Economia

28 de março de 2016

Perspectivas 2016 – Indústria química: Petroquímica recupera lucros, mas prevê dificuldades adiante

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    A maior petroquímica nacional, a Braskem, encerrou 2015 com resultados muito melhores do que os verificados nos anos anteriores. A justificativa reside no baixo preço de suas matérias-primas e com o preço relativamente elevado de venda de seus produtos no período. Porém, a fase de lucros gordos só deve durar até 2018, quando entrarão em plena carga novas unidades de produção de olefinas e resinas termoplásticas, em volume suficiente para derrubar os preços. Até lá, será necessário acompanhar com cautela as variações dos preços do petróleo e do gás natural, pois nada garante que eles permanecerão no patamar atual.

    A companhia brasileira também apresentou elevados índices de eficiência operacional, com aumento da ocupação de suas unidades produtivas e redução de consumo de água e energia. No Brasil, a taxa média de utilização dos crackers chegou a 89%, contra 86% do ano anterior. O índice poderia ter sido ainda melhor, de 92%, tivesse a unidade instalada em Duque de Caxias-RJ recebido etano suficiente para rodar cheia. Além disso, um acidente provocou a parada do polo petroquímico paulista e a queda da produção local durante o quarto trimestre, período no qual a taxa de ocupação da companhia ficou em 83%.

    No exterior, o desempenho operacional da Braskem foi ainda melhor, chegando a ocupar 98% da capacidade de geração de polipropileno instalada nos Estados Unidos e Alemanha. No último trimestre do ano, as fábricas de PP no exterior rodaram a 101% da capacidade nominal, gerando 500 mil t no período, um recorde. A demanda nesses mercados se mostrou firme, absorvendo a resina produzida.

    No Brasil, a demanda total pelas resinas termoplásticas de PE, PP e PVC apresentou retração de 7,6%, caindo das 5.331 mil t em 2014 para 4.926 t. No quarto trimestre, sob forte impacto da variação cambial, a queda do consumo interno chegou a 17% sobre igual período do ano anterior. “Nós registramos queda de 11,6% nesses meses finais, indicando uma conquista de mercado sobre os importados”, comentou Carlos Fadigas, presidente da companhia.

    As vendas da Braskem dessas resinas para o mercado interno durante o ano apresentou queda de 5,8%, de 3.570 mil t em 2014 para 3.362 t em 2015. “Isso nos obrigou a fazer um esforço adicional para colocar mais resinas no mercado externo, aproveitando a demanda firme nos Estados Unidos e estabilização na Europa”, comentou Fadigas. A companhia exportou 1,37 milhão de t no ano, com acréscimo de 300 mil (ou 28%) sobre o período anterior.

    Com esse esforço comercial, a Braskem obteve Ebitda de R$ 9,37 bilhões em 2015 (67% acima do registrado no ano anterior) ou de US$ 2,28 bilhões (17% a mais que em 2014). Na avaliação de Fadigas, a desvalorização cambial do real ajudou os produtores locais, tanto por inibir importações quanto pelo estímulo às exportações. “Voltamos a figurar no rol das dez maiores exportadoras do Brasil”, comemorou.

    Com receita líquida de R$ 47 bilhões e lucro líquido de R$ 2,89 bilhões, a companhia conseguiu reduzir seu endividamento de US$ 6,2 bilhões para US$ 5,4 bilhões. E guardou fôlego para anunciar investimentos de US$ 3,6 bilhões em 2016, valor 54% superior ao aplicado em 2015.

    Em fase de partida, o complexo petroquímico instalado em Veracruz (México), construído e operado em parceria com o grupo local Idesa, deverá receber aporte de R$ 1,3 bilhão, destinado à finalização das unidades, formação de caixa inicial e para as reservas previstas no modelo de financiamento adotado.

    Do ponto de vista operacional, o consumo específico de energia consumida pela Braskem foi reduzido de 10,74 gigajoules por tonelada para 10,49 GJ/t, refletindo os esforços para otimizar processos. Também o consumo de água por tonelada produzida foi abatido, segundo o presidente.

    Parte dos investimentos previstos para o ano contemplará a parada geral de manutenção da linha Eteno 2, o trem de produção mais novo da Unidade de Produtos Básicos da companhia em Camaçari-BA, agendado para outubro, com previsão de 40 dias de trabalhos. A última parada geral desse trem foi promovida em 2010. “Trata-se de uma parada simples de manutenção, não prevemos aumento de capacidade, mas substituiremos alguns sensores obsoletos por outros mais modernos e introduziremos pequenas modificações para gerar ganhos de eficiência operacional”, comentou Fadigas. Esse investimento contará com R$ 188 milhões de verbas da Sudene, via Fundo de Desenvolvimento do Nordeste, que também liberará R$ 63 milhões para aprimoramento da linha de vinílicos em Maceió e Marechal Deodoro, em Alagoas.

    Além disso, a companhia seguirá investindo para erguer uma unidade de PEUAPM (polietileno de ultra-alto peso molecular) no Texas (EUA), acompanhando a evolução de demanda por esse material de engenharia. “A demanda por PP nos EUA segue tão robusta que estamos estudando construir mais uma planta da resina por lá”, afirmou. Até o final deste ano, a Braskem Americas deverá receber propeno gerado pela Enterprise mediante desidrogenação de propano (obtido de shale gas) em quantidade capaz de suprir as três unidades de PP instaladas no Texas. A companhia possui outras duas fábricas da poliolefina na Filadélfia. “Estamos nos preparando para o futuro”, salientou.

    Até agora, a Braskem possui capacidade global consolidada de 4 milhões de t/ano de PP e 3 milhões de t/ano de polietilenos. Com a entrada do complexo mexicano, a relação entre essas resinas ficará nivelada em 4 milhões de t/ano. “O alvo da Braskem é sempre o mercado interno, a exportação é complementar porque tem custo maior”, avaliou.

    Para tanto, porém, cada unidade precisa contar com suprimento local de matérias-primas e insumos a preços competitivos. No caso do Brasil, a companhia desenvolve estudos para diversificar o rol de matérias-primas, a exemplo do uso de etanol para gerar eteno. “Precisamos de uma política industrial coerente e de austeridade fiscal para recuperar a competitividade da indústria brasileira em vários setores, como a petroquímica, siderurgia e petróleo, que são a base para outras atividades”, defendeu. Ele salientou que a Braskem apoia os esforços dos transformadores de plásticos para exportar seus produtos, mediante o programa PICPlastic.

    Fadigas prevê que a diferença entre o preço das matérias-primas e as resinas seja um pouco menor em 2016, mas ainda poderá contar com uma relação cambial favorável. Em 2017, com a entrada em produção de alguns crackers em vários lugares do mundo, as margens serão erodidas, fato a se agravar em 2018.



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