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SETOR PRIVADO COMPENSA ESCASSEZ DE OBRAS PÚBLICAS
Enquanto as obras em saneamento básico não saem, por conta da indefinição federal para orientar OS investimentos, fornecedores de sistemas, equipamentos e processos para tratamento de efluentes fecham bons negócios com a iniciativa privada
MARCELO FURTADO
Os clientes industriais continuam a ser a salvação para os fornecedores de sistemas de tratamento de efluentes. Sem esperanças de ver tão cedo curada a lentidão governamental para orientar os investimentos no saneamento básico, ainda dependente da aprovação de projeto de lei para regulamentar a atividade, as empresas correm atrás da mais dinâmica iniciativa privada para manter constante o crescimento nas vendas. Os fornecimentos para o setor público têm sido apenas para obras bastante aquém do potencial do País, onde apenas 34% do território possui redes de coleta de esgoto e menos de 10% conta com tratamento dos efluentes domésticos, de acordo com dados de pesquisa da consultoria americana CG/LA Infrastructure.
Embora o potencial do saneamento básico seja superior, os negócios com a indústria são mais constantes, imunes a burocracias e portanto com menores chances de desandar de uma hora para outra. Não por menos, um outro resultado do trabalho sobre o mercado latino-americano de águas da CG/LA revela que nos próximos três anos o continente demandará investimentos em tratamento de efluentes e de água industrial da ordem de US$ 2,2 bilhões. Desse total, pouco acima da metade se voltará apenas ao mercado brasileiro, de longe o mais importante.
De acordo com o vice-presidente da consultoria, Anand Hemnani, a despeito do rigor das legislações ambientais, que obrigaram muitas empresas a se adequarem aos padrões de emissões, ainda há muito por fazer em tratamento de efluentes industriais no Brasil. Com o respaldo da pesquisa realizada sob sua coordenação, resultante de serviços de consultoria para grandes grupos interessados no mercado latino-americano, Hemnani concluiu que o percentual de efluentes industriais devidamente tratados ainda se encontra em um patamar muito baixo na região.
Quando se leva em conta as indústrias com algum tipo de tratamento, a média nos países abordados pela pesquisa (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela) não ultrapassa 65%. Porém, ao se considerar apenas as empresas com tratamento realmente adequado para atender aos padrões básicos de normas ambientais, esse índice cai para 40%. No Brasil, ainda de acordo com o levantamento da CG/LA (cujos dados são compilados anualmente), as porcentagens oscilam bastante. Podem variar desde 30%, como no caso do setor de processamento de açúcar, até 80%, na petroquímica, ou 90%, no setor automotivo.
“Mesmo assim, a maioria dessas empresas no Brasil possui apenas o tratamento primário e, só em alguns casos, chega ao secundário”, afirma Hemnani. Para ele, nesse contexto são raras as que atendem os padrões internacionais de controle ambiental. “A empresa precisa sofrer muitas pressões, externas e internas, para investir no tratamento de efluentes apropriado”, continua o consultor.
Esse motivo explica o fato de a indústria automotiva ser a mais adiantada nesse quesito, tanto por precisar seguir seus padrões corporativos de meio ambiente como para se prevenir de pressões da comunidade. “Por outro lado, as companhias menos preocupadas com a questão, e por conseqüência as mais poluidoras, são as menos visadas, ou seja, as pequenas e médias indústrias locais.”
Multiutilidades – A constatação de que o mercado privado tem retorno mais rápido se reflete na atuação das empresas do ramo. Difícil encontrar um fornecedor não preocupado em chamar a atenção para novos serviços e sistemas disponíveis ao segmento industrial. Simbólica nesse aspecto é a tendência crescente dos principais players em oferecer pacotes globais para as necessidades de utilidades dos clientes, englobando desde o tratamento de água industrial e efluentes até a destinação de resíduos e, em casos específicos, de abastecimento de energia.
Os mais radicais nesse conceito de multiutilidades são justamente os dois maiores grupos do setor, os franceses Vivendi e Suez. Com atuações paralelas, em água e energia (e ainda em telecomunicações), as duas corporações estão em esforço de guerra para organizar as atividades de suas diversas empresas ou co-ligadas para ofertar soluções integradas. Depois de várias aquisições para cumprir a nova estratégia, a nova palavra de ordem para ambas é a sinergia de negócios.
A Vivendi promete divulgar de forma mais intensa a operação “casada”. As necessidades de equipamentos, sistemas e operações de água e efluentes ficam a cargo do corpo técnico da adquirida US Filter e da divisão OTV (agora denominadas apenas Vivendi Water). As demandas de gerenciamento de resíduos passam a ser responsabilidade da divisão Onyx, da Vivendi Environement, que no Brasil também engloba a adquirida Resicontrol. Já na parte de tratamento químico da água ou efluente, a responsável é a BetzDearborn, do grupo americano Hercules e que possui aliança estratégica internacional com o grupo francês. Se o cliente também necessitar de know-how de energia, por atuar forte mundialmente no segmento, o grupo providencia o atendimento.
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A versão brasileira dessa nova estratégia da Vivendi já começou. Na unidade da Solvay em Santo André-SP, Vivendi e BetzDearborn cuidam da água, dos efluentes e dos resíduos das fábricas do site. Há ainda um novo contrato com a siderúrgica Usinor, em São Francisco do Sul-SC. Conforme explica o diretor comercial da Vivendi Water, Giangiacomo Gallizioli, a conta da Usinor será o primeiro exemplo de fornecimento total de utilidades executado pelo grupo no Brasil. Trata-se de contrato BOT (build, operate and transfer) de 15 anos de valor aproximado de R$ 70 milhões. A obra englobará o fornecimento de água potável e industrial, bem como sistema de tratamento para caldeiras e de efluentes, além do gerenciamento de resíduos industriais e do fornecimento de gases industriais e de energia.
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| Cuca Jorge |
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| Hemnani: Brasil ainda está no tratamento primário |
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| Divulgação |
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| Rotores biológicos de contato da Vivendi: aeração melhorada |
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“O grande trunfo desses serviços é fazer com que os clientes se preocupem apenas com o processo deles”, afirma Gallizioli. Para ele, um aspecto importante nesses fornecimentos, quando diz respeito a efluentes, é a possibilidade de destinação de resíduos, tendo em vista a limitada oferta de aterros, incineradores e outras medidas corretas. “Não adianta a empresa ter solução para o líquido, se o resíduo sólido, os lodos de estações, fica a descoberto”, diz. Isso vale tanto para indústrias como para municipalidades e companhias estaduais. A Sabesp, por exemplo, estaria acumulando lodos em suas estações de tratamento de esgoto.
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A divisão Onyx pode contar com várias soluções para resíduos de qualquer tipo, do classe 1 (perigosos) ao classe 3 (inertes). Para começar, há a possibilidade de co-processamento em fornos de cimento, executado pela unidade da Resicontrol, em Sorocaba-SP, onde se realiza a “blendagem” de resíduos para posterior queima em forno de clínquer, em Capão Bonito-SP (ver QD-387, pág.17). Se a destinação mais adequada for aterro, desde dezembro de 2000 a Vivendi conta com o Sasa, de Tremembé-SP (QD-387, pág.10). Em nível mundial, o grupo francês adquiriu a americana Waste Management International, ex-controladora do Sasa e proprietária de mais de 300 aterros pelo mundo.
Detentor do conceito de central de tratamento de resíduos, no qual pode preparar o melhor destino do lixo com técnicas de microencapsulamento, o Sasa a partir deste ano passou a receber resíduo classe 1, desde que implantou uma vala revestida com capacidade para 350 mil m³. Possível de receber quase todos os tipos de lixo industrial e também doméstico da região, apenas em determinados casos a solução para os clientes terá de ser incineração.
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