Posto de Escuta

1 de julho de 2013

Posto de escuta: Pesquisa, ensino e desenvolvimento

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Publicado por: Albert Hahn
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    á alguns anos surgiu aqui no Brasil um triângulo potencialmente conflituoso envolvendo: uma empresa brasileira querendo adquirir determinado pacote tecnológico, obviamente pelo menor preço possível; o licenciador, cujo desejo era exatamente o oposto; e o INPI, que racionava de acordo com os interesses do país (transferência de tecnologia, balança de pagamento, competitividade do processo).

    Para poder chegar a um valor aceitável aos três, foi preciso primeiro estabelecer uma metodologia: como atribuir um valor para uma tecnologia? A consultoria contratada para opinar propôs como base de raciocínio o valor dos homens-ano de pesquisa embutidos no desenvolvimento, manutenção e extensão da tecnologia. Este valor teria que ser corrigido de maneira que também levasse em conta a contribuição da experiência operacional adquirida ao longo de cinco décadas de exploração do processo.

    Outro método proposto foi o de começar a calcular um valor para o acervo tecnológico que zerasse o valor presente da empresa, utilizando uma taxa interna de retorno estabelecida de comum acordo. O montante a ser efetivamente pago seria alguma fração do máximo assim calculado, a ser determinado por negociação. O detentor da tecnologia adotou uma atitude de completa transparência em relação tanto aos seus meios físicos de pesquisa e desenvolvimento quanto à sua estrutura de custos.

    Conclui-se que, assim como existe uma capacidade estado da arte para uma unidade de processo, função dos limites práticos de scale-up, existe também um volume de produção para uma determinada empresa – em geral, bem superior ao máximo tecnológico –, abaixo do qual se torna inviável arcar com o esforço de P&D necessário apenas para manter a competitividade de um dado acervo tecnológico. Sobretudo quando se trata de um produto de desempenho. Por exemplo, um fabricante de algum insumo usado na fabricação de papel precisa operar em seus laboratórios uma máquina de papel, um produtor de borracha sintética precisa de uma minifábrica de pneus etc.

    O grupo em questão havia adotado uma estrutura de pesquisa em três níveis:

    • Fundamental, para assuntos de importância comum às diversas divisões: métodos analíticos, modelização matemática etc. Boa parte era terceirizada a universidades;

    • Processo: redução dos investimentos e dos custos variáveis, extensão das capacidades single stream, propriedades do produto;

    • Aplicação: desde ensaios de bancada até a operação de diversos pilotos, alguns dos quais contínuos.

    No caso em questão, eram os números desse último nível de pesquisa que estavam por trás do processo de consolidação mundial em andamento. Logo de início, o consultor recebeu o recado: “Para poder operar um troço desses é preciso estar produzindo no mínimo…” e aí o gerente de desenvolvimento veio com uma tonelagem anual equivalente a mais de quatro vezes a capacidade do futuro produtor brasileiro.

    Na hora de transformar em valor os homens-ano de P&D acumulados, constatou-se que o custo anual de um pesquisador era uns 20% inferior ao custo médio unitário para funcionários de nível superior do grupo. Enquanto no Brasil um pesquisador precisava de alguns anos de empresa para se capacitar, na Europa um recém-formado já trazia da universidade uma bagagem que o habilitava a participar do avanço das fronteiras do saber.

    O recado estava dado: pesquisa não se faz sem um sistema de ensino superior de ponta. E outra: enquanto na indústria química a criação de empregos hoje custa em torno de US$ 2-3 milhões/funcionário, o capex atual para a criação de um centro de pesquisa na indústria química deve estar por volta de US$ 200-300 mil por pesquisador. Talvez aí esteja uma opção de desenvolvimento econômico menos concentradora de renda do que o modelo pré-1990, de compra de tecnologia e substituição de importação a qualquer preço.

    Diversas empresas globais, entre elas Basf e Sabic, anunciaram a intenção de descentralizar suas atividades de pesquisa. Além dos países do Atlântico Norte, novos centros estão sendo localizados na China, e em outros endereços asiáticos. Um centro de pesquisa setorial típico, conforme o assunto, emprega de 100 a 500 pessoas, e um grupo químico diversificado típico hoje emprega cerca de 1.000 pesquisadores para um faturamento de US$ 10 bi. Talvez caiba por em prática uma política proativa de atração dessa atividade para o Brasil, em setores nos quais o país demonstre alguma vantagem comparativa: biomassa, minérios…


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