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Do mesmo modo que o aterro Sasa, o da Ecosistema, na vizinha São José dos Campos-SP, em operação desde 1986, foi construído em terreno com camadas naturais de argila vermelha, mais permeáveis, e roxa, mais compactas. Essas propriedades geológicas, aliadas à hidrogeologia da região, são tão importantes como a sua proximidade ou não de centros industriais. No caso dos dois aterros citados, além da região do Vale do Paraíba, a pequena distância da capital paulista (de 100 a 150 km) também lhes garantem bons negócios.
A central paulista, com vida útil de cerca de 40 anos, seguirá o mesmo princípio da CTR Curitiba, também de propriedade da empresa, já em operação há cinco anos e mais voltada para resíduos do Sul do País. De acordo com o diretor-presidente da Cavo, Carlos Roberto Fernandes, a intenção é enveredar pela estratégia do TWM, ou total waste management (gerenciamento total de resíduos). “Já temos como cliente TWM a Audi-Volkswagen, em Curitiba”, afirma Fernandes. Em resumo, isso significa tornar-se responsável total pelo resíduo do cliente, não importando seu destino, se aterro, incineração, reciclagem ou co-processamento. Como parte da estratégia TWM, e seguindo o exemplo da CTR curitibana, a de Caieiras contará com estação de pré-tratamento de resíduos. Nela, adequa-se o resíduo para o aterro normalmente com cimento ou ainda argila, cal ou sulfato de sódio em misturadores. Na chamada estabilização, corrigem-se parâmetros, como o pH, para minimizar o potencial contaminante. Na solidificação, mistura-se cimento e remove-se umidade para retirar líquidos livres nos resíduos. No microencapsulamento, ou inertização, com mistura fixa-se o contaminante, sobretudo os metais, dentro da massa do cimento para impossibilitar a sua lixiviação com o chorume. Outra tecnologia presente na CTR será a de blendagem de resíduos para co-processamento em fornos de clínquer de cimento. Em Curitiba, a Cavo se utiliza de fornos da Votorantim, mas em São Paulo ainda não está definido o destino. Poderá recorrer, inclusive, a alguma cimenteira do grupo Camargo Corrêa, como a Cauê, de Pedro Leopoldo-MG. Com uma área de 350 hectares no extremo noroeste de Caieiras, além de aterro classe 1 e outro classe 2 haverá no local sistemas de estocagem, armazenamento e tratamento de resíduos, bem como estações de tratamento primário e biológico para tratar chorume, e sistema para canalizar e queimar os gases. Especificamente, no aterro classe 1, sua área contempla 70 mil m² e a capacidade de armazenamento gira em torno de 180 mil m³ de resíduos. No de classe 2, a capacidade atinge 22 milhões de m³. O projeto foi concebido no sistema de valas cobertas, com drenos, e todo o aqüífero é monitorado por poços subterrâneos. De acordo com o diretor-presidente Fernandes, embora a CTR também vá atender o lixo doméstico da região de Caieiras, e até de São Paulo, o propósito da Cavo é focar sua atuação no mercado privado. Anteriormente responsável pela coleta e varrição de ruas em São Paulo, e até hoje nas cidades de Curitiba, São Vicente e Praia Grande-SP, a Cavo tem como idéia central agregar mais valor aos seus serviços e tornar-se empresa especializada em meio ambiente. Faz parte desse novo objetivo a participação em concessões privadas de saneamento, como a de água e esgotos já de sua responsabilidade em Itu-SP, e as estações de queima de resíduos hospitalares por processo eletrotérmico em São Paulo, com capacidade de 100 t/dia, e outra por microondas em Campinas-SP (10 t/dia). No caso dos resíduos industriais, “agregar valor” significa poder praticar os preços médios atuais de disposição em aterros no Brasil: de R$ 180 a R$ 200/t no classe 1; de R$ 80 a R$ 130/t do classe 2; e R$ 40 a R$ 80/t do classe 3. A opinião de Gianesi pode ser mais pormenorizada. Já corrente nos Estados Unidos e Europa, e em período de transição no Brasil, uma etapa anterior à disposição, de inertização, torna-se a melhor saída para imobilizar o poder de risco dos resíduos. Nos Estados Unidos, diz Gianesi, o comum é a estabilização e solidificação, já na Europa, técnicas de microencapsulamento são mais empregadas. Para ele, ambas as opções têm o mesmo objetivo: reduzir o classe 1 para classe 2, ou este para classe 3. “Com essas tecnologias, apenas um aterro de classe 2, com apenas uma impermeabilização com manta de PEAD, já é suficiente para receber resíduo antes perigoso”, completa o gerente. E é na tendência da inertização que a Ecosistema concentra seus planos de investimentos. Apesar de seu aterro de classe 1 já operar com metade da capacidade total para 200 mil t ocupada, restando-lhe apenas mais 8 anos, Gianesi não prevê ampliações. Hoje o aterro recebe uma média de 1.000 t/mês de resíduo classe 1 (lodos de tratamento de efluentes e galvânicos, borras de tinta, solos contaminados, etc), 600 t/mês do classe 2 e 5.500 t/mês de areia de fundição (classe 2). Apenas ampliar a capacidade para dispor classe 2 já seria suficiente para aumentos de demanda. Embora o novo projeto da Sasa também contemple uma central de tratamento de resíduos, o superintendente Breno Palma não concorda com parte da visão de Gianesi, da Ecosistema. Para ele, a inertização não garante uma disposição segura em aterro menos rigoroso. “Mesmo microencapsulados, ninguém pode ter certeza que algum dia substâncias tóxicas não se desprendam”, diz. “Não por menos, os países desenvolvidos exigem a inertização dos resíduos classe 1, mas não permitem que eles sejam dispostos em aterro classe 2.” E, para ele, como de costume, a legislação brasileira tende a se atualizar conforme as normas internacionais. O sistema de microencapsulamento da Sasa, com tecnologia da matriz americana, também se baseia em moagem e mistura com cimento. Começou a ser utilizado em 1997 para reduzir lodo com metais de classe 2 para classe 3 para um cliente estatal. Aliás, segundo Breno Palma, todos os resíduos classe 1 passarão pelo pré-tratamento para ir ao novo aterro. E muito mais por uma questão técnica: o resíduo fica mais estável, ocupa melhor o espaço da célula e diminui a umidade, evitando chorume. Além do microencapsulamento, a central também faz estabilização, solidificação e acertos de pH e vai operar esses serviços para terceiros. Mercado já responsável pelo co-processamento de cerca de 10 mil t/mês de resíduos no Brasil, a demanda ascendente tem atraído o interesse de grandes grupos estrangeiros. Para começar, a Teris do Brasil, joint venture entre Suez Lyonnaise des Eaux e Rhodia, já proprietária de incinerador em Taboão da Serra-SP, investe em unidade de blendagem de resíduos (na qual são preparados para entrar nos fornos) no Rio de Janeiro, com capacidade para 50 mil t/ano e para entrar em funcionamento em 2001. O outro grande investimento na área também provêm de grupo francês: a Vivendi, maior empresa do mundo em saneamento ambiental, tornou-se controladora majoritária no ano passado da Resicontrol, de Sorocaba-SP, especializada em blendagem de resíduos e até então de propriedade da holding ECR, comandada pelo Chase Manhattan Bank. Desde o final de 1996 a única empresa do estado de São Paulo licenciada pela Cetesb para a blendagem de co-processamento, a Resicontrol prepara os resíduos para queima no forno de clínquer da Companhia de Cimento Ribeirão Grande, de Capão Bonito, no oeste paulista. As misturas realizadas em Sorocaba adequam os resíduos levando em conta o pH, o PCI (medida de poder energético) e o conteúdo de contaminantes, sobretudo de metais (não opera com resíduos galvânicos). A blendagem de resíduos líquidos e sólidos, com poder energético, como borras de tinta e oleosas, resinas e solventes, fornece cerca de 1.200 t/mês de blendas líquidas para a cimenteira substituir parte de seu combustível (óleo pesado e petrocoque). Outra preocupação nas formulações é controlar o limite de cloro e enxofre, os quais em demasia podem vitrificar a parede do forno, provocando entupimentos perigosos.
De acordo com o diretor, além dessa diversificação na operação, outra mudança importante na Resicontrol-Onyx, depois da compra pela Vivendi, contempla sua estratégia comercial. “Agora somos uma empresa de gerenciamento completo de resíduos”, diz Tondowski. Em suma, isso significa assumir responsabilidade pelo destino de qualquer tipo de resíduo, e não apenas os possíveis de serem co-processados. Para tornar isso possível, a Resicontrol já possui acordos operacionais com os aterros da Sasa e da Ecosistema e com o incinerador da Bayer, em Belford Roxo-RJ. Ainda no conceito de gerenciamento total, faz parte da divisão de resíduos da Vivendi uma empresa de transporte de resíduos classe 2 e 3, a Intranscol, e uma nova unidade em Pindamonhangaba-SP, a Tecori, para descontaminação de transformadores, capacitores e terras contaminadas por ascarel. O gerenciamento dos resíduos pode ainda ser conjugado com os serviços de outras empresas da Vivendi, especializadas em tratamento de água e efluentes, a OTV/US Filter. Com essa abrangência, a Vivendi possui um cliente no Brasil: a Solvay. |
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