Química

18 de setembro de 2010

Reúso de Água – Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato

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Publicado por: Marcelo Furtado
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    or mais que se fale e faça marketing sobre o assunto, o reúso de água industrial é muito pontual no Brasil, limitado a alguns casos específicos, em que a necessidade estratégico-operacional se revelou mais importante do que o engajamento corporativo pelas causas ambientais. Isso é fácil de reparar ao se saber que várias grandes indústrias apenas há pouco tempo começaram a se dar conta de que o fato de terem água em abundância, de rios ou poços subterrâneos, não justifica o desperdício dos chamados sistemas abertos de consumo, pelos quais o insumo é captado, condicionado para o uso, utilizado, novamente tratado (ou não…) e por fim descartado, sem nenhum tipo de recirculação.

    A motivação para as alterações no comportamento de algumas indústrias é bastante pragmática. Em primeiro lugar, o que move “corações e mentes” é o medo de ficar sem água para a produção, em regiões onde o crescimento populacional e o consequente aumento na demanda por abastecimento público tornam crítica a concorrência pelo manancial. Nessa linha, basta lembrar do projeto Aquapolo, que vai recuperar água de esgoto em uma cara e delicada operação na ETE ABC, da Sabesp, como única alternativa para garantir água à expansão do polo petroquímico de Mauá-SP (ver QD-494, fevereiro de 2010). Em segundo lugar, pode-se creditar também como causas das mudanças – esparsas, mas crescentes – o encarecimento do custo da água, para quem precisa pagar o fornecimento a companhias de saneamento, e o início da cobrança pela captação em algumas regiões, fato que promete se expandir por todo o país, fazendo cumprir o plano da Agência Nacional das Águas (ANA).

    Provavelmente o exemplo mais atual de comportamento que espelha a relação da indústria química com a água acontece onde há um dos maiores consumos do país, na central de matérias-primas petroquímicas do polo de Camaçari, na Unidade de Insumos Básicos (Unib) da Braskem, a antiga Copene. Neste momento, encontra-se em fase de projeto básico o início do quase fechamento total do circuito de águas na central. Trata-se de trabalho dividido em três fases que pretende aproveitar melhor o volume altíssimo de consumo no polo, onde a Unib precisa captar 3.200 m3/h do Rio Joanes e extrair 1.200 m3/h de poços para garantir os 2.000 m3/h absorvidos por ela própria e os restantes 2.400 m3 para as empresas de segunda geração do polo, das quais possui a responsabilidade pelo fornecimento.

    Começa pela chuva – De acordo com o coordenador do projeto na Unib, o engenheiro de meio ambiente Sérgio Hortélio, a primeira etapa, a ser concluída até o segundo semestre de 2011, será a mais fácil a ser executada e baseia-se no aproveitamento da água de chuva e de metade dos efluentes inorgânicos, que devem totalizar um volume recuperado com variação na faixa dos 500 m3/h (estiagem) e 800 m3/h (época de chuva). Para tanto, a Braskem construirá uma rede de captação que destinará todo efluente pluvial e os inorgânicos a uma grande bacia de contenção preexistente com capacidade de armazenar 1.600.000 m3 de água.

    Quando o volume captado atinge um determinado pico, em épocas de chuva, a barragem será aberta automaticamente. Dentro da bacia, um sistema de captação flutuante bombeia a água 24 horas por dia para a bateria de filtros multimídia que condiciona o efluente para reúso nas torres de resfriamento. Em épocas de estiagem, o volume da bacia é consumido, sob o controle remoto da sala de comando da ETE da Cetrel, de forma que mantenha um volume mínimo necessário para a operação da barragem durante todo o ano. Nessa mesma época de seca, a comporta da represa permanece fechada e apenas os efluentes inorgânicos são direcionados para tratamento na estação da Cetrel.

    Essa primeira etapa, segundo Hortélio, está sendo reorçada, com base em uma previsão inicial de investimento em torno de R$ 20 milhões. “Estamos criando alternativas de negociação para baixar um pouco o preço da obra”, afirmou. Já a segunda fase, prevista para ser concluída um ano seguinte à primeira (2012) e que pode demandar um aporte de até R$ 35 milhões, será concomitante com a terceira e última etapa. Para começar, o plano é passar a recuperar a maior parte dos efluentes orgânicos, cerca de 300 m3/h do total de 350 m3 gerados pela Unib. A tecnologia para o tratamento já foi até escolhida: serão reatores de lodo ativado em batelada (SBR, sequencial batch reactors), um sistema compacto que une em um só tanque o reator biológico com o decantador secundário, e que conta com facilidade de automação, além de gerar pouco lodo e alta remoção de compostos orgânicos, se comparados com o lodo ativado convencional.

    Química e Derivados, Sérgio Hortélio, Engenheiro de meio ambiente, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato

    Hortélio: Braskem vai recusar para aliviar o Rio Joanes em Camaçari

    Já a terceira etapa é agregar no tratamento do SBR a purga das torres e o efluente da regeneração dos sistemas de troca iônica da central petroquímica, fase que provavelmente deve contar também com novo sistema de desmineralização de sais por osmose reversa. Ao fim de toda a implantação do projeto, os atuais 550 m3/h de efluentes hoje gerados pela Unib e tratados pela Cetrel (também pertencente à Odebrecht e responsável pelo tratamento de efluentes e gerenciamento de resíduos do polo) serão reduzidos para no máximo 80 m3/h, limitados a alguns efluentes mais difíceis e a concentrados salinos. “Mas no futuro nada impede que fechemos totalmente o ciclo, restringindo as perdas à evaporação”, disse Hortélio.

    O grande motivo para a Braskem chegar ao projeto de reúso, segundo o engenheiro, foi a preocupação com o crescimento populacional da região metropolitana de Salvador, que usa como importante ponto de captação também o Rio Joanes. “Somos pressionados a diminuir a dependência do rio”, disse. A situação, aliás, fez com que a Braskem fizesse uma nova adutora, em operação há cerca de um ano, para diminuir o impacto da extração. Além disso, a preocupação em tornar mais inteligente o uso da água no polo vem em um crescendo que acabou por culminar no atual projeto: de 2002 para cá foi reduzida pela metade a geração de efluentes na Unib, de 1.000 m3/h para os já mencionados 550 m3/h.


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