ATUAÇÃO RESPONSÁVEL QUER INDÚSTRIA MAIS SOLIDÁRIA

O sistema de gestão de saúde, segurança e meio ambiente, coordenado no Brasil pela Abiquim, vai incluir em seus códigos práticas voltadas de forma específica para a implantação e o apoio a projetos sociais na vizinhança das fábricas

MARCELO FURTADO

Nas vésperas de comemorar dez anos de implementação no Brasil, o programa Atuação Responsável, lançado em 1992 pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), tem um novo desafio pela frente. A partir deste ano a meta dos coordenadores do sistema de gestão de saúde, segurança e meio ambiente é discutir formas de tornar seus cerca de 130 signatários mais comprometidos com a comunidade. De forma objetiva, isso significa incentivar a participação dessas indústrias em projetos sociais da vizinhança, tanto no aspecto organizacional, como até mesmo financiando obras ou outras iniciativas espontâneas da sociedade.

O marco da nova postura da Abiquim será o 5º congresso do Atuação Responsável, marcado para 21 a 23 de agosto, em Guarulhos-SP, e com o tema central de “Sustentabilidade Empresarial”. No próximo encontro anual, no qual as associadas farão um retrospecto do programa e apontarão as próximas diretrizes a ser seguidas, a idéia é colocar como objetivo para 2002 a inclusão de novas práticas e princípios fundados na chamada responsabilidade social.

“Já está praticamente certo de que em 2002 teremos reformulado nossos 12 princípios éticos diretivos [ver QD-382, pág. 9], sob o manto das questões sociais”, afirma o coordenador da comissão de Atuação Responsável da Abiquim, Heinz Mayer. Outra hipótese levada em consideração seria incluir práticas específicas em um dos códigos do programa, mais provavelmente o de diálogo com a comunidade. Com essas atitudes, para Mayer, a Abiquim não só segue uma tendência mundial, visto que países como Canadá já reformularam seus princípios diretivos, como atende a uma demanda interna, levando-se em conta os vários projetos sociais atualmente desenvolvidos por muitos signatários nacionais.

Embora as companhias européias, e em menor grau as americanas, tenham políticas assistencialistas bem definidas, no Brasil essa questão ganha importância diretamente proporcional às carências locais. “Quando a empresa começa a dialogar com a vizinhança, problemas como falta de moradia adequada, de saúde, educação e desemprego fazem parte freqüente das preocupações”, lembra o gerente técnico da Abiquim, Marcelo Kós. “Se a indústria química quer de fato adotar uma política de boa vizinhança e melhorar sua imagem, objetivos centrais do Atuação Responsável, ela precisa obrigatoriamente no Brasil ter uma postura engajada.”

Cuca Jorge

Kós: empresas nacionais precisam ser engajadas

Fruto dessa consciência em maturação é saber que as modificações no Atuação Responsável devem ser guiadas por experiências já em andamento, sobretudo por grandes grupos associados ao programa. Empresas como Bayer, DuPont, Basf e OPP desenvolvem projetos sociais no Brasil há algum tempo. “Assim como as práticas de saúde, segurança e meio ambiente do Atuação em boa parte foram criadas a partir de sugestões desse tipo de empresa, pensamos em fazer o mesmo no novo quesito”, afirma Kós.



Não é filantropia – Um bom exemplo de companhia engajada em obras sociais é a Bayer. Em sua principal unidade produtiva, em Belford Roxo-RJ, na Baixada Fluminense, uma das regiões mais violentas e carentes do País, a empresa desde 1993 tenta colocar em prática o conceito de responsabilidade social. Hoje o grupo financia a fundo perdido cerca de US$ 250 mil por ano em várias frentes de trabalho e em cooperação com uma federação de 120 associações de bairro da cidade carioca. 

“Nosso trabalho não é filantropia, mas sim um modo de responsabilizar a comunidade por ações que nós, como grupo estruturado, podemos ajudar a acontecer”, diz Diomedes Ferreira Junior, chefe de comunicação social e coordenador da responsabilidade social na Bayer. Para exemplificar, Ferreira cita o projeto minifábricas, iniciado em 1995. Trata-se de uma espécie de linha de financiamento que a Bayer coloca à disposição das associações de bairro para o desenvolvimento de fabriquetas na redondeza.

Dessas minifábricas, já operam uma serralheria de portas e janelas, uma fábrica de chinelos, uma vassouraria, várias escolinhas de informática, além de uma fábrica de instrumentos musicais e de fantasias de carnaval a partir de garrafas PET. 

divulgação

Ferreira: obras sociais em Belford Roxo - RJ

“A associação nos encaminha o pedido, normalmente com a lista de equipamentos e máquinas necessárias, nós avaliamos a seriedade do negócio e, caso aprovado, financiamos”, explica Ferreira. Depois de iniciado o projeto, que passa a ser administrado apenas pela comunidade, a Bayer de vez em quando checa o desempenho da minifábrica. “Já houve casos em que precisamos repassar o negócio para outros interessados, visto que os anteriores não estavam trabalhando a contento.”

divulgação Além das minifábricas, a Bayer distribui diariamente 2.400 sopas (liofilizadas) em 46 escolas comunitárias de Belford Roxo, atendendo cerca de 3.600 crianças de até seis anos de idade. A empresa mantém ainda uma escolinha de futebol para 350 crianças, promove uma olimpíada infantil anual e um campeonato de futebol entre as associações de classe.
A Bayer distribui sopas em escolas

Há outras atividades relacionadas, como cursos de saúde e meio ambiente em escolas, distribuição de material didático e uma horta comunitária para crianças, com o ensino de técnicas básicas de cultivo.

Essas iniciativas da filial brasileira da Bayer têm chamado a atenção da matriz alemã. “A Alemanha quer usar nosso projeto como exemplo para outros países”, diz o chefe de comunicação. “Apesar de haver várias obras interessantes de outras afiliadas pelo mundo, a matriz reconheceu que nossa estratégia é mais abrangente, não se fixa apenas em um campo do assistencialismo.” Além de ter lhe valido alguns prêmios, a experiência da Bayer brasileira deve ser compartilhada nas discussões do Atuação Responsável na Abiquim. Diomedes Ferrreira acredita que vários projetos da empresa poderiam ser base para novas práticas do código de diálogo com a comunidade. Aliás, no próximo congresso, no dia 22 de agosto, ele apresentará um painel sobre a implantação de um conselho comunitário.

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