Petroquímica

16 de maio de 2004

Petroquímica: Falta de água complica os planos do pólo paulista

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Publicado por: Marcelo Furtado
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    Com perspectivas de escassez a curto prazo, o pólo petroquímico de Capuava entra em clima de disputada para decidir se utiliza água de reuso ou se inicia as obras Aquapolo

    Química e Derivados: Petroquímica: . ©QD Foto - Cuca JorgeAcostumado a processar um sem-fim de insumos químicos, muitos deles complexos e perigosos, pode soar contraditório saber que o pólo petroquímico de Capuava, em Mauá-SP, tem como principal problema garantir-se do abastecimento da simples e elementar água. Mas é exatamente isso o que ocorre à central de matérias-primas, a Petroquímica União (PQU), e às demais dez empresas do pólo, que temem em breve ficar sem fornecimento suficiente para seus planos de expansão e até mesmo para tocar o dia-a-dia em uma indesejável pespectiva de estagnação.

    Química e Derivados: Petroquímica: Rio Tamanduateí passa pela Recap, mas vai perder vazão. ©QD Foto - Cuca Jorge

    Rio Tamanduateí passa pela Recap, mas vai perder vazão.

    Atualmente, o pólo baseia seu abastecimento de água na Refinaria de Capuava (Recap), da Petrobrás, responsável pelo tratamento do manancial captado do Rio Tamanduateí, que perpassa seu terreno e do qual possui outorga para retirar 1.300 metros cúbicos por hora. O problema é que cerca de 75% da água captada para abastecer as petroquímicas se origina do esgoto da cidade de Mauá. Com o firme aceno do saneamento básico chegar à região, fato próximo de ocorrer em virtude das metas de universalização que a nova concessão privada de Mauá (Ecosama) precisa cumprir sob contrato, o rio deixará de ter vazão para atender a demanda atual das empresas, visto que não receberá mais os despejos domésticos e industriais hoje lançados indiscriminadamente.

    “O conselho de acionistas da central quer uma definição ainda neste ano sobre que plano vamos colocar em prática para garantir o abastecimento”, afirmou o gerente de projetos da PQU, Jorge Rosa. E é para atender a essa urgente imposição que os encarregados da tarefa estão próximos da solução. Em um trabalho liderado pela PQU, principal interessada por ser responsável pelo consumo de 680 m3/h de água, de um total de 1.100 m3/h consumidos no pólo, em breve será definido um novo projeto de abastecimento de água. A escolha recairá sobre uma das duas seguintes opções: o comentado projeto Aquapolo, que propõe trazer água do Rio Tietê, coletada em seu trecho de Suzano-SP; ou então a opção pela água de reuso, isto é, recuperada de esgoto e fornecida por companhias de saneamento.

    Mas a definição está longe de ser apenas uma simples escolha entre dois projetos viáveis. Por serem obras complexas e milionárias, numa região com um dos mais caros metros cúbicos de água do Brasil (média de R$ 4), elas devem gerar ainda muita polêmica. A maior controvérsia permeia justamente a opção em que o pólo mais se inclina a adotar, a de água de reuso, que tem a possibilidade de ser ofertada por duas companhias de saneamento: pela Sabesp, por meio de sua Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) ABC, e pela concessionária privada de serviços de esgoto de Mauá, a Ecosama, por meio do projeto Sanear, que contempla a construção de uma estação de tratamento ao lado da Recap, em terreno já adquirido.

    Briga no reuso – Há uma disputa de bastidores atrasando a tomada de decisão pelo reuso. O impasse começou quando a PQU decidiu, depois de estudar as duas possibilidades, a não depender apenas de um fornecedor. “Entendemos ser desconfortável para o pólo ficar na mão de uma única fonte”, afirmou o gerente Jorge Rosa. A posição da PQU foi formalizada por meio de uma carta de intenções enviada à Ecosama. A formalização aí foi necessária porque quando houve a concessão dos serviços de esgoto em Mauá, cuja concorrência pública em 2002 foi vencida pela construtora baiana Gautama, houve uma espécie de entendimento mútuo de que o pólo compraria a água de reuso da cidade.

    Essa nova posição liderada pela PQU não agradou os planejadores da prefeitura e da concessionária de Mauá. É simples entender o descontentamento, visto que a concessão foi montada em cima da confiança em ter o pólo petroquímico como fiel cliente e, sobretudo, como principal viabilizador financeiro da obra. A venda da água de reuso daria o retorno sobre o investimento necessário para promover a universalização do tratamento de esgoto da cidade em um prazo não muito longo.

    Embora o pólo não afirme desprezar a água da Ecosama, a menção a um outro novo ponto levantado pode deixar dúvidas. Isso porque faz parte também da nova intenção do pólo bancar os investimentos para viabilizar o outro projeto aventado em reuso: a compra do esgoto da Sabesp. Trata-se de obra avaliada em cerca de R$ 50 milhões, que consiste em construir uma tubulação de 14 km, interligando a ETE ABC situada no bairro do Sacomã, em São Paulo, com a Refap, e ainda uma estação elevatória na unidade da Sabesp. “Temos várias opções de financiamento”, diz Jorge Rosa.

    A companhia de saneamento paulista, aliás, é a que tem a posição aparentemente mais passiva na história. Seu único trabalho seria permitir ao pólo buscar e comprar seu esgoto secundário, aquele que passou por tratamento preliminar com grades e caixa de areia, para remoção de sólidos grosseiros, seguido por uma decantação primária para adensamento de sólidos em suspensão, e por um tratamento biológico em tanques de aeração antes da decantação final para clarificação. Apenas vender esse esgoto é um ótimo negócio. Além de não precisar investir, e também não polir o efluente para uso industrial (o que será feito na Recap), a Sabesp venderá por cerca de R$ 2,50 o metro cúbico do esgoto tratado, que até então vinha sendo descartado no rio.


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