuldades para ao menos colocar em prática o código mais próximo da questão, o de diálogo com a comunidade, preparação e atendimento a emergências. Uma das práticas recomendadas, a de preparar a vizinhança para acidentes, encontrou um inusitado empecilho: na região em que a fábrica está instalada, Itupeva-SP, não há defesa civil. A solução para a Akzo Nobel foi começar a formar uma entidade dessas com duas associações de bairro.

Outra grande empresa, a Rohm and Haas, também está imatura na implementação das práticas desse código. De acordo com o diretor industrial da unidade de Jacareí-SP, Antonio Pizzigatti, trata-se das práticas com menor grau de implementação de todos do Atuação Responsável: cerca de 30% apenas, contra uma média que vai de 75% do código de gerenciamento de produto a 100% no de saúde do trabalhador. “O trabalho mais substancial que temos feito limita-se a visitas a escolas e vice-versa, ou seja, de vez em quando recebemos crianças para conhecer o dia-a-dia da fábrica”, afirma.

Mas Pizzigatti, como coordenador do programa na Rohm and Haas, promete dar atenção especial ao tema. A idéia é criar um conselho comunitário, com membros da sociedade, nos moldes dos existentes em Santo André-SP, Guaratinguetá-SP ou em Camaçari-BA. “Ouvir constantemente pessoas de fora tornará o diálogo mais produtivo”, constata Pizzigatti.

Porém, não se deve deixar de notar que o desenvolvimento sustentável também compreende a preocupação com os colaboradores, ou seja, com os próprios funcionários. E, nesse ponto de vista, Pizzigatti considera a Rohm and Haas adiantada. Para provar, lembra que em 1997 e 2000 a empresa registrou zero acidente com afastamento e em 1998 e 1999 apenas quatro com afastamento. Estes últimos, segundo ele, na verdade foram apenas atendimentos de primeiros socorros, sem muita gravidade. Outros indicadores positivos, e indiretamente ligados à responsabilidade social, dizem respeito ao fato de a empresa não ter recebido nenhum auto de infração de transporte de produtos perigosos e não-perigosos e ter reduzido incidentes nessa área (três em 1998, dois em 1999 e nenhum em 2000).

Outros desafios – Embora haja muito a fazer em responsabilidade social, este não é o único plano da Abiquim para melhorar o programa. O aspecto ambiental, principalmente, urge algumas alterações. Não apenas na maior ênfase ao uso de tecnologia limpa, em detrimento da tendência do programa em destacar a reciclagem de resíduos, mas também na inclusão de um assunto hoje em dia muito pertinente: o uso racional de energia. “Na época em que o código de proteção ambiental foi feito no Brasil, isso não era tão relevante como agora”, afirma Marcelo Kós, da Abiquim. Aliás, a questão energética, para ele, pode ser incluída ainda em outros códigos: no de gerenciamento de produto e no de diálogo com a comunidade.

Uma outra melhoria prestes a acontecer é o chamado processo de verificação de progresso. Trata-se das auditorias feitas por terceiros, que já ocorre em vários países e cujo objetivo é dar maior credibilidade ao programa. Até o momento, há apenas sistemas de auto-avaliação. Só algumas companhias, como a Copesul e a OPP, submeteram espontaneamente a grupos de outras empresas vizinhas a avaliação de alguns de seus códigos e práticas. 

A primeira etapa do projeto de verificação externa ocorrerá de forma piloto neste ano, baseando-se em avaliações similares da associação norte-americana da indústria química (ACC). Empresas voluntárias, como Akzo Nobel, Basf e DuPont, já se candidataram a inaugurar o novo processo. Caso uma análise posterior de um conselho da Abiquim constate sua eficácia, o plano é expandir a verificação, a princípio voluntária, aos outros signatários. De acordo com Marcelo Kós, para a verificação serão formados grupos de cerca de seis pessoas, da comunidade e de outras empresas. Depois de apresentados e aprovados pela empresa auditada (que arcará com todas as despesas), eles passarão dois dias fazendo a auditoria dos códigos na fábrica.

Por ser ainda experiência piloto, alguns detalhes não estão definidos. No modo americano de avaliação, por exemplo, para coordenar a auditoria há um grupo profissional, de uma empresa terceirizada especialmente formada para coordenar a auditoria. O comitê de auditores conta ainda com membros da comunidade e de outras indústrias. No Brasil, não há planos de formar uma empresa similar, mas talvez a Abiquim treine alguém ou uma auditoria profissional para cumprir esse papel de coordenação. “Após o congresso, já devemos ter definida a metodologia”, diz Kós.


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