TUBOS E CONEXÕES
INDÚSTRIA VOLTA ÀS COMPRAS

DEMANDA AQUECIDA FAZ ESQUECER UMA DÉCADA DE ESTAGNAÇÃO E EXIGE MUDANÇAS PARA ENFRENTAR A MAIOR OFERTA DE MATERIAIS ALTERNATIVOS E CONCORRENTES GLOBAIS

MARCELO FAIRBANKS

O mercado brasileiro de tubos projeta aumento de vendas para este ano e seguintes, decorrência direta de investimentos em setores diversos, desde saneamento básico até petroquímica, passando pelo florescente ramo de celulose e papel. O bom momento contrasta com o período entre 1985 e 1995, quando houve redução drástica dos pedidos e redução de atividade setorial, provocando movimentos de fusão e o fechamento de empresas menos rentáveis.

É possível afirmar, com certeza, que os fabricantes nacionais de tubos tornaram-se mais eficientes e competitivos em escala mundial. Apesar disso, importações diretas com origem na Ásia, somadas ao ingresso de tubos no mercado dentro de equipamentos comprados em regime de turn key ou build-operate-transfer (BOT) – a exemplo de caldeiras e trocadores de calor – causam preocupação no setor.
Cuca Jorge
Soldador completa costura longitudinal em tubo de aço de carbono

Além da briga com concorrentes estrangeiros, agravada pela obesa tributação brasileira, o setor evidencia de forma ímpar o processo de substituição de materiais construtivos, orientado pela busca das melhores alternativas técnicas e econômicas para lidar com a condução de fluxos. Nesse ponto os materiais sintéticos revelam fôlego para ocupar espaços não só em aplicações singelas, como a condução de esgotos em regime de baixa pressão, mas também nas linhas de produtos altamente corrosivos, desbancando as caras e tormentosas ligas especiais. Até mesmo os tubos de vidro revelam-se imbatíveis em nichos de mercado como a síntese de fármacos de alta pureza.

Aço em transformação – A evolução do mercado de tubos de aço no Brasil supera o desempenho do PIB, mas fica abaixo do PIB industrial por causa da importação de equipamentos, segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Tubos e Acessórios de Metal (Abitam), José Adolfo Siqueira. Ele criticou o programa Repetro, criado para estimular investimentos de empresas estrangeiras e da Petrobrás para a exploração de petróleo em alto mar (off shore). Pelo Repetro, os investidores podem importar equipamentos sem recolher os impostos de importação, de produtos industrializados (IPI) e de circulação de mercadorias (ICMS). 

Para compensar a vantagem tributária dessas importações, o governo criou o mecanismo de exportação ficta, pela qual os fabricantes nacionais venderiam equipamentos e serviços para as plataformas instaladas no Brasil, usando um regime igual ao da exportação. “Isso não está funcionando porque alguns governadores não aceitaram a eliminação do ICMS e impediram o benefício”, comentou Siqueira. “Vai ser difícil trabalhar com as petroleiras.”

Além dos tributos excessivos, ele mencionou a dificuldade de relacionamento com os potenciais compradores estrangeiros, agravada pelo baixo índice de nacionalização exigido oficialmente, por volta de 20% do valor total, cumprido quase exclusivamente com serviços. “Nessas condições, tirar o imposto de importação é muito prejudicial aos fabricantes locais, até pior que a Alca, pois esta ainda permite alguma proteção local”, afirmou.

Na opinião do dirigente, o Repetro seria excelente se contemplasse os produtos de uso realmente temporário, como plataformas de perfuração. “Admitir que um equipamento que fique funcionando por mais de 20 anos seja uma importação temporária é demais”, disse. A situação ainda pode piorar, pois os acordos permitem a importação favorecida também de componentes e peças adicionais. Siqueira ressalta que os tubos rígidos não foram incluídos no Repetro, mantendo negócios. Mas, no campo dos flexíveis a perda de mercado foi notável.

Tirando a desvantagem tributária, a Abitam considera os tubos de aço brasileiro competitivos inclusive em âmbito internacional. “O preço do aço está compatível com o do mercado externo, apesar dos reajustes que foram feitos”, considerou. “Só não dá para comparar com o preço do aço de alguns países do Leste Europeu”, afirmou.

Enquanto trabalha com preços realistas, o setor pretende aprimorar o requisito qualidade. “A Abitam está desenvolvendo ações para estimular a qualidade dos tubos nacionais”, comentou o diretor-executivo. Essas ações começaram com a exigência de os fabricantes de tubos de aço imprimirem seu nome e identificação do produto nas paredes externas dos tubos. Além disso, os associados estão em processo de certificação de sistemas produtivos e de produtos nos requisitos da ABNT. 

Além das exigências técnicas, a associação se uniu às usinas siderúrgicas para desenvolver um programa de marketing junto aos escritórios de engenharia, projetistas e designers, com o intuito de divulgar as vantagens do uso do aço em várias situações. Além da condução de fluidos, existem aplicações estruturais e decorativas que representam interessante fatia de mercado.

Essas iniciativas atendem à necessidade de responder ao avanço de materiais alternativos, sobretudo os sintéticos. “Nos últimos vinte anos, os tubos feitos de plásticos evoluíram muito em tecnologia e qualidade”, reconheceu. “Alguns aços especiais também evoluíram, mas não com tanta intensidade.” Apesar de notar o avanço desses materiais, Siqueira limita seu emprego a uma faixa restrita de aplicações. Nas linhas de condução de fluidos comuns, como instalações prediais de água, combate a incêndio e gás, os plásticos levam vantagem. Já nos diâmetros maiores que 20 polegadas, o aço permanece soberano. “Embora tenha vantagem de custo de instalação menor, os tubos de plástico perdem em resistência mecânica”, afirmou.

O setor de tubos, por abranger aplicações diversas, mostra-se muito dinâmico. Segundo Siqueira, mais de 70 empresas atuam na transformação do aço para usos industriais diversos, inclusive a produção de tubos para autopeças, estruturas mecânicas, entre outros. Já houve um processo de concentração, pois, desse total, cerca de 14 companhias respondem por 80% das vendas. Já no campo dos tubos especializados, construídos sob normas rígidas, como a API (do American Petroleum Institute), atuam no Brasil sete empresas, nas linhas de grandes e pequenas diâmetros, com ou sem costura. Na linha de aços inoxidáveis especiais, restaram somente três fabricantes no Brasil.

“Houve necessidade de concentração de empresas para reduzir custos”, atesta Siqueira. Isso foi feito depois da abertura comercial de 1990, que ampliou a exposição internacional da economia brasileira. Além disso, a formação do Mercosul obrigou a concorrer com as congêneres argentinas.

Inox reformulado – Maior fabricante de tubos de aço inoxidável no Brasil, a Inoxtubos exemplifica o processo de consolidação de negócios. A empresa, formada no dia 1º de novembro de 1997, pela fusão dos interesses da Acesita (que já havia comprado essa área de negócios da Sandvik), Tequisa, Tubra e Tubinox, passou a deter de 60% a 65% das vendas nacionais. Dos acionistas iniciais (grupos Amorim, Feital, Losango e Acesita), a Acesita/Sandvik reforçou sua participação comprando a parte do grupo Amorim e assumindo, mediante acordo, a gerência dos negócios.

A partir da fusão, foi possível concentrar as linhas de fabricação na unidade da antiga Tequisa, em Ribeirão Pires-SP. Até o final de 2001, a empresa pretende transferir para lá a última unidade isolada, no bairro da Mooca, na zona leste paulistana. 
A fábrica de Ribeirão Pires deverá receber também investimentos de R$ 5,5 milhões até meados de 2002, com o objetivo de reduzir custos e ampliar a capacidade produtiva das atuais 10 mil t/ano de tubos para 15 mil t/ano, até 2005.

Cuca Jorge
Bernardes: tubo inoxidável nacional tem custo competitivo


“Somos plenamente competitivos em custos em relação aos concorrentes dos Estados Unidos e América Latina”, afirmou José Marcos Bernardes, gerente de vendas da Inoxtubos. Tanto assim que a exportação, equivalente a 20% do faturamento anual de R$ 80 milhões em 2000, deve ser ampliada para 25% nos próximos anos. O gerente também espera aumento no total de vendas, estimado em 12,5%, chegando a R$ 90 milhões em 2001.

 

Os maiores concorrentes internacionais para os tubos de aço inox são os asiáticos. “Eles tratam os tubos como commodities, trabalhando com baixos preços, enquanto nós procuramos nichos de mercado que exigem tratamento de especialidades”, explicou. Dessa forma, já é possível para a empresa sustentar exportações para investimentos açucareiros na região do Caribe e até fornecimentos para a própria Ásia.

Cuca Jorge
Tubos de aço inox com solda longitudinal sem adicionar material

 

Cuca Jorge
Setton: “apagão” pode ampliar negócios com termoelétricas
Os negócios da Inoxtubos estão fortemente centrados nos tipos 304, 304 L, 316 e 316 L, os mais consumidos no Brasil, embora também possa fornecer tubos feitos nos tipos 310 e 321. 

“Estamos testando o desempenho da produção e do mercado com a liga especial SAP 2205, que era trabalhada pela Sandvik”, afirmou o gerente de qualidade Elie Setton. “No passado nós já fizemos tubos com esse material, portanto sabemos da viabilidade técnica, mas dependemos das encomendas.” 

Outras ligas da Sandvik, como a 2RK65 e a 253MA já foram consumidas no Brasil, em outros tempos, sem previsão de retorno.

 

Um problema do negócio de tubos de aço inox é a sazonalidade do consumo de determinados tipos de produtos, alternando fases de vendas altas com períodos de estagnação. “Por exemplo, atualmente o 316 está com vendas aquecidas por causa das encomendas do setor de celulose, em especial para a ampliação da Aracruz”, comentou Manolo G. Verde, responsável pelas vendas para indústria e distribuição. Em geral, as vendas do 304 são mais significativas.

Agrava o problema o fato de o consumo per capita de aço inoxidável no Brasil ser muito baixo em relação aos países desenvolvidos. Os especialistas da Inoxtubos estimam diferença de 12 vezes entre o índice da Europa e o do Brasil. Sem poder alicerçar planos de expansão com base na demanda industrial, sujeita aos humores da economia mundial, a saída enxergada pela companhia é atender a consumidores mais estáveis, exigindo o desenvolvimento de produtos.
Cuca Jorge
Verde: seção quadrada é aplicada em móveis e estruturas

“Estamos apostando no mercado de estruturas e usos ornamentais, que nos obrigaram a desenvolver perfis diferenciados”, comentou Manolo Verde. Para essas finalidades, a Inoxtubos passou a produzir tubos com seções quadradas e oblongas. Um exemplo de uso é a fabricação de móveis para hospitais, nos quais o inox permitiria melhor assepsia sem comprometer a durabilidade. “Não dá mais para usar o aço comum pintado quando se quer mais limpeza para reduzir as infecções hospitalares”, afirmou.

Uma barreira importante para desenvolver esses mercados é o estigma de material caro. “O aço não é tão caro quanto se imagina e o custo/benefício é muito favorável em relação ao cobre e ao latão”, disse Verde. “Essas aplicações contam com padrões e normas menos exigentes que os requeridos por tubulações industriais, por isso o custo em relação a estes é bem menor”, informou Elie Setton.

Mesmo nas linhas industriais, o aço inoxidável apresenta vantagens. “Os cozedores de açúcar, por exemplo, poderiam economizar energia térmica se trocassem os tubos de cobre pelos de inox”, explicou Setton. Por causa das condições de operação, os tubos de cobre precisam ser construídos com paredes muito espessas, que prejudicam as trocas térmicas, apesar das boas caraterísticas condutivas do material. Tubos de aço usam paredes mais finas, permitindo aproveitar melhor o calor. “Além disso, os tubos de cobre sofrem desgaste nas operações de limpeza e permitem o desenvolvimento microbiano indesejável”, afirmou.

Os entrevistados não manifestaram grande preocupação com relação à substituição de materiais. “O que mais nos preocuparia é a troca com aço carbono, mas, pelo critério de custo/benefício, é mais fácil o inox ganhar mercado do aço comum do que o contrário”, disse o gerente de vendas Bernardes.

Em relação aos sintéticos (resinas, com ou sem reforço), “a concorrência existe, mas não é significativa”, avaliou Manolo Verde. Segundo afirmou, o único negócio importante perdido para outros materiais foi uma tubulação para cervejaria, que adotou o aço carbono revestido. “As sintéticas têm a vantagem de suportar agentes corrosivos, mas não toleram altas temperaturas e perdem na resistência mecânica”, complementou Setton.

Outros tipos de materiais às vezes trazem algumas supresas. “Nos fornos das indústrias cerâmicas houve a substituição dos tubos de aço inoxidável pelos feitos de materiais cerâmicos, por exemplo”, disse Setton. Quanto ao vidro, a disputa fica restrita às encomendas de laboratórios farmacêuticos e outros tipos de especialidades químicas. “O inox leva vantagem na facilidade de limpeza por processos tipo CIP e na manutenção fácil e mais econômica”, avaliou.

Manolo Verde salientou que a Inoxtubos realiza vendas diretas apenas aos grandes projetos, deixando pedidos de menor envergadura, em geral de manutenção, para seus distribuidores, que respondem por 65% de todo o faturamento da companhia. Com base nos relatórios elaborados por esse segmento, ele mencionou o crescimento de 3% nas vendas nos quatro primeiros meses do ano, em relação ao mesmo período de 2000. O atendimento direto aos grandes projetos também dá mostras de forte recuperação, podendo ser citados investimentos em papel e celulose e até petroquímica. 

Nem mesmo a ameaça de racionamento de eletricidade ou da ocorrência de “apagões” deve comprometer o bom desempenho da empresa. “Talvez a crise traga novas oportunidades de negócios, de modo a aproveitar subprodutos para a geração de eletricidade”, exemplificou Bernardes. Do ponto de vista do fabricante de tubos, a escassez de energia elétrica poderá trazer alguns inconvenientes na linha de produção. “Estamos estudando as medidas a adotar para lidar com essa situação, mas ainda faltam definições do governo sobre o alcance do racionamento”, explicou Setton.

A Inoxtubos atende a todos os setores industriais, com tubos nas bitolas de 2,8 a 40 polegadas, podendo ir a 80”. “A Tequisa já fez, no passado, tubos desse porte”, disse Setton. Atualmente, o mercado está concentrando encomendas em bitolas maiores do que a média das décadas passadas, refletindo a construção de unidades produtivas de maior escala. “Ainda há muita demanda da faixa de 4 a 8 polegadas, mas nota-se aumento dos pedidos entre 30 e 40 polegadas”, informou.

No campo tecnológico, houve mudanças ligeiras tanto na fabricação dos tubos, como na sua aplicação. É possível, atualmente, atender aos requisitos de normas usando tubos com menor espessura de parede, com menos aço por metro linear e, portanto, mais leves e baratos. “É preciso estudar bem cada caso para ver se não comprometerá a durabilidade da instalação”, explicou Setton. Isso justifica a ênfase da companhia nas atividades de pré-venda, enfocando o relacionamento com as empresas de engenharia, de modo a especificar o tubo mais adequado para cada situação. Esse trabalho foi estendido aos distribuidores, que recebem treinamentos periódicos dados por técnicos da empresa e também da siderúrgica Acesita.

Por ser ligada ao grupo francês Usinor, a Acesita permite à Inoxtubos participar de programas de intercâmbio de tecnologia do aço e de equipamentos modernos de transformação. Atualmente, a empresa produz os tubos de menor diâmetro com soldas longitudinais por fusão, sem adicionar material de solda, segundo normas construtivas internacionais. A solda por adição, feita manualmente, é empregada apenas quando a norma admite, geralmente nos tubos de parede mais espessa.

Outra vertente de trabalho da empresa é intensificar as práticas e qualidade, adotando a linha PDCA (planejar, implementar, medir e analisar), dentro da norma ambiental ISO 14000. “Além disso, vamos adotar postura comercial mais agressiva”, comentou Bernardes.

O grande problema apontado pelo fabricante nacional é a importação de equipamentos contendo tubos, como trocadores de calor e caldeiras. Nesse caso, pode ser citada como exemplo a exploração de petróleo. “Algumas empresas de engenharia internacionais mantêm alianças com fabricantes de tubos do país de origem e privilegiam esses fornecedores”, comentou Manolo Verde. Daí a necessidade de a Inoxtubos investir para colocar produtos em grandes projetos mundiais. 

Pressão no aço carbono – Apesar da grande concorrência com outros materiais, os tubos de aço carbono encontram demanda estável, principalmente no setor de saneamento básico. Material versátil, que atende a várias normas de aplicação e aceita com facilidade revestimentos capazes de melhorar seu desempenho, o aço carbono também encontra bons mercados nas áreas de petróleo, gás natural, fundações, obras portuárias e em celulose e papel.

“Fechamos recentemente o pedido da termoelétrica da CEG, no Rio de Janeiro, um mercado que parece ser promissor”, aduziu Silvano Proietti, vice-presidente comercial da Brastubo, fabricante com 44 anos de atuação no setor. O grupo empresarial homônimo possui participação acionária significativa na Cosipa, adquirida no processo de privatização conduzido em 1993. 
Cuca Jorge
Proietti: investimentos vão do aço carbono ao polietileno

Aproveitando a disponibilidade de espaço na área da siderúrgica de Cubatão-SP, o grupo lá instalou unidade especializada na fabricação de tubos de aço carbono com costura helicoidal. No bairro do Jaguaré, em São Paulo, continuam a funcionar as linhas de tubos costurados longitudinalmente e de revestimentos, feitos de coal tar-enamel, asfalto-enamel, epóxi, alumínio, borracha clorada, entre outros. Atualmente estão sendo investidos R$ 4 milhões em Cubatão para a compra de nova linha de produção helicoidal e da estrutura necessária para receber as atividades hoje desenvolvidas no Jaguaré. “Em relação à Cosipa, a única vantagem que temos é de natureza logística, pois o preço do aço é semelhante ao cobrado de clientes de mesmo porte”, informou Proietti. É uma vantagem razoável, pois facilita a movimentação de materiais e permite o escoamento da produção pelo terminal portuário da siderúrgica.

 
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