Resta saber se a equipe do republicano George W. Bush manterá a tradição partidária de reduzir ao mínimo sua atuação no ambiente de negócios, ao contrário dos democratas, usualmente intervencionistas. Qualquer “barbeiragem” nos próximos meses provocará “aterrissagem forçada” da economia americana, deprimindo os negócios em escala mundial, inaugurando período de crise. “Durante os próximos dois anos a recessão americana será o fator determinante para investimentos no mundo”, disse Unger. Apesar disso, se houver um enfraquecimento do dólar frente ao euro, os efeitos nas exportações brasileiras podem ser positivos. O pior dos mundos seria a combinação de recessão americana profunda combinada com crise local de liquidez, como aconteceu em agosto de 1998. “A situação brasileira já melhorou muito, mas ainda há compromissos da ordem de US$ 55 bilhões a saldar”, avaliou. “Se houver o soft landing (pouso suave), não haverá nenhum problema.” “Se houver forte recessão nos EUA, a demanda por produtos químicos e petroquímicos do Oriente vai cair, derrubando o preço internacional da nafta e também o desses produtos”, comentou Moreira. O excesso de oferta pode ser perigoso para mercados pouco protegidos como o brasileiro.
A maior preocupação de Coelho consiste no crônico déficit comercial do Brasil, para o qual o setor químico concorreu com US$ 6,6 bilhões no ano passado, segundo estatísticas da Abiquim. “Talvez seja preciso limitar a abertura comercial, por meio de cotas ou de adicionais alfandegários”, disse. A preocupação se justifica pelo fato de o País ser bom produtor, até exportador de commodities, mas importador de especialidades. “Mesmo que as condições para investimento sejam favoráveis, não haveria como fazer esses produtos no País, por falta de tecnologia disponível”, lamentou. Restringindo a análise às commodities petroquímicas, Coelho vê amplas possibilidades de desenvolvimento para o Brasil, bastando garantir o acesso a matérias-primas com volume e preços razoáveis. “Poucos países têm mercado interno e estabilidade política como o Brasil”, disse, citando o México como semelhante, este com a vantagem de ser exportador de petróleo e próximo dos EUA. “O Brasil não tem vantagens reais para justificar investimentos pesados em petroquímica”, afirma Thomas Unger. A baixa disponibilidade de gás natural próxima dos centros produtores e de nafta encarece as operações. Nem os investimentos declarados para o aumento da produção nacional de petróleo nos próximos anos podem melhorar a situação. “A elasticidade de consumo de petroquímicos é bem maior que a de gasolina, portanto, mesmo com a sonhada auto-suficiência o Brasil continuará a importar nafta”, afirmou, desaconselhando investir em novas centrais com carga líquida. “Isso só seria viável se fosse feito acordo com algum grande produtor mundial de nafta, garantindo o suprimento a preço adequado”, comentou, mencionando a sobra de nafta em poder da Repsol/YPF na Argentina. Além do problema de suprimento, Unger considera inevitável a desnacionalização do setor, mesmo nas commodities. “Petroquímica é atividade globalizada, as empresas precisam integrar produções feitas em vários lugares do mundo para suportar a alternância típica de fases de alta e de baixa rentabilidade”, explicou. Mesmo em âmbito internacional, a concentração de produtores já é notória, levando ao aparecimento de conglomerados gigantescos, a exemplo de Exxon/Mobil, Dow/Union Carbide, Basf/Montell, Total/Fina e outros.
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