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25 de dezembro de 2003

Perspectivas 2004: Otimismo é geral, otimismo é geral mas com moderação

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Juros altos e baixa liquidez controlaram a inflação e recuperaram a credibilidade do País, que pode voltar a crescer

    O discurso oficial é coerente. A promessa de um espetáculo de crescimento para 2004 encontra a “platéia” nacional esperançosa. Antes mesmo do abrir das cortinas, especula-se quanto aos cenários macroeconômicos possíveis. Os números frios registrados em 2003 evidenciam ter sido cavalar a dose do remédio amargo dos juros elevados, aliado à escassez de créditos e investimentos oficiais. Ante a queda da inflação e a obtenção de superávit nas contas nacionais, os aplausos do setor empresarial foram reforçados, enquanto se espera para este ano o deslanchar de investimentos e a reativação econômica do País.

    O crescimento real de modestos 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2003 foi o preço da dieta antiinflacionária. A taxa de inflação anual medida pelo IPCA chegou a 9,3%, bem abaixo dos 12,5% de 2002, com o dólar cotado em R$ 2,80 ao final do ano, contra os R$ 3,71 de dezembro do ano anterior. A taxa básica de juros encerrou o ano em 16,5%, com trajetória declinante, tendo começado o ano anterior em 25%.

    A combinação de índices de desemprego com a redução dos salários reais, tanto por efeito inflacionário quanto por corte de valor nominal, resultou no encolhimento da massa salarial da ordem de 15%, deprimindo negócios no mercado interno. Com isso, a exportação de produtos cresceu e a importação caiu, conduzindo à formação do saldo comercial de US$ 24,8 bilhões, quase o dobro do registrado em 2002, de US$ 13 bilhões. O preço do petróleo foi influenciado pela guerra do Iraque, com alta superior a 10% durante 2003, mas com tendência de redução de cotações a partir deste ano.

    “As condições macroeconômicas são favoráveis à recuperação econômica brasileira em 2004, que herda o superávit em contas correntes de US$ 5,543 bilhões, muito bom, por reduzir a vulnerabilidade do País”, afirmou Mário Mesquita, economista-chefe do banco ABN-Amro Real. Ele salienta a existência de algumas incógnitas, a principal delas representada pelo comportamento futuro da taxa de juros do Banco Central norte-americano, o FED. A economia dos EUA está fortemente estimulada, conseguindo evolução positiva de 2,9% do PIB (real), razão pela qual se espera a elevação dos juros básicos dos atuais 1% para 2% ao final de 2004.

    Segundo Mesquita, a situação mundial favoreceu o investimento em ativos de risco em economias emergentes. No caso brasileiro, a entrada de capitais foi ampliada em 2003, a partir da recuperação da credibilidade no País, abalada com a eleição de um governo de tendência socialista. As medidas graves adotadas na primeira hora de governo (elevação de juros, restrição de despesas e anúncio de respeito aos contratos firmados) voltaram a atrair investidores, que haviam saído de cena no ano anterior. “A captação externa de recursos melhorou tanto que deprimiu a taxa de câmbio, tirando um pouco de competitividade internacional dos exportáveis brasileiros”, analisou.

    Química e Derivados: Perspectiva: perspectivas. Além do medo de Lula, Mesquita menciona o fato de os anos anteriores terem apresentado graves problemas locais e internacionais que abalaram a confiança dos investidores. Em 2001, houve o “apagão”, a crise econômica argentina e o atentado de 11 de setembro nos EUA; 2002 foi marcado pelos escândalos financeiros em Wall Street, inaugurados pelo caso Enron, que minou a credibilidade do sistema contábil americano. Já em 2003, houve também o forte temor de uma onda inflacionária, oportunamente debelada.

    Do ponto de vista local, Mesquita recomenda cuidados para promover a recuperação da demanda interna. A recuperação da massa salarial será feita lentamente, de modo a evitar pressões inflacionárias. A taxa de inflação, na sua análise, não deve ultrapassar a faixa de 5% a 6% durante 2004, o que evitará impacto ainda maior sobre a desvalorização dos salários. A produção industrial geral do País apresenta alguma recuperação, embora com claros movimentos de anda e pára (stop and go), que indicam risco. “Nos bens duráveis e artigos exportáveis, a situação é mais confortável”, comentou. Ele espera um aumento considerável na oferta de crédito aos produtores e aos consumidores durante 2004, com juros reais menores.

    Um problema recorrente consiste nos gastos públicos. “Os tributos já absorvem 35% do PIB”, comentou. Nesse ponto, não há expectativa de melhora a curto prazo. Algumas mudanças pontuais, como a não cumulatividade da Cofins, trazem alívio pequeno, enquanto se espera uma profunda reforma fiscal e tributária.

    Com esses dados, Mesquita traçou um panorama otimista para 2004. O PIB nacional deve crescer 4,1%, com inflação domada em 5,1% (IPCA). A balança comercial ainda terá alto superávit, de US$ 19,8 bilhões, um pouco menor que o de 2003, com uma valorização do dólar, que terminará o ano em R$ 3,20. A taxa básica de juros cairá lentamente, até 13% (nominal), que corresponde à taxa real entre 8% e 8,5%, favorecendo investimentos produtivos. “O desafio para 2004 é ampliar os investimentos, ainda muito tímidos, e alavancar as exportações a um patamar bem acima dos atuais US$ 70 bilhões”, afirmou.


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