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CRISE ELÉTRICA AGRAVA
DÉFICIT QUÍMICO
As indústrias química e petroquímica deverão reduzir 20% de seu consumo de eletricidade, e a de soda-cloro, 25%, a partir de junho, tomando por base a média de consumo registrada nos meses de maio a julho de 2000, por decisão oficial, publicada no dia 25 de maio. O menor suprimento de eletricidade provocará a parada das linhas produtivas, única forma de se atingir a meta estabelecida. A decisão oficial isenta o setor industrial das sobretarifas e multas, mas o não atendimento aos cortes indicados implica desligamento imediato do fornecimento de eletricidade.
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) divulgou nota na qual menciona que o corte de eletricidade para o setor agravará o desequilíbrio da balança comercial de produtos químicos, que apresentou déficit de US$ 6,5 bilhões (FOB) em 2000. Além disso, por operar unidades de funcionamento contínuo, a introdução de paradas mais freqüentes acarretará aumentos dos custos, pela produção de itens fora de especificação durante as operações de religamento.
A imposição de um porcentual de redução de consumo, porém, ainda é alternativa melhor do que os “apagões”, cortes totais e abruptos de eletricidade, que poderiam causar danos irreversíveis às instalações, como a perda de caríssimos catalisadores, além de provocar risco de explosões. De qualquer forma, a Abiquim ressalta que as indústrias associadas já ajustaram seus processos e fábricas para consumir o mínimo indispensável de eletricidade, muitas delas tendo, inclusive, investido em sistemas de co-geração . Apesar disso, o setor ainda é dependente do fornecimento de eletricidade das geradoras.
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“A autogestão é a melhor maneira para superar a crise energética”, afirmou Martim Afonso Penna, diretor-executivo da Abiclor. Tendo participado da comissão de racionamento de eletricidade do Nordeste, entre 1987 e 1988, Penna pôde verificar o sucesso desse sistema, tendo sido atingidos os objetivos propostos (15% de redução de consumo). “Além disso, é possível promover um alinhamento entre as geradoras e as consumidoras para reduzir a demanda nos horários mais críticos”, disse.
O setor de soda-cloro já havia verificado a tendência oficial de exigir maiores reduções de demanda por parte das indústrias eletrointensivas, conforme sugerido pelo diretor da Agência Nacional de Petróleo, David Zylbersztajn, e pelo físico e professor José Goldemberg. A Abiclor participou de reuniões com representantes oficiais, sempre tentando manter o porcentual de redução abaixo dos 20% estipulados para a população em geral.
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Cuca Jorge
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| Penna: setor de soda-cloro retrocederá dez anos |
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O anúncio desapontou o dirigente. “Quem defende o corte maior para as eletrointensivas não tem idéia do que representa diminuir a produção de produtos como soda-cloro e sua repercussão em todas as cadeias produtivas, com efeitos até no saneamento básico”, criticou Penna.
A Abiclor encomendara um estudo à Fundação Getúlio Vargas para avaliar os efeitos da redução do fornecimento de eletricidade ao setor, com porcentuais de corte variando de 2,5% a 25%. Em visão ampliada, abrangendo toda a indústria brasileira sujeita à redução de 20% no consumo de eletricidade, a FGV estimou perda de R$ 14 bilhões na arrecadação federal, com queda de dois pontos percentuais na estimativa oficial de crescimento do PIB (estimado em 4,5%), além de corte ou não-implementação de 856 mil empregos. A balança comercial nacional ficaria ainda mais negativa, com déficit agravado em US$ 1,6 bilhão, enquanto a produtividade industrial do País cairia 1,5%. O total de impostos arrecadados no País sofreria redução de R$ 6,6 bilhões, dos quais 30% correspondem ao ICMS que alimenta estados e municípios.
Especificamente para o setor de soda-cloro, o estudo da FGV, citado por Penna, apontou os reflexos diretos de cortes energéticos de 15% a 25%. Na melhor dessas hipóteses, o setor deixaria de fabricar 94,4 mil t de soda e cloro, com perdas acumuladas de US$ 54 milhões. Já na pior hipótese, a adotada pelo governo federal, a produção deverá ser reduzida de 160 mil t, provocando perdas de US$ 92 milhões. “Voltaremos ao nível de produção registrado em 1991, ou seja, teremos um retrocesso de dez anos”, criticou Penna.
O diretor-executivo da Abiclor salientou que o estudo fez as contas tomando por base um período de restrição de junho a novembro. “Infelizmente, as previsões indicam que o racionamento vai se prolongar”, alertou. Penna comentou o fato de as barragens construídas no Brasil estarem supermecanizadas, ou seja, com mais turbinas geradoras do que seria seguro instalar. “Desde 1995, o nível dos reservatórios está caindo porque o consumo de água supera a captação”, informou. Além disso, turbinas alimentadas por reservatórios no limite mínimo de capacidade tendem a receber água suja (com lama), que pode danificá-las, reduzindo ainda mais a oferta de eletricidade. Reservatórios baixos também constituem óbice à navegação, em época de escoamento de safra agrícola do Centro-Oeste brasileiro.
A crise poderá se repetir em 2002, embora a capacidade de geração deva ser ampliada de 2.100 MW. “A situação só vai melhorar no final de 2002, quando entram em produção mais 4.150 MW, fora a conclusão das linhas de transmissão da energia sobrante no Sul e no Norte do País”, calculou. “Isso se não houver outro período chuvoso fraco, como neste ano.” A situação poderia ser melhor, se, no passado, tivessem sido estimulados os projetos de co-geração elétrica. O próprio setor de soda-cloro, segundo Pena, tinha projetos interessantes, abandonados pela falta de definição oficial sobre fatores como oferta e preço de gás natural, livre acesso aos gasodutos, licenças de localização, instalação e operação. Essas licenças, aliás, foram aceleradas por meio de Medida Provisória, passando para 30,60 e 90 dias, respectivamente.
Definido o porcentual de ajuste, o setor de soda-cloro inciará reuniões para tentar harmonizar condutas, de modo a reduzir o impacto da crise. “Já sabemos que, nos próximos três meses, as indústrias do setor farão paradas antecipadas de manutenção, de forma escalonada”, disse Penna. Com isso, a economia elétrica chegará a 100 mil MWh. “As empresas gostariam de ser compensadas no futuro pela economia, como uma espécie de caderneta de poupança para o período chuvoso”, comentou.
Além disso, o setor pleiteia flexibilidade para promover cortes de demanda dentro do grupo. “Podemos atuar em forma de pool, parando por mais tempo as unidades menos eficientes em aproveitamento energético e transferindo essa energia para as fábricas mais eficientes”, explicou. “Assim, evitaríamos prejuízo maior para os consumidores.” A Abiquim apresentou ao governo pleito semelhante, de forma a alcançar economia de energia ainda maior que a solicitada, se for permitido equacionar o problema por grupos de empresas interrelacionadas, como as situadas nos pólos petroquímicos.
Atualmente, a maior preocupação da Abiclor é a preservação da cadeia de consumo de seus produtos. “O risco de desagregação é enorme”, avaliou. Como exemplo, ele citou o caso das novas fábricas de automóveis da Ford e da GM, que aumentarão o consumo de espumas de poliuretano (PU) nos estofamentos e nos volantes. “O PU é feito com a participação de cloro no processo”, ressaltou. Como as montadoras terão corte de apenas 15%, insuficiente, segundo elas mesmas, para reduzir a produção, certamente haverá falta de bancos e de volantes, ou a importação da resina aumentará.
O problema é maior com o desabastecimento de soda cáustica, que já está sendo importada desde o ano passado para fazer frente à demanda. O anúncio de redução de atividades de algumas produtoras de alumínio não será suficiente para manter o País abastecido, segundo Penna. As indústrias de celulose, por exemplo, são grandes consumidoras de soda para o desfibramento da madeira, e serão pouco afetadas pelo racionamento de eletricidade. A importação de soda vai aumentar, congestionando portos e estradas.
“O setor de soda-cloro já assumiu o compromisso de priorizar o abastecimento interno”, informou. Mesmo assim, consumidores que exportam seus produtos poderão ser fortemente afetados com a escassez, prejudicando a imagem internacional e comprometendo negócios
futuros.
(M. Fairbanks)
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