Aterros – O preço médio cobrado pelos incineradores, de acordo com Bert Neumeier, varia principalmente conforme o poder calorífico da carga (quanto menor mais energia demanda), a quantidade de resíduo, de cinza gerada, de cloro e de enxofre. E em seu preço estará embutido não só a queima, mas também os custos com análises químicas, com embalagens para os resíduos (fibra de papelão e plástico reciclado) e com a disposição em aterros da escória (residual inorgânico classe 2) e das cinzas (classe 1).

Para a Basf, aliás, a disposição em aterros implica até gastos com transporte, visto que por enquanto a escória é destinada para o aterro Sasa, em Tremembé-SP, enquanto as cinzas, que contêm ainda metais, ficam estocadas na própria Basf. Para solucionar isso, a empresa aguarda a licença de funcionamento de seu próprio aterro classe 2 no complexo de Guaratinguetá. Quando entrar em operação, o aterro receberá as cinzas para tratamento físico-químico de modo a tornarem-se classe 2 por encapsulamento, e logicamente toda a escória gerada.

A Clariant, a primeira no País a colocar para funcionar um incinerador rotativo InterUhde em 1987, quando ainda era Hoechst, transporta as cinzas residuais de Suzano-SP, onde o equipamento está instalado, até o aterro classe 1 próprio em Rezende-RJ. Outras empresas, porém, possuem aterros classe 1 junto aos incineradores: a Teris, com aterro coberto com telhado, capaz de dispor de 5 mil t de cinzas, e também a Bayer, em Belford Roxo-RJ.

Nesta última, o incinerador InterUhde, em operação desde 1992 no complexo de 2 milhões de m² da Baixada Fluminense, dispõe no aterro as cinzas classe 1 resultantes da queima de parte das 3.600 t/ano (cada 3 t de resíduo gera 1 t de cinzas). Cerca de 20% dos resíduos são da própria Bayer e o restante de terceiros. Ainda 20% da queima é de ascarel líquido, cuja licença de incineração foi dada em 1994 pela Fundação Estadual de Engenharia de Meio Ambiente (Feema). Neste ano, por sinal, haverá grande demanda por queima de PCBs, já que grandes detentores do óleo (Chesf, CSN, entre outros) fazem concorrência entre os licenciados.

Também dependendo do poder calorífico e da quantidade e constituição dos resíduos, o preço da Bayer, segundo Miguel Spohr, oscila em torno de US$ 1,00 o kg incinerado. Ele chama a atenção para os gastos elevados com manipulação e segurança. E acredita que esses procedimentos estão melhor assegurados com a conquista da ISO 9002 em 1995, responsável pela rastreabilidade de segurança de operação, e pela ISO 14001, cujo complexo carioca inteiro estará certificado até outubro.

Sob controle – Se as empresas creditam boa parte do encarecimento da incineração às exigências de órgãos ambientais, pelo menos a Cetesb, de São Paulo, se defende. Conforme explica a gerente da divisão de apoio às ações de controle, Maria Laís Guzzo Leão, a Cetesb não faz nada mais do que normalmente se exige no exterior. “Procuramos seguir os procedimentos das agências americanas (EPA) e das européias”, diz.

Cuca Jorge

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Maria Laís: exigência no padrão internacional

A regulamentação brasileira se baseia na norma NBR 11.175, de dezembro de 1989, de padrões de desempenho de incineração de resíduos perigosos. Na norma, por exemplo, estão os padrões de emissão de HCl , HF, CO, SOx, NOx, e materiais particulados. Também define o monitoramento contínuo, requisitos de operação e orienta a respeito do chamado teste de queima.

No teste de queima, normalmente feito de dois em dois anos, o incinerador opera sob as piores condições. “Se nesse teste a empresa conseguir ter seus padrões de emissão dentro dos limites, em qualquer outra operação ela diretamente estará apta”, afirmou o gerente do setor de ar, ruído e vibrações da Cetesb, Carlos Eduardo Komatsu. O resíduo utilizado no teste será então de baixo poder calorífico e com alta emissão de material particulado e dos outros poluentes. “Ele deverá provar que consegue aliar o controle de emissões com capacidade de destruição”, completa. Caso passem no teste, realizado também quando são ampliados, os incineradores recebem atestado de eficiência de 99,9999%.

fotos: divulgação
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Spohr (acima): incinerador da Bayer cobra em média US$ 1/Kg queimado


Apesar do rigor, e de os fiscais da Cetesb poderem exigir novos testes de queima caso for necessário, Maria Laís garante que pelo menos os incineradores de São Paulo estão sob controle. “Por serem poucos, é muito fácil ter acesso à operação”, diz. Bom ressaltar que além dos incineradores que prestam serviços a terceiros (Eli Lilly, Clariant, Basf e Teris), a Cetesb também controla os cativos da Rhodia Paulínia, da Solvay, de Santo André-SP, e o da Carbocloro, de Cubatão-SP, este último em processo de licenciamento.

A única exceção com relação ao controle diz respeito à emissão de dioxinas e furanos. Apenas quando sente necessidade a Cetesb exige testes, realizados apenas por alguns laboratórios no Brasil, como o da Rhodia, em Paulínia-SP, e o do Cenpes, na Petrobrás do Rio. Mas em breve a própria Cetesb poderá realizá-lo em São Paulo em seu laboratório, conforme informa Carlos Komatsu. “Os equipamentos já estão sendo instalados”, diz.

Cuca Jorge

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Komatsu: Cetesb vai realizar teste de dioxinas

Embora muito se comente sobre as dioxinas e furanos, porém, em incineradores esse não chega a ser um problema grave. Isso porque todos esses fornos operam com um equipamento chamado Quencher, capaz de reduzir em menos de 1 segundo a temperatura de 1.200ºC, dos gases finais da incineração, para 80ºC. A medida evita originar compostos cancerígenos, normalmente produzidos em temperatura na faixa dos 700ºC. Outra hipótese de formação das dioxinas e furanos é pelo resfriamento lento, impossível de ocorrer em razão da rapidez do Quencher, que opera com grande quantidade de água.


NORDESTE INCINERA COM
FORNOS DA CETREL E CINAL

Os incineradores no Nordeste, Bahia (Cetrel) e Alagoas (Cinal), por coincidência devem seguir uma trajetória semelhante. Quando começaram a se envolver com incineração, primeiro optaram pela carga líquida, visando sobretudo os organoclorados. Caso a Cinal venha a instalar a prometida unidade de sólidos, seguirá o mesmo rumo da Central de Tratamento de Efluentes (Cetrel), que, para incinerar os resíduos do pólo de Camaçari, na Bahia, inaugurou seu incinerador de líquidos em 1991 e o de sólidos apenas em 1998.

O incinerador de líquidos da central baiana, com capacidade de 10 mil t/ano (720 kg/h), foi instalado em função dos resíduos da Trikem e da Griffin, usuárias de 90% da capacidade operacional do equipamento. Ambas fornecem resíduos organoclorados: a Trikem, por tubulação direta, envia restos da fabricação de MVC; e a Griffin, por caminhões isotanques, resíduos dos agroquímicos lá produzidos, contendo cloro anilinas.

Estes e outros resíduos líquidos (o ascarel, por exemplo) são estocados em tanques pressurizados e inertizados com nitrogênio, nas condições de temperatura e pressão que satisfazem os bicos irrigantes (injetores) do forno e a segurança da estocagem. São então bombeados até o topo do forno, de onde são conduzidos, com vapor ou ar, para um ou mais injetores. São cinco para resíduos líquidos e um para gases, esclarece a Cetrel. Tal diversidade permite ao incinerador operar, simultaneamente, com cinco resíduos diferentes e controles independentes da vazão.

Ressalta o engenheiro Giorgio Sampaio, responsável pelas unidades de incineração da Cetrel, o rigoroso monitoramento on-line feito durante a alimentação, em função da quantidade de oxigênio e dos níveis de pressão e temperatura. “O controle da pressão é indispensável para manter o sistema operando abaixo da pressão atmosférica”, esclarece. Nessa condição, lembra, não há possibilidade de ocorrência de vazamentos capazes de projetar vapores organoclorados na atmosfera.

O forno de fluxo descendente é composto por duas câmaras, a primária e a de pós-combustão, que oferecem tempo de residência total de 4 segundos a 1.200ºC. Entre as duas câmaras há uma restrição que melhora a turbulência dentro do forno de modo a garantir uma boa mistura entre o combustível, constituído pelo próprio resíduo em processo de carbonização, e o ar. No topo do forno ficam dois queimadores e, na sua parte inferior, um terceiro.

Ao final do percurso formado pelas duas câmaras o resíduo orgânico é transformado em CO e CO2. Restam os resíduos organoclorados, a esta altura em forma de gases clorados. Esses gases, à medida que o processo avança, são parcialmente absorvidos pela própria água de resfriamento e da absorção resulta uma solução contendo cerca de 15% de ácido clorídrico.

Os clorados contidos nos gases quentes chegam ao Quencher, onde sua temperatura, mediante contato com a resfriadora solução de ácido clorídrico, é reduzida de 1.250ºC para cerca de 90ºC, aumentando, paralelamente, o teor de ácido clorídrico na solução. O HCl e Cl2 persistentes na forma gasosa são retidos na torre de absorção. A seguir são neutralizados com soda cáustica e tratados com uréia industrial e sulfito de sódio, removendo-se o material particulado. O gás neutralizado segue para um tanque onde ocorre a separação das partículas líquidas e se impede por um separador de névoa o arraste de partículas menores.

 
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