Trabalho contínuo – Receber a certificação ISO 14000 não significa que o trabalho da empresa no campo ambiental está feito. “Ter o certificado não é sinônimo de excelência ambiental, mas atesta que a empresa está no caminho para isso”, comentou José Salvador da Silva Filho, gerente de certificação de sistemas da Fundação Vanzolini (www.vanzolini.org.br). Credenciada desde 1996 pelo Inmetro para auditorias de certificação na norma de ISO 14000, a fundação, nascida em 1967 para permitir prestação de serviços pelos professores de engenharia de produção da Escola Politécnica da USP, começou agora a perceber aumento de demanda para auditorias na norma ambiental. “Isso reflete exigências recentes de empresas junto aos seus fornecedores, como as montadoras de veículos”, afirmou. Até dezembro, a entidade já havia emitido 28 certificados.

Silva Filho: certificado não significa excelência ambiental

 

A Fundação Vanzolini atua apenas com auditorias de certificação e treinamento de auditores, sem prestar serviços paralelos de consultoria. “Entendemos que isso poderia comprometer a independência necessária para uma organização certificadora”, ponderou Silva Filho. A princípio, qualquer tipo de empresa pode solicitar a certificação ambiental, mesmo representando impacto ambiental insignificante, como escritórios de contabilidade. Qualidade e Ambiente avançam na integração
Obs: SST = saúde e segurança do trabalho

 “Um escritório desse tipo, por exemplo, consome copos descartáveis, usa água potável e tem veículos circulando pela cidade, que podem ser considerados impactos e devem ser equacionados visando minimização”, comentou. A fundação presta outros serviços, desvinculados dos processos de certificação.

Todos os certificados emitidos no Brasil são controlados pelo Inmetro, responsável por fiscalizar as empresas certificadoras atuantes no território nacional e também por realizar auditorias testemunhas por área de competência. “São auditorias idênticas às realizadas pelas certificadoras, porém conduzidas pelo Inmetro para verificar se não há divergências de métodos e resultados”, explicou. “É um controle de qualidade no setor.”

Algumas empresas contratam certificadoras acreditadas em outros países, deixando de reportar-se ao Inmetro. A primeira conseqüência disso é a impossibilidade de montar um cadastro centralizado de todas as detentoras de certificados ISO 14000 no Brasil. O QSP estima em 189 os certificados emitidos no sistema nacional, sob a tutela do Inmetro, enquanto a Vanzolini calcula o total (incluindo os emitidos no exterior para clientes brasileiros) em mais de 240.

Ao mesmo tempo, os especialistas consideram que a acreditação estrangeira pode ser interessante se existe uma pressão de mercado apenas em um país ou região. Isso já foi verificado pelas indústrias de celulose e papel, que se adaptaram rapidamente à exigência européia de contar com a ISO 14000. A rigor, o certificado emitido em qualquer lugar do mundo deveria ter o mesmo significado, já que a norma é mundial. Na prática, porém, revelam-se diferenças. “Como garantir que uma certificadora que nem tem escritório no Brasil faça auditorias com o mesmo rigor e sofra a mesma fiscalização que o Inmetro realiza por aqui?”, indagou Silva Filho. 

Ele também frisou o fato de nenhum certificado ter acreditação mundial. “Algumas certificadoras atuam em vários países, sendo acreditadas apenas nestes”, informou. A Fundação Vanzolini firmou acordo de cooperação com o IQNet, com sede em Genebra, entidade que atua em 25 países reunindo várias certificadoras às quais confere acreditação internacional. “Mais da metade dos certificados de gestão emitidos no mundo têm origem nos membros da IQNet”, disse Silva Filho. Todos os certificados emitidos pela fundação são também certificados pelo IQNet.
A acreditação fora do sistema brasileiro já foi mais popular. Hoje em dia o Inmetro já é reconhecido como competente no exterior. Além disso, alguns programas de incentivos oficiais no Brasil exigem certificação de qualidade e gestão ambiental chancelada pelo instituto, segundo Silva Filho, citando o caso da Zona Franca de Manaus-AM. 

Outro fator que precisa ser mencionado é o custo da emissão do certificado. “Até há alguns meses, o Inmetro cobrava uma taxa de 10% homogênea para qualquer certificado, encarecendo demais o processo e incentivando a busca de certificação no exterior”, comentou Francesco De Cicco. “Com a pressão das certificadoras, essa posição foi revista, e o Inmetro passou a usar uma tabela escalonada, conforme o tamanho do projeto, tornando o custo igual ao do exterior.”

De Cicco: a tendência é unir a gestão da qualidade àmbiental

Integração de sistemas – A tendência atual é a integração dos sistemas de gestão de qualidade, ambiente e saúde/segurança. “Na verdade não dá para separar essas áreas que são interdependentes”, comentou Francesco De Cicco, do QSP. “Como delimitar a influência das falhas humanas e das falhas de equipamentos, por exemplo?”. Ele explicou a importância metodológica de separar esses campos porque representam focos de interesse, mais ou menos importantes conforme o ramo de atividade empresarial. “Mas no tema de gestão isso é pouco variável, há muitos pontos comuns”. O tripé básico da globalização desses sistemas consiste na elaboração de normas homogêneas, padronização das auditorias e do treinamento dos auditores. “Sempre haverá uma base comum a todos e elementos específicos por ramo de atividade ou empresa”, avaliou.

“Já fazemos auditorias de certificação conjuntas de ISO 9000 e ISO 14000, usando equipes com habilitação multidisciplinar”, comentou José Salvador da Silva Filho, da Fundação Vanzolini. “Está sendo criada a norma ISO 19011 para auditoria única das duas normas, com certificado único”, disse De Cicco. O campo da saúde e segurança ocupacional não conta com normatização ISO e, provavelmente, não contará. O conselho mundial da organização não aprovou a criação de um comitê técnico para estudar o caso e propor o início do processo. 
Segundo De Cicco, em 1999 houve crescimento significativo da demanda por certificados de sistemas de gestão de segurança e saúde ocupacional em todo o mundo, tendo em vista a necessidade de melhorar o relacionamento interno nas companhias e com os sindicatos laborais. “Também é forte a preocupação de adotar um sistema eficaz de prevenção de acidentes”, comentou.

Essa preocupação tornou-se significativa a partir de 1996, a ponto de cada entidade certificadora ter criado seu sistema próprio de auditoria no tema, sempre tendo por base a norma inglesa BS 8800. “Trata-se de guia de diretrizes para a área”, explicou De Cicco. Como conseqüência prática, as grandes certificadoras se uniram para criar a norma comum OHSAS 18001, totalmente desvinculada da ISO. “Atualmente, muitas empresas buscam certificação na 18001, que já está sendo aceita por alguns setores até no Brasil”, disse.


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