AMBIENTE
Com a elevação dos chamados custos ambientais, criar soluções mais baratas para o controle da poluição industrial tem-se tornado uma obsessão para os especialistas. Bom exemplo é a técnica de encapsular resíduos inorgânicos e orgânicos, com base em adsorventes, dentre os quais a argila modificada, desenvolvida a partir de 1999 na empresa de proteção ambiental do pólo de Camaçari-BA, a Cetrel.
O encapsulamento, também chamado de estabilização e solidificação, é um estágio de pré-tratamento pelo qual os constituintes perigosos de um resíduo são transformados e mantidos em suas formas menos solúveis ou tóxicas. Tais transformações ocorrem via reações químicas que fixam elementos, ou compostos tóxicos, em polímeros impermeáveis ou cristais estáveis, chamados adsorventes ou encapsulantes. Assim estabilizados, ficam menos agressivos ao meio ambiente e podem ser confinados em aterros industriais. A técnica do encapsulamento até há pouco era considerada imprópria para resíduos orgânicos e, por conseqüência, até então praticada só em função de inorgânicos, com base nos dois encapsulantes (adsorventes) mais comuns: cal e cimento. Para os orgânicos, cal e cimento nunca apresentaram eficácia aceitável, ressalta o coordenador José Passos. No Brasil, a tecnologia de encapsulamento é desenvolvida e testada nos últimos cinco anos por pesquisadores da Escola Politécnica e da Faculdade de Saúde Pública da USP, em laboratório e no campo, para o tratamento de diversos tipos de resíduos industriais, incluindo os de perfuração de petróleo da Petrobras. Mas só mais recentemente, depois que a argila modificada começou a ser usada, o desenvolvimento do encapsulamento em função de resíduos orgânicos voltaria a ser cogitado. A capacidade de adsorção, presente naturalmente em alguns tipos de argila, pode ser bastante melhorada por modificações “químicas bastante simples”, baseadas na capacidade de troca iônica dessas argilas ou solos. Uma “pequena” modificação química provoca o deslocamento de íons trocáveis, resultando tal deslocamento em aumento substancial das propriedades da adsorção para solutos orgânicos não-iônicos, explica a consultora da Cetrel, Lúcia de Toledo Câmara Neder. No mercado, a argila assim modificada é apresentadas com o nome genérico de CAM – iniciais de “complexo argilo-mineral”. Além de possibilitar tratamento de resíduos sólidos antes de sua disposição em aterros, as argilas modificadas também podem ser usadas para melhorar a capacidade de contenção de solos pobres em matéria orgânica, proteção de aquíferos e também para aumentar a capacidade de contenção de camadas impermeabilizantes em aterros. A consultora atesta a eficácia na remoção de benzeno, diclorobenzeno, percloroetano “e muitas outras substâncias orgânicas contidas na água”. Testes de bancada e em nível piloto feitos em mais de dez tipos de resíduos orgânicos estocados na Cetrel demonstraram que três desses resíduos, cujos estoques somam as 5 mil t que em princípio seriam incineradas, são economicamente viáveis de encapsulamento pelo processo da argila modificada. Nos testes de viablidade econômica e financeira, a resposta só é positiva, considera a Cetrel, se, no final do processo, a relação de peso argila/resíduo alcançar 70% de resíduo e 30% de argila. Abaixo de 70%, o custo encarece, desaparece a vantagem comparativa em relação à incineração. As características do resíduo, incluindo conteúdos orgânico e inorgânico, viscosidade e tamanho e distribuição das partículas, podem afetar a compatibilidade entre o encapsulante ou adsorvente e o resíduo. A principal preocupação técnica refere-se aos processos de migração de contaminantes do resíduo encapsulado para o meio circulante. “Diversos estudos demonstram que os principais fatores que afetam a lixiviabilidade são a alcalinidade do produto estabilizado, a proporção entre a superfície e o volume do resíduo e as rotas de difusão”, assinala Lúcia. Ela ressalta que os testes de lixiviação obedecem a “diferentes propósitos e podem ser realizados como testes regulatórios para fornecer a base de um processo de decisão consistente e uniforme”. A Cetrel revela que a entidade ambiental dos Estados Unidos, a EPA, considera que os resíduos perigosos produzidos em grandes quantidades são os mais adequados para tratamento pela tecnologia de encapsulamento. Os mais submetidos a essa forma de tratamento têm sido: os que contêm íons metálicos ou semi-metais; os oleosos e à base de solventes (solventes usados, fundo de tanques de destilação e resíduos de refinarias); os aquosos contendo grande quantidade (1% a 20%, ou mais) de substâncias orgânicas (emulsões), solúveis ou insolúveis, listadas como perigosas pela legislação; os aquosos contendo grande quantidade, (1% a 20%, ou mais) de substâncias orgânicas (emulsões), solúveis ou insolúveis, como o óleo, não listadas entre as perigosas pela legislação, “a não ser pela ignitabilidade ou características marginais”; os aquosos contendo baixos teores de contaminantes orgânicos listados como perigosos (menos de 1% e usualmente na faixa de 10 a 1000 mg/L) “a exemplo do do pentaclorofenol ou bifenilas policloradas”. Alguns tipos de resíduos legalmente não-perigosos também são viáveis de encapsulamento em busca de manuseio mais adequado ou menor probabilidade de perda e vazamento de constituintes indesejáveis, capazes de contaminar o lençol freático. São exemplos: resíduos de mineração que possam retornar ao local de extração; cinzas volantes; cinzas de fundo; borras; resíduos de escapamentos ou torres de lavagem para tratamento de emissões provocadas pela queima de combustíveis fósseis; e óleos, gases ou fluidos de lubrificação geotérmicos.n (José Valverde)
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