DEMANDA CRESCE MAIS
PELA TERCEIRIZAÇÃO

 

*MARIA SILVIA MARTINS DE SOUZA

A legislação ambiental exige correto tratamento de efluentes e resíduos; as normas de qualidade, a calibração de equipamentos de laboratório; e a concorrência, o desenvolvimento de novos produtos. Montar estações de saneamento, executar as próprias aferições de instrumentos e ter um laboratório de pesquisa e desenvolvimento seriam as soluções recomendadas, não fossem elas onerosas para as grandes empresas e, em geral, inviáveis para as pequenas e médias. A saída quase sempre é a terceirização dessas e de várias outras atividades. Em conseqüência, um número expressivo de empresas prestadoras de serviços surgiu para atender a essa demanda. Quem são alguns representantes expressivos desse grupo e que serviços oferecem é o propósito central deste artigo.


A necessidade constante de reduzir custos, res­ponsável por notável incremento da busca por terceirização, ocorre nas indústrias químicas em outras áreas além dos re­fei­tórios, da segurança ou limpeza das instalações. Um grande nú­mero de empresas sobre­vive da pres­tação dos chamados serviços “técnicos” para indústrias quí­micas. Dife­ren­temente dos casos citados, os serviços técnicos tercei­rizados demandam mão-de-obra quali­ficada, além de investi­mentos signi­ficativos em equipamentos ou insta­lações por parte dos prestadores.

A área ambiental é a que mais requer a contratação de serviços. Conscientes da necessidade de preser­var o meio ambiente, ou pressionados pelos órgãos públicos responsáveis, as indústrias químicas precisam dar destino adequado aos seus efluentes, resíduos e emissões gasosas nocivas e, para isso, muitas empresas prestadoras de serviço surgiram para auxiliá-las nessa tarefa. A de maior porte é a Cetrel S.A. Empresa de Proteção Ambiental, que iniciou suas atividades em 1978, juntamente com as indústrias do Pólo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, sendo responsável, desde então, pelo tratamento e disposição final dos efluentes e resíduos industriais, assim como pelo monitoramento ambiental de toda área sob influência do complexo industrial.

A Cetrel é uma empresa privada, com cerca de 70% de suas ações pertencentes às indústrias do pólo petroquímico de Camaçari e 30% de propriedade do Governo do Estado da Bahia, representando um investimento global de US$ 250 milhões. Criada com a função inicial de tratar os efluentes líquidos gerados pelas indústrias do Pólo, a Cetrel foi ampliando gradati­vamente seu leque de atividades. Hoje mantém, opera e controla um sistema de coleta, transporte, tratamento e destinação final de efluentes industriais, utilizando o processo biológico de lodos ativados. A estação de tratamento de efluentes (ETE), umas das maiores e mais modernas do País, tem capacidade para processar um volume de 144 mil m3/dia, com um desempenho opera­cional comparável ao dos sistemas mais avançados do mundo.

Dentro da política de expansão do seu mercado a Cetrel tem buscado cada vez mais atender empresas não perten­centes ao Pólo. Segundo informações de sua assessoria de imprensa, do faturamento anual de R$ 40 milhões, cerca de 40% advêm de clientes situados fora da Bahia. São oferecidos serviços nas áreas de tratamento de efluentes líquidos, processamento de resíduos industriais especiais, incine­ração de resíduos líquidos e sólidos, monitoramento do ar, monitoramento das águas subterrâneas e de superfície, e serviços de laboratório. 

Certificada pela ISO 14001, a Cetrel processa resíduos sólidos Classe I e Classe II gerados no Pólo, podendo também prestar esse serviço para clientes externos, com emissão do certificado de destruição. Possui também aterros industriais e áreas de estocagem temporária. Seu parque de incineração da empresa, composto de um incinerador para resíduos líquidos organoclorados e de outro para resíduos sólidos perigosos, está capa­citado a atender a demanda nacional de incineração. Os serviços dispo­níveis in­cluem a inci­neração de resíduos orga­no­clorados, dentre os quais ascarel (PCB, bifenila poli­clorada), hexaclorobenzeno (BHC) e pesticidas. Trata-se de um dos três únicos incineradores do Brasil autorizados a queimar a perigosa bifenila usada como óleo de transformador. A su­pervisão e assessoria no manejo, acondicionamento e transporte dos resíduos, inclusive obtenção de licenças também podem ser con­tratados com a Cetrel.

Dentre as várias outras empresas que oferecem serviços similares, destaca-se a EP Engenharia do Pro­cesso, de Guarulhos-SP, que iniciou suas atividades em 1970, atendendo diversos tipos de solicitações quanto à recuperação, reciclagem ou destruição de resíduos e tratamento de efluentes. Contando com uma equipe de 120 funcionários, oferece serviços de caracterização de efluentes, estudo de tratabilidade em laboratório e em unidade piloto, seguindo-se o desen­volvimento de projetos e processos de tratamento. A tecnologia desenvolvida é vendida ao cliente, inclusive com a construção de equipamentos, se for o caso. É possível ainda contratar a EP para operar as estações de tratamento de água e efluentes instaladas ou para treinar e capacitar mão-de-obra própria na execução das tarefas. 

Na sede da empresa funcionam as unidades de Engenharia, Desen­vol­vimento de Tecnologias e Análises Químicas. Na via D. Pedro I, km 54,5, em Nazaré Paulista-SP, está localizada a Unidade Industrial, composta por depósito para resíduos perigosos, transformação de resíduos em um sistema de pirólise a vácuo, cuja tecnologia foi desenvolvida e licenciada pela EP. Ao todo são 4 mil m2 de galpões em 72 mil m2 de área industrial e mais 1.000 m2 em prédios administrativos. 
A EP implantou há pouco na unidade da Volkswagem, em São Bernardo do Campo-SP, uma estação para trata­mento da água efluente da torre de resfriamento. Essa água, após tratada, passou a ser reutilizada na lavagem das carrocerias antes da pintura. O tratamento é feito por osmose reversa, um sistema limpo e eficiente. Segundo o diretor químico Rogério Toledo de Almeida sempre que possível faz-se a opção por esse tipo de sistema ou pela ultrafiltração.

A EP opera ainda as estações de tratamento da Volkswagem, em São Carlos-SP, e da Scania, também em São Bernardo do Campo. Os serviços são pagos por metro cúbico tratado e variam em função das características iniciais da água ou efluente. Um exemplo: o tratamento por membrana de 1 m3 de água de superfície, de modo a adquirir qualidade para uso industrial, custa desde R$ 3 até R$ 4.

Algumas empresas fabricantes de produtos químicos possuidoras de grandes unidades de incineração também prestam serviços nessa área. É o caso da Clariant S.A.. A busca de soluções ambientais, com proteção ao meio ambiente, à saúde e à segurança já rendeu à empresa a certificação pela ISO 14.000. A unidade de incineração de resíduos industriais, instalada em sua fábrica de Suzano-SP, atende às neces­sidades internas da empresa e também de terceiros. Sua capacidade de queima chega perto das 4 mil t/ano. Segundo o responsável pela unidade Michel René, o custo médio da incineração varia desde R$ 1,5 mil até R$ 3 mil por tonelada, em função do volume, composição, tipo de resíduo e do acondicionamento. 

Assessoria em legislação ambiental e licenciamento, isto é, regularização junto aos órgãos públicos, como Cetesb (Companhia de Tecnologia e Sanea­mento Ambiental), Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente) e Secretarias do Meio Ambiente, são serviços que podem ser contratados junto a empresas como a Qualitá Engenharia e Gerenciamento Ambiental Ltda. Fundada em 1991, também executa projetos na área técnica. Servindo desde o ano passado a Sabesp (Cia. de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), a Qualitá faz inspeções nas redes de águas pluviais e de esgotos da companhia, para detectar a existência de ligações clandestinas.

Outro trabalho interessante reali­zado pela empresa foi o projeto de recuperação de resíduos de tinta-esmalte na Bosch Siemens Continental. Usada na pintura dos eletrodomésticos produzidos pela empresa, os resíduos dessa tinta constituíam sério problema. Segundo o diretor da Qualitá João Carlos Vilela, a obra permitiu reapro­veitamento de 100% do material, com grandes benefícios econômicos para a contratante. Vilela aponta como seus principais concorrentes a Ambiental Laboratório e Equipamentos Ltda., a Efluentes Consultoria Industrial e a Ecolife Consultoria e Comércio Ltda., além da já citada EP Engenharia do Processo. Ressalta ainda que em São Paulo, a grande maioria das prestadoras de serviço na área ambiental pertencem a ex-funcionários da Cetesb ou Sabesp. 

Diagnóstico ambiental, recuperação de solo e de águas subterrâneas, avaliação e execução da remediação em casos de derramamento e acidentes, estudos de impacto ambiental (EIA) e emissão de relatórios de impacto no meio ambiente (Rima), também são serviços oferecidos por vários desses prestadores. 

Terceirização da produção – Em alguns segmentos industriais, como o de cosméticos, é de hábito a contratação de serviço de fabricação em unidades industriais de terceiros. São pelo menos dez as grandes empresas em São Paulo dedicadas a esse tipo de produção, tendo a primeira surgido há 20 anos. Segundo Johnny Peter, diretor geral da Rueckert do Brasil, o total de pres­tadores no País chega a 50, incluindo pequenos e médios.
J. Peter, da Rueckert, produz 600 cosméticos diversos

Presente no primeiro mundo (Suíça e Estados Unidos), a Rueckert está instalada no Brasil em uma área fabril de 2,8 mil m2, com capacidade atual para produção de 12 t/dia, ou 3 milhões de unidades por mês de produtos acabados. Os interessados podem contratar a produção de colônias, batons, cremes, loções, géis, xampus, máscaras, hidratantes, reparadores de pontas, relaxantes, produtos para tratamento facial, desodorantes, sabo­netes líquidos, condicionadores, bron­zeadores e outros. 

A Rueckert tem cerca de 60 clientes no País, fabricando perto de 600 produtos diferentes. A produção míni­ma aceita é de mil peças ou de 300 kg, dependendo do tipo de produto. O serviço é pago pela quantidade pro­duzida. Os acordos variam caso a caso, mas em geral, parte das matérias-primas são compradas pela Rueckert, enquanto os ativos e essências são fornecidos pelos clientes.

Os terceirizadores em geral ofe­recem gratuitamente assessoria no desenvolvimento das formulações cosméticas e no seu registro junto ao Ministério da Saúde. Lipson Cos­méticos Ltda., Haya Cosméticos, Mary Hill Perfumes Bioskin Cosméticos são outros exemplos de prestadores deste tipo de serviço. Já empresas como a Aercamp e a Aerogas não fabricam, apenas envasam para terceiros produtos em aerossol, como inseticidas, cupin­cidas, óleos lubrificantes, produtos veterinários, agrícolas e cosméticos.

Também no segmento farmacêutico é possível contatar serviços de produ­ção. A Billy Farmacêutica Ltda. além dos próprios produtos da marca Euro­farma, presta serviços de fabricação para terceiros, de produtos veterinários e fármacos. A terceirização responde por cerca de 30% da produção da empresa. Os clientes fornecem as matérias-primas, formulações e instru­ções de fabricação. Com freqüência, antes da comercialização, executam análises para controle da qualidade do produto manufaturado.

Algumas indústrias terceirizam apenas algumas etapas do seu processo, como a recuperação de solventes. A solução mais econômica e ambien­talmente segura para a destinação de solventes contaminados é sua reci­clagem de acordo com as orientações e disposições legais existentes. A Adesol Produtos Químicos Ltda. presta este serviço para indústrias químicas, seguindo os procedimentos exigidos pela Cetesb. São cobrados de R$ 0,50 a R$ 2,00 por litro de solvente recu­perado, dependendo do tipo de produto e do seu grau de contaminação. Exem­plos de solventes cujas recuperações são freqüentemente solicitadas in­cluem: álcoois, solventes aromáticos (tolueno e xileno), organoclorados (percloroetileno) e acetona.

Já a empresa Fulltev Ind. e Com. Ltda., instalada há 15 anos em Mauá-SP, especializou-se na recuperação de óleos térmicos sintéticos, de baixo e alto pontos de ebulição, sendo in­clusive, conforme informação de Rogério Piccoli, do departamento. comercial, indicada pela própria Dowtherm, fabricante do produto, para tal atividade. São contratantes desse serviço: Rhodia-Ster, DuPont e Basf, dentre outros. O óleo impuro é enviado à Fulltev para ser tratado, readquirindo suas características originais. Antes de devolvê-lo ao cliente, uma amostra é analisada pela própria Dowtherm para aprovação. O cliente recebe o produto purificado, e o resíduo removido, é incinerado. Recuperações de solventes como glicerol, etileno e propile­noglicol, ou plastificantes, como diisobutilftalato ou diisoctilftalato, também podem ser realizadas por essa prestadora. 

Para empresas que usam óleos solúveis em água, a Fulltev oferece serviços de destinação final do produto usado. Com autorização da Cetesb, após separação da mistura óleo/água, o fluido orgânico é incinerado, sendo fornecido à empresa o atestado refe­rente. A água é encaminhada à rede coletora da Sabesp, também com atestado de destinação. Os serviços são cobrados por litro de óleo processado, sendo o valor calculado em função do seu estado de degradação. Para presta­ção desses serviços, a empresa conta com uma unidade de evaporação em aço inox 304, com capacidade de 1,5 toneladas por dia, e duas unidades de destilação, uma descontínua e outra contínua, com capacidades de duas e 12 toneladas por dia, respectivamente.

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