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19 de fevereiro de 2014

Perspectivas 2014 – Entrevista: Setor químico nacional precisa resolver questões além da matéria-prima

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Química e Derivados, Perspectivas 2014

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    ida mansa, nem pensar. Há pouco mais de um ano, quando deixou a Presidência da Ultrapar para assumir um assento no conselho de administração da companhia, Pedro Wongtschowski esperava contar com mais tempo livre para sua vida pessoal. Ledo engano. Atualmente, ele atua em mais de dez  diferentes atividades, como os conselhos de empresas de grande porte ou instituições ligadas à pesquisa científica e universidades, além de consultorias. Wongtschowski se formou em engenharia química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, na qual obteve os graus de mestre e doutor. Ingressou no grupo Ultra em 1970, desenvolvendo exitosa carreira, com participação ativa em todos os momentos relevantes da moderna petroquímica brasileira, com incursões pelas especialidades e química fina. Do alto da sua experiência, ele acompanha com alguma preocupação os percalços da indústria química nacional, mas acredita ser possível recolocar o setor nos eixos e recuperar o ímpeto dos investidores em novas capacidades. Seria realmente muito difícil vestir um pijama em uma personalidade tão ativa e irriquieta. Wongtschowski recebeu Química e Derivados na sede da Ultrapar, no centro de São Paulo, onde mantém um escritório.

    Química e Derivados, Perspectivas 2014 - Entrevista: Setor químico nacional precisa resolver questões além da matéria-prima

    Wongtschowski: cenário macroeconômico ruim leva companhias a investir no exterior

    Química e Derivados – Há um grande temor de que o shale gas americano provoque a morte por asfixia da indústria química brasileira. Esse temor tem fundamento?
    Pedro Wongtschowski – É um exagero. O shale gas traz uma grande vantagem para a petroquímica norte-americana, vários projetos estão sendo lá desenvolvidos tendo por base a disponibilidade de gás natural barato. Mas ninguém sabe ao certo por quanto tempo essa euforia vai durar! Há uma série de questões a esclarecer, como as questões ambientais dessa exploração, o imenso consumo de água, o tamanho e a duração das reservas. Além disso, no médio prazo, os preços do gás natural norte-americano tendem a chegar a um ponto de equilíbrio mais próximo da média mundial. Os especialistas afirmam que o shale gas terá cotações entre US$ 5 a US$ 6 por milhão de BTUs, que ainda é muito bom, mas é mais caro que US$ 3.

    QD – Ainda assim, é bem mais barato que o gás natural brasileiro.
    PW – Sim, de fato é. Mas a política de preços do gás natural no Brasil precisa ser reexaminada. Acredito que a meta de preços de longo prazo teria de ser próxima dessa faixa prevista para os Estados Unidos.

    QD – Considerando que os projetos de exploração do pré-sal sejam efetivamente desenvolvidos, no cronograma previsto, seria possível estimular as discussões dessa nova política de preços para o gás?
    PW – Havendo grande disponibilidade de gás, os preços precisam se ajustar a essa realidade. Preços altos inibirão a demanda e não me parece interessante ter sobra de gás sem remuneração. Mas seria necessário pensar um pouco mais a longo prazo. Por exemplo: se existe a expectativa de contar com o gás do pré-sal em 2019 ou 2020, a Petrobras deveria estar fechando agora os contratos de suprimento de longo prazo com clientes industriais, já com um preço adequado, talvez referenciado ao de Mont Belvieu [Texas, EUA]. Investimentos petroquímicos levam pelo menos cinco anos para serem construídos, a contar da sua concepção inicial. Se isso não for feito, teremos demanda de produtos petroquímicos e disponibilidade de gás, mas os clientes não estarão prontos para recebê-lo.

    QD – Matéria-prima é o calcanhar de Aquiles do setor? É o que falta para a petroquímica nacional deslanchar?
    PW – Acho que a questão vai muito além disso. Na verdade, o cenário macroeconômico brasileiro é desanimador para qualquer atividade industrial. Há muitas incertezas. A inflação está recrudescendo, crescem os déficits comercial e fiscal, os juros voltaram a subir. Isso não anima ninguém a investir. As indústrias que já fizeram grandes investimentos até conseguem ser competitivas em alguns segmentos, as demais apenas sobrevivem.

    QD – A química sofre ainda mais que as outras indústrias?
    PW – Além dos problemas gerais, a indústria química tem seus problemas clássicos: matéria-prima, energia elétrica e mão de obra especializada. A matéria-prima, gás ou nafta, representa mais de 60% do custo variável de produção, portanto gera um impacto muito relevante na tomada de decisões. O setor precisa ter garantia de suprimento para poder investir com segurança, mas a Petrobras não assina contratos de longo prazo com ninguém. A insegurança é muito grande. A eletricidade também impacta pesadamente o setor. Houve uma redução de preço por volta de 15% em meados do ano passado, mas o uso contínuo das usinas termelétricas para compensar a seca nos reservatórios das hidrelétricas vai engolir esse benefício. Quanto à mão de obra especializada, seu custo até baixou em dólares em 2013, mas ainda é escassa e cara para o setor químico.


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