Posto de Escuta

1 de agosto de 2000

Posto de Escuta – Bombas da RAF vs. ”Viúvas” de Ohio

Mais artigos por »
Publicado por: Albert Hahn
+(reset)-
Compartilhe esta página

    Albert Hahn é sócio-diretor da Ecoplan Consultoria, de São Paulo, e senior partner da Ecoplan International, de Paris

    O

    muito saudoso Sebastião Simões gostava de contar histórias de sua primeira visita a Frankfurt, pouco depois do fim da guerra, relacionada ao projeto da fábrica de fertilizantes nitrogenados de Cubatão-SP. Encontrou um mar de destruição causado pelas bombas da RAF e, um pouco afastado daquilo tudo, intocado e funcionando impávido, o complexo da Farbwerke Hoechst. Aliás, parece que não por imperícia, mas, muito pelo contrário, de propósito, para preservar a capacidade produtiva do futuro aliado da já antevista Guerra Fria.

    Pois o que os bombardeios aliados não conseguiram (ou quiseram) realizar, foi levado a cabo, em última análise, pelos fundos de pensão norte-americanos – as “viúvas” de Ohio. Com a “exuberância” das bolsas, insufladas pelas subidas vertiginosas das ações hi-tech, formou-se uma pressão sobre os executivos de empresas da dita “economia tradicional” no sentido de produzir, para os seus acionistas, ganhos em carteira parecidos com os que vinham dando os papéis da nova economia.

    A primeira empresa a aceitar a “corda de seda” oferecida pelo mercado de capitais foi a própria Hoechst. Com uma rapidez que pegou desprevenidos analistas e concorrentes, a Hoechst começou a formar parceirias com antigos concorrentes – AKZO para as fibras, Courtaulds para filmes, Clariant para as especialidades, BASF para poliolefinas, e alguns outros –, transformando a empresa em mera holding de participações nessas parcerias. Sobrou a antiga árvore acética, relançada no mundo como empresa independente de médio porte (Celanese), e as “ciências da vida”, atividades que se fundiram com seus pares na Rhône Poulenc dando a Aventis. Fim de uma era.

    Mais melancólica ainda foi a implosão da Degussa. Até sua fusão com a Hüls, em 1998, a Degussa era um exemplo de texto, quase “ad absurdum”, de integração vertical. Tudo começou com a unificação alemã pós-1870, que exigiu a recuperação dos metais preciosos contidos nas inúmeras moedas em circulação – o GUS do acrônimo Degussa vem de Gold und Silber (ouro e prata), e o SA final vem de Scheideanstalt, empresa de separação. A química aquosa dos metais preciosos exigia a formação de complexos com o íon cianeto, e daí a empresa foi obrigada a se tornar grande produtora de NaCN: primeiro, via o velho processo Castner, mais tarde, a partir de HCN sintético (dando como subproduto hidrogênio puro). E com base nessa pedra angular a Degussa foi crescendo nas mais diversas direções, que iam desde chapas acrílicas e pigmentos (brancos, pretos, cerâmicos) até conectores para componentes eletrônicos e dentes postiços, tudo sempre amarrado de algum jeito no cianeto de sódio.

    Com a fusão em 1999 da Veba, controladora da Degussa-Hüls, com a Viag, empresa elétrica da região sul da Alemanha, estava criado um problema político, pois a região da Baviera via na absorção de sua principal indústria energética uma espécie de última etapa do processo histórico de submissão da dinastia dos Wittelsbach aos usurpadores prussianos. Mas a Viag também tinha a sua química, na forma da SKW.

    A SKW era o último grande produtor europeu de cianamida cálcica (o K vem de Kalkstickstoff), fertilizante nitrogenado de ação lenta e por isso melhor adaptado a uma agricultura de tempos que não voltam mais. A empresa, no entanto, soube se diversificar em cima dessa base, e também conseguiu alguns triunfos empresariais ao se tornar, via aquisições, líder mundial de setores como gelatina animal e especialidades químicas para a construção civil.

    A solução encontrada para massagear os brios regionalistas feridos foi entregar à turma da SKW, empresa bem menor do que a Degussa-Hüls, o comando do novo grupo químico resultante da fusão. Ao que parece, a troca de equipe se deu sem, digamos, muita sutileza por parte dos novos donos do poder, e algumas aposentadorias antecipadas foram decididas a toque de caixa. Até a sede da nova empresa será deslocada da histórica sede em Frankfurt para Düsseldorf. Porém, decisão que alguns veteranos viram como um tanto cínica, e em que pese um processo em curso de reorganização e desmembramento da “velha senhora da Weissfrauenstrasse” –, o nome Degussa será mantido para designar a nova empresa resultante da fusão.

    BASF vs. Dow

    D

    uas empresas estão cada vez mais se posicionando como líderes mundiais da química orgânica pesada: Dow e BASF. As duas concorrem frontalmente em áreas como estireno, óxido de eteno e óxido de propeno, mas isso não tem impedido uma certa convivência: um craqueador conjunto no Texas e a recém-anunciada unidade de estireno monômero no Brasil.

    Por outro lado, a decisão por parte da Dow de construir uma enorme unidade de estireno/óxido de propeno (SM/PO) na Costa do Golfo parece um lance defensivo, dirigido justamente contra a BASF, que acaba de fundir sua operação PO com a Shell, na recém-criada Basell. A unidade terá como coproduto 650.000 t/ano de estireno, e será a primeira da Dow a fugir da via cloridrina; a tecnologia foi desenvolvida em conjunto com a empresa russa NKNK. A Dow faz questão de enfatizar que essa decisão não representa nenhuma “sentença de morte” para o tradicional processo pela via cloridrina, usado, por exemplo, na planta da Bahia; mas a empresa já anunciou outro projeto SM/PO, esse na China. A ser acompanhado com interesse.



    Compartilhe esta página







      0 Comentários


      Seja o primeiro a comentar!


      Deixe uma resposta

      O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


      ""
      1
      Newsletter

      Receba artigos, notícias e novidades do mercado gratuitamente em seu email.

      Nomeseu nome
      Áreas de Interesseselecione uma ou mais áreas de interesse
      Home - Próximo Destino Orlando
      ­
       Suas informações nunca serão compartilhadas com terceiros
      Previous
      Next