Química

16 de outubro de 2011

IYC 2011 – Química Verde – Preocupação ambiental incentiva a renovação de conceitos e práticas

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    maneira como se pensa a Química e as formas de usá-la nas atividades industriais ou mesmo nas escolas estão em plena revolução. Nascida na década de 90, a ideia da chamada “química verde” não ficou presa nos ambientes acadêmicos ou nas linhas de produção, mas se esparramou por toda a sociedade de forma silenciosa, mas determinada. Atualmente, nenhuma iniciativa ligada ao setor pode ignorá-la sob pena de ver rejeitadas as suas propostas.

    É possível enxergar uma coincidência do aparecimento da química verde com o ápice de uma fase histórica de rejeição ao conhecimento químico. A simples menção ao nome da ciência era motivo para alunos do ensino fundamental e médio torcerem o nariz. Quantas vezes não foram exaltadas as qualidades de um produto pelo fato de ele ser isento de “qualquer química”, associando ignorância científica com um tosco misticismo. Aceita a associação, o surgimento da química verde seria resultado de uma profunda autocrítica do setor, apontando agora para outra direção: a redução do impacto da atividade humana no planeta com a aplicação da ciência e da sua capacidade de renovar seu leque de conhecimentos.

    Ampliando a visão histórica, basta lembrar que a Química era uma das ciências de maior prestígio no começo do século passado. Vinham dos químicos os medicamentos que curavam muitas doenças, foram descobertos os fertilizantes sintéticos para multiplicar a produção agrícola e afastar o fantasma da fome, a exemplo do celebrado processo Haber-Bosch. Surgiram novos materiais para uso em roupas e peças automotivas, enfim, a Química revolucionou a atividade humana naquela época.

    Esse prestígio todo durou até a década de 60, quando os sintomas da poluição industrial ficaram tão evidentes que não foi mais possível varrer a sujeira para debaixo do tapete. Aliás, era quase isso mesmo o que se fazia com os resíduos dos processos industriais: eram lançados nos rios ou enterrados em lixões (Veja reportagem sobre remediação ambiental nesta edição). Os desastres de Seveso (Itália, 1976) e Bophal (Índia, 1984) corroeram o que restava da boa imagem pública da atividade.

    Demorou até que a comunidade ligada à química percebesse a magnitude do problema. Pressionadas por legislações cada vez mais restritivas em saúde e meio ambiente, as indústrias adotaram medidas para controle e mitigação dos danos, mudaram seus processos e abandonaram os itens mais críticos, substituindo-os por outros menos agressivos. Foi o caso dos inseticidas organoclorados, por exemplo.

    A pressão da sociedade tomou a dianteira e colocou o setor na defensiva, reagindo às novas demandas. A proposta da química verde contempla esse tipo de ação, mas pretende ir além. Ao longo do tempo, a química poderá recuperar a liderança das mudanças e o prestígio que bem merece.

    Amplo escopo – O conceito de química verde é amplo e, por isso mesmo, difícil de definir. A ideia abrange toda e qualquer iniciativa que respeite pelo menos um de uma lista de doze princípios básicos (Veja o quadro abaixo), cuja observância deve ser sempre estimulada.

    “Em resumo: química verde é a química para o meio ambiente, ou seja, uma forma de atuar pensando na redução do impacto ambiental, gastando menos materiais e energia, evitando produtos tóxicos, usando de preferência fontes de origem renovável, com redução de rejeitos e de riscos”, explicou Reinaldo Camino Bazito, professor e pesquisador do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Ele e seus colegas de instituto Renato Sanchez Freire e Leandro Helgueira de Andrade decidiram, em 2006, criar a primeira Escola de Verão em Química Verde, que terá a sua quarta turma em janeiro/fevereiro de 2012.

    Bazito salienta não se tratar de uma nova área dentro da Química, mas uma abordagem nova para praticá-la. “Alguns cursos criaram a disciplina de química verde, mas esses conceitos precisam permear todas as disciplinas do curso”, comentou. “Vamos chegar lá, as disciplinas já estão se adaptando ao tema ambiental, é questão de tempo.” Apontando a necessidade de coletar e tratar com cuidado os resíduos dos laboratórios das faculdades, Bazito chega a indagar se os experimentos realizados são realmente necessários para a formação dos profissionais, ou se eles poderiam ser conduzidos de modo que gerassem um menor impacto ambiental.

    Fato relevante para o setor acadêmico é a existência de publicações científicas reconhecidas internacionalmente, a exemplo do periódico Green Chemistry. “Ele já tem um fator de impacto considerável, e está crescendo”, considerou o pesquisador.

    O avanço da química verde imprimirá um novo perfil aos profissionais da área. “Na visão tradicional, orientada para lidar com a poluição com base nos comandos oficiais (normas) e controle (padrões, métodos de tratamento e monitoramento), bastava saber química analítica, físico-química e algumas noções ambientais”, avaliou Bazito. O novo profissional precisa conhecer a fundo o produto e o processo de fabricação, a ciência e a tecnologia, dominar toda a química orgânica e inorgânica, acompanhar a evolução da ciência dos materiais (para novos catalisadores, por exemplo) e das ciências ambientais. “Ele precisa ser capaz de avaliar o impacto ambiental antes de fazer qualquer coisa, por meio de análises de ciclo de vida feitas criteriosamente”, considerou. Aliás, segundo Bazito, há uma carência em profissionais especializados nessas análises, que têm cunho multidisciplinar.

    Quando se atua na visão tradicional, incorre-se em custos cada vez mais elevados para reduzir a poluição gerada. “Quando a norma reduz o limite de emissão de uma substância de 100 ppm para 10 ppm, o custo dessa remoção geralmente é mais de dez vezes superior”, afirmou. Por isso, a química verde propõe reduzir a formação de poluentes desde o começo dos projetos, lançando mão de diferentes estratégias, como catalisadores específicos, solventes avançados entre outros.


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