Cuca Jorge “O desenvolvimento econômico do Brasil provoca aumento na demanda por produtos químicos, em especial das resinas plásticas”, concorda o consultor Lauro Moreira, representante da consultoria internacional Parpinelli Tecnon para o Brasil. Além das boas opor­tunidades de investimentos em vários ramos, como o de alimentos e tratamento de água, ele salienta o efeito multi­plicador de empregos para profissionais qualificados na área química, importante fator de transferência tecnológica. “Além disso, o Brasil se livrou do fantasma da variação cambial, ao contrário da Argentina”, comentou.

Mesmo imune às flutuações cam­biais, os brasileiros acompanham com apreensão as manobras dos Estados Unidos para conseguir o chamado “pouso suave” da economia. Já se emitem sinais de desaquecimento da atividade produtiva na América do Norte, provocando a redução dos juros primários pelo Federal Reserve. Embora o governo americano tenha nova tripu­lação, o manche do Fed continua nas mãos cautelosas de Alan Greenspan. 

Moreira: oferta mundial de nafta será confortável até 2005

Resta saber se a equipe do republicano George W. Bush manterá a tradição partidária de reduzir ao mínimo sua atuação no ambiente de negócios, ao contrário dos democratas, usualmente intervencionistas. Qualquer “barbei­ragem” nos próximos meses provocará “aterrissagem forçada” da economia americana, deprimindo os negócios em escala mundial, inaugurando período de crise.

“Durante os próximos dois anos a recessão americana será o fator deter­minante para investimentos no mundo”, disse Unger. Apesar disso, se houver um enfraquecimento do dólar frente ao euro, os efeitos nas exportações brasileiras podem ser positivos. O pior dos mundos seria a combinação de recessão ameri­cana profunda combinada com crise local de liquidez, como aconteceu em agosto de 1998. “A situação brasileira já melhorou muito, mas ainda há compro­missos da ordem de US$ 55 bilhões a saldar”, avaliou. “Se houver o soft landing (pouso suave), não haverá nenhum problema.”
O desenvolvimento econômico do País é vital para o setor químico. Segundo Unger, a elasticidade média química e petroquímica é de 2,5 vezes o cresci­mento do PIB. Para cada ponto percen­tual de incremento no PIB, a atividade química nacional cresce 2,5 pontos.

“Se houver forte recessão nos EUA, a demanda por produtos químicos e petroquímicos do Oriente vai cair, derrubando o preço internacional da nafta e também o desses produtos”, comentou Moreira. O excesso de oferta pode ser perigoso para mercados pouco prote­gidos como o brasileiro.
Superada satisfatoriamente a reces­são dos EUA, em 2002 a variável política interna ganha a prioridade nas avaliações de projetos de investimentos. “Caso um partido totalmente contrário à orientação econômica atual vença a eleição presi­dencial, o que considero improvável, poderia haver retração de inves­ti­mentos”, comentou Unger.

“O Brasil já é reconhecido como politicamente estável, faltando conso­lidar a economia e melhorar a distri­buição de renda”, afirmou Armando Guedes Coelho, diretor da área química do grupo Suzano. “A China, por exem­plo, ainda tem muito a fazer na área política.” Para ele, a sucessão presi­dencial poderá gerar alguma turbulência de curta duração, de baixo impacto sobre planos empresariais de longo prazo.

Cuca Jorge

Guedes Coelho: condensados naturais podem atender aumento da demanda por olefinas

A maior preocupação de Coelho consiste no crônico déficit comercial do Brasil, para o qual o setor químico concorreu com US$ 6,6 bilhões no ano passado, segundo estatísticas da Abi­quim. “Talvez seja preciso limitar a abertura comercial, por meio de cotas ou de adicionais alfandegários”, disse. A preocupação se justifica pelo fato de o País ser bom produtor, até exportador de commodities, mas importador de especialidades. “Mesmo que as con­dições para investimento sejam favorá­veis, não haveria como fazer esses produtos no País, por falta de tecnologia disponível”, lamentou.

Restringindo a análise às commo­dities petroquímicas, Coelho vê amplas possibilidades de desenvolvimento para o Brasil, bastando garantir o acesso a matérias-primas com volume e preços razoáveis. “Poucos países têm mercado interno e estabilidade política como o Brasil”, disse, citando o México como semelhante, este com a vantagem de ser exportador de petróleo e próximo dos EUA. 

“O Brasil não tem vantagens reais para justificar investimentos pesados em petroquímica”, afirma Thomas Unger. A baixa disponibilidade de gás natural próxima dos centros produtores e de nafta encarece as operações. Nem os investimentos declarados para o aumen­to da produção nacional de petróleo nos próximos anos podem melhorar a situação. “A elasticidade de consumo de petroquímicos é bem maior que a de gasolina, portanto, mesmo com a sonhada auto-suficiência o Brasil continuará a importar nafta”, afirmou, desaconselhando investir em novas centrais com carga líquida. “Isso só seria viável se fosse feito acordo com algum grande produtor mundial de nafta, garantindo o suprimento a preço ade­quado”, comentou, mencionando a sobra de nafta em poder da Repsol/YPF na Argentina.

Além do problema de suprimento, Unger considera inevitável a desnacio­nalização do setor, mesmo nas commo­dities. “Petroquímica é atividade globali­zada, as empresas precisam integrar produções feitas em vários lugares do mundo para suportar a alternância típica de fases de alta e de baixa rentabilidade”, explicou. Mesmo em âmbito interna­cional, a concentração de produtores já é notória, levando ao aparecimento de conglomerados gigantescos, a exemplo de Exxon/Mobil, Dow/Union Carbide, Basf/Montell, Total/Fina e outros. 

 
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