Química

6 de novembro de 2001

Química fina: Empresários mantém produção local da Sanofi

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Publicado por: Quimica e Derivados
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    Uma atitude corajosa de empresários brasileiros preservou um dos últimos redutos produtivos da convalescente química fina nacional: a fábrica de insumos farmacêuticos da Sanofi Synthelabo, de Cosmópolis-SP. A um passo de ser fechada, por ordem da matriz francesa, a empresa foi adquirida em abril por um grupo de investidores, que a renomearam como Globe Química.

    Realizada pelos empresários Eugen Athias, Moisés Pinsky, Marcelo Joelsons, Marcos Chusyd e Jacques Sierkiersk, a negociação foi mais complicada do que se pode imaginar.
    Para ser ter uma idéia, conforme explicou o diretor industrial da Globe, João Carlos Victorelli, a venda foi concretizada depois de um longo processo de conversações, iniciado por volta de 1996. A decisão final pela compra (a fábrica está avaliada em US$ 15 milhões) só veio este ano em função de um aspecto fundamental: o desenvolvimento no Brasil do mercado de remédios genéricos.

    “Com a possibilidade de participar de um mercado em ascensão e de certo modo lucrativo, os empresários não desperdiçaram a chance de ter uma rara unidade de química fina nacional”, completou Victorelli. Segundo ele, depois de uma década bastante destrutiva para o setor, sobraram apenas oito dessas fábricas no Brasil.

    E, se não fosse o potencial dos genéricos, cujo preço inferior conseguido pela ausência de gastos com propaganda e desenvolvimento de fármacos, para Victorelli possivelmente a fábrica da Sanofi seria a próxima a ter suas portas fechadas. Isso porque uma política alfandegária considerada injusta pelo diretor estava inviabilizando qualquer produção nacional. Segundo ele, tanto as empresas de capital nacional como as grandes multinacionais descontinuaram sistematicamente suas sínteses no Brasil.

    “O governo sobretaxa a importação do insumo farmacêutico e isenta os fármacos”, afirmou o diretor geral da Globe Química, Jean Daniel Peter, ex-presidente da Union Carbide convidado para comandar a empreitada. Um exemplo da distorção apontada por ele pode ser observado na própria Globe. Para o recente início de sua produção de ácido acetiIsalicílico, a famosa aspirina, a empresa precisa importar os intermediários ácido salicílico com alíquota de 12% e anidrido acético, de 14,5%. Já os concorrentes importam a aspirina com alíquotas que variam de zero a 7,5%.

    “Queremos apenas igualdade de competição”, diz Peter. Caso contrário, para ele, o déficit do setor só vai crescer. Essa política, de acordo com o executivo, gera um déficit em produtos farmacêuticos e fármacos de US$ 2,5 bilhões anuais. Segundo Peter, em 1990 as importações brasileiras eram de US$ 80 milhões e em 2001 vão somar US$ 1,5 bilhão.

    A posição da Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma), porém, difere da visão pessimista de Jean Daniel Peter. Conforme explicou seu presidente executivo, Ciro Mortella, está havendo uma forte migração de unidades produtivas para o Brasil. “O câmbio favorece deslocamentos de fábricas de grupos globais instaladas em outros países latino-americanos”, diz. Ainda para Mortella, a própria taxação de intermediários só se aplica a uma lista limitada de insumos com produção local. Seria o caso do próprio ácido salicílico, fabricado pela Rhodia no Brasil.

    Outros problemas – Mas Jean Daniel Peter ainda encontra outras “falhas” na política governamental para o setor que intimidam um pouco os investimentos de longo prazo. Para começar, a garantia de qualidade dos insumos importados e utilizados largamente na produção de genéricos estaria comprometida. “O Brasil precisa criar mecanismos para controlar as matérias-primas, nos moldes do FDA americano”, diz.

    Com as crescentes importações de origem asiática e indiana, Peter considera um perigo real sobretudo para a população consumidora de genéricos e similares. Segundo ele, o índice de rejeição por qualidade de matérias-primas importadas chega a 35%. “A solução seria criar um certificado de qualidade e fortalecer principalmente a fiscalização sobre os produtos importados, mas também dos nacionais, cujo controle da mesma forma é falho”, alerta.

    Além da qualidade, o executivo aponta a questão tecnológica como fundamental. “O governo precisa incentivar os desenvolvimentos locais, caso contrário vamos continuar criando empregos apenas na Índia e na China”, reclama Peter. Independente de qualquer apoio, aliás, a Globe Química estabeleceu como estratégia o lançamento de quatro produtos por ano, sempre voltados para o mercado de genéricos.

    “Da nossa linha tradicional, quase todos os produtos, mais especificamente nove deles, já estão há 15 anos sendo fabricados”, lembra o diretor industrial, João Carlos Victorelli. A primeira fase desse projeto de renovação incluiu, para começar, a aspirina, cujo primeiro lote comercial de 3 t deixou a fábrica em novembro. Em unidade piloto está o cetoconazol, um antimicótico. O atenolol, antiarrítmico e betabloqueador, se encontra em escala laboratorial, da mesma forma que o fenproporex, um moderador de apetite.

    Para a produção de aspirina, a Globe também adquiriu uma outra fábrica da Sanofi, no Rio de Janeiro, que foi desmontada e instalada em Cosmópolis. O restante da unidade paulista, aliás, deve ser reformulada, tendo em vista que os reatores e demais equipamentos estão defasados tecnologicamente. E a se guiar pelo crescimento da empresa em 2001 de 15% (faturamento estimado de R$ 22 milhões), incrementos na produtividade serão necessários no futuro próximo.


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