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COMÉRCIO SE ESFORÇA PARA COMPENSAR SALTOS DO DÓLAR

EMPRESAS DO SETOR INVESTEM PARA AMPLIAR LINHAS DE PRODUTOS E SERVIÇOS,
ALÉM DE INTENSIFICAR TRABALHOS LOGÍSTICOS DE MODO A RECUPERAR PERDAS PROVOCADAS
PELA VARIAÇÃO CAMBIAL E SATISFAZER CLIENTES
MARCELO FAIRBANKS
Dois pesadelos turbam o sono dos comerciantes de produtos químicos, atendendo pelos nomes de variação cambial e crise energética. Ambos podem comprometer os resultados de 2001, interrompendo um período de quase doze meses de relativa estabilidade econômica, com bons e lucrativos negócios. O período de bonança começou com a superação da crise cambial de 1999, provocando mudanças significativas na composição do mix de produtos mantidos pelos comerciantes, com a perda de participação de itens importados no total de vendas.
Entre os dois pesadelos, a crise de energia elétrica é a menos preocupante. “Não deverá ocorrer grande desequilíbrio, porque se um setor reduzir a atividade, os demais também devem ser afetados na mesma proporção”, afirmou Reinaldo Medrano, gerente comercial da Makeni Chemicals, embora ressalte a incerteza quanto aos efeitos futuros da crise. “Todos os nossos fornecedores de matérias-primas e também os nossos maiores clientes confirmaram o fornecimento de insumos e a programação de pedidos para os próximos meses”, informou Michel Mertens, vice-presidente de administração e finanças da Basf S.A. “Por enquanto não é possível definir aumento de custos provocados pela escassez de energia”, complementou Rolf-Dieter Acker, presidente da companhia.
“A Rhodia está preparada para superar a crise energética por meio de programas internos de economia e aumento da geração própria em algumas unidades”, disse Nilton Ribeira Perez, gerente de negócios da divisão de produtos para papel, pintura e materiais de construção (PPMC). Segundo relatou, os fornecedores da companhia já garantiram suprimento, consolidando o quadro de tranqüilidade de oferta. “Mas, os clientes continuarão comprando?”, perguntou. Pelos levantamentos de mercado da Rhodia, a área de papel revestido segue sem problemas, mas a indústria automobilística começou a dar soluços, embora tenha alcançado recentemente recordes de produção. Até o final de junho, os distribuidores confirmaram os pedidos, sem alterações. “Com o dólar a R$ 2,50 esperávamos uma catástrofe, mas já houve a acomodação das cotações, que ajudará a conter a pressão de alta já existente por causa do preço do petróleo”, comentou.
Segundo Perez, os repasses derivados da desvalorização do real não são feitos imediatamente, mas distribuídos em períodos relativamente longos. “Principalmente nesse caso, em que a subida do dólar foi especulativa e já se esperava uma baixa”, explicou.
Alguns produtos tendem a apresentar restrições de suprimento por causa da falta de eletricidade. É o caso da soda cáustica, oriunda de indústria de consumo intensivo de eletricidade, da qual o governo federal exigiu o corte de demanda de eletricidade da ordem de 25%. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Álcalis e Cloro Derivados (Abiclor), já em 2000 houve importação de soda para suprir a demanda interna. Com a restrição de consumo de eletricidade, essas importações devem ser ampliadas, a menos que alguns setores industriais também reduzam a sua atividade, a exemplo da produção de alumínio, que também deve cortar o consumo elétrico em 25% na região Sudeste e em 7% na região Norte. Os distribuidores de soda cáustica da Dow já foram avisados que a companhia garantirá o abastecimento nos volumes usualmente consumidos pelos seus clientes e distribuidores, ainda que seja preciso importar o produto de outros países, complementando a fabricação local, estabelecida no Distrito Industrial de Aratu, na Bahia.
Alguns produtos devem retomar as antigas práticas de contingenciamento de vendas, conhecidas como “política do cobertor curto”, cobrindo ou a cabeça, ou os pés. “Acreditamos que não faltará nenhum produto, mas alguns deles devem voltar ao regime de cotas durante o período de crise”, explicou o presidente da Associação Brasileira do Comércio de Produtos Químicos (Associquim) e do sindicato empresarial congênere, o Sincoquim, Rubens Medrano. Segundo informou, alguns produtores locais já começaram a alertar os seus distribuidores sobre cortes de fornecimento, exigindo do comércio estudar e planejar melhor suas vendas.
Do ponto de vista estrito das empresas de comércio, não será difícil cumprir a meta de redução de consumo de 20% estabelecida pelo governo federal. “O comércio não é um consumidor intensivo, a maior demanda está na iluminação, sistemas de conforto (ar condicionado) e, em alguns casos, no bombeamento de produtos”, explicou o dirigente setorial. Na Makeni, o consumo de eletricidade passou a ser monitorado e adotaram-se medidas de economia interna, que estabelecem o desligamento de aparelhos de ar condicionado e redução de iluminação em pontos que não comprometem a segurança operacional e a saúde ocupacional. “Estamos ligando nosso gerador todas as sextas-feiras, além de tornar mais racionais as operações de entamboramento de produtos”, explicou Reinaldo Medrano.
A Agroquímica Maringá adotou plano de redução voluntária de consumo, pelo qual um terço das suas lâmpadas foi desligado e o elevador de prédio administrativo fica parado. “Investimos em gerador próprio no ano passado, e o estamos ligando durante quatro horas por dois dias na semana”, comentou o seu diretor-presidente Jacques Mosseri. “Vamos alcançar a meta de 20%, com folga.”
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Também a Ipiranga Comercial Química (ICQ), maior distribuidora de produtos químicos do Brasil, cumprirá a meta de economia de energia, por meio de otimização de operações, exceto nos casos que afetem o quesito segurança. “O maior consumo está ligado à iluminação, portanto restringimos a operação noturna nas bases”, explicou o diretor de marketing Fernando Rafael Abrantes. A sede administrativa, em São Paulo, conta com gerador próprio, utilidade que está sendo providenciada para todas as bases. “Algumas delas já contam com geração elétrica de outras operações do grupo Ipiranga”, mencionou. |
Cuca Jorge |
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| Abrantes: impacto cambial foi maior que ameaça de
apação |
A ICQ pesquisou junto aos principais fornecedores e clientes os efeitos esperados da crise energética na oferta e demanda de produtos químicos. “Os grandes e médios fornecedores e clientes já equacionaram o problema e devem superar essa fase sem grandes dificuldades”, comentou Abrantes. Já os clientes de menor porte, em especial os pequenos transformadores de resinas plásticas, poderão apresentar problemas sérios.
“Nós temos gerador próprio, mas nem todos os clientes estão preparados para reduzir o consumo de energia sem cortar a produção”, teme o diretor de negócios da Bandeirante Química, Carlos Fernando de Abreu. Os pequenos e médios clientes adotaram práticas, como eliminação de um turno, que redundam em redução no consumo de insumos químicos. No campo dos produtos eletroeletrônicos a redução de demanda é grande. Nesse caso, o impacto se estende por outros setores, por exemplo, na indústria gráfica, que deixa de imprimir embalagens e manuais de operação.
Até os portais eletrônicos de negócios se previnem quanto a eventuais cortes de fornecimento de eletricidade. “Nosso sistema está hospedado na IBM, que conta com geradores e sistemas de no-break capazes de suportar o funcionamento pleno por até 30 dias, independente do fornecimento da rede elétrica”, comentou o diretor comercial do setor químico do Webb – Negócios On Line.
| Cuca Jorge |
Apagão cambial – Além da crise de eletricidade, Rubens Medrano salienta que a oferta de alguns itens também sofrerá restrições por causa da variação cambial. “A volatilidade elevada das cotações torna a importação uma operação de alto risco”, mencionou. Como exemplo, citou uma venda, em meados de abril, de produtos importados, faturada para 30 dias. Da data do pedido, que fixou o preço em reais pelo câmbio do dia, até o pagamento da fatura, o dólar pulou da faixa de R$ 2,10 para R$ 2,40. “Essa venda representou um prejuízo de quase 20%”, afirmou, salientando que as margens do setor não são suficientes para absorver essa variação.
“É difícil suportar uma variação de 20% em prazo tão curto”, comentou Eugen Atias, sócio-gerente da Atias Mihael, tradicional importadora de especialidades químicas. |
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| Medrano: importação se tornou operação de
alto risco |
Há várias formas de realizar operações de importação. Em cenário relativamente tranqüilo, como estava o Brasil no final do ano passado, tornou-se hábito usar as linhas de financiamento do vendedor internacional, que permitem prazos de pagamento de 180 dias, com juros baixos. “Depois da disparada do dólar, estamos pedindo mais prazo para esses fornecedores, que estão concordando, sem maiores dificuldades”, informou. A ampliação de prazo já foi feita antes, na crise cambial de 1999.
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