Economia

5 de dezembro de 2014

Máquinas: Importadores pedem reformas amplas

Mais artigos por »
Publicado por: Hamilton Almeida
+(reset)-
Compartilhe esta página

    Preocupações e incertezas não faltam aos empresários que importam bens de capital e já assistiram a um declínio médio de 6,25% em suas atividades de janeiro a setembro deste ano, em comparação com o mesmo período de 2013 – considerado um ano ruim. Diante de um cenário econômico com crescimento pífio e inflação acima do centro da meta, a expectativa é que, no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, que iniciará em 2015, o governo faça reformas amplas para recolocar a economia nos trilhos e o país voltar a crescer.

    Química e Derivados, Nogami: governo deverá adotar medidas impopulares em 2015

    Nogami: governo deverá adotar medidas impopulares em 2015

    “Se o Governo não fez, nos últimos quatro anos, o que deveria ser feito, qual é a garantia que irá fazer as reformas agora?”, questionou o economista Otto Nogami, consultor econômico da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei). “O mercado sinalizou o que preferia, mas o eleitorado não foi nessa direção. O Governo que temos deverá olhar para as mudanças que o mercado quer. Os dois terão que puxar a corda para o mesmo lado. Se as expectativas não forem atendidas, o maior prejudicado será o Brasil”, comentou Ennio Crispino, presidente da Abimei.

    Nessa circunstância, Crispino espera que, com urgência, o governo federal resgate a sua credibilidade. Ele defende uma reforma tributária que contemple a desoneração dos investimentos em bens de capital. O fim da cobrança do ICMS e o retorno do Imposto de Importação, que chega a 25% em alguns tipos de máquinas e equipamentos industriais, para o patamar anterior, de 14%. O raciocínio é que a redução de tributos baixaria os custos de produção, elevaria a competitividade das indústrias, atraindo investimento externo. A queda na arrecadação de impostos seria compensada pelo aumento no faturamento das empresas. “O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributam investimentos em meios de produção. Não há como pensar em aumentar a produtividade e a capacidade competitiva do produto manufaturado brasileiro no mercado internacional com uma carga tributária como esta”, desabafou.

    Gerente-geral da Doosan Infracore América, o engenheiro Crispino foi reeleito por unanimidade, no final de outubro, para o seu terceiro mandato consecutivo na presidência da Abimei. Ele exerce a função desde 2011 e irá representar o setor até 2016, pelo menos. Na sua nova gestão, pretende ter uma “presença mais constante” em Brasília, junto ao Ministério do Desenvolvimento Industrial e Comércio Exterior (MDIC) e à Câmara de Comércio Exterior, difundindo o conceito de que a modernização do país passa pela maior competitividade e a importação de máquinas. Mas, ele não está otimista quanto ao desempenho setorial em 2015: “Dificilmente será melhor do que 2014.”

    A única certeza de Nogami é que a futura equipe econômica do Governo terá a árdua missão de tentar reverter a tendência recessiva e equilibrar o tripé formado por inflação, déficit fiscal e taxa de câmbio. Segundo o economista, a importação de bens de capital registrou queda constante desde o início do ano. Nos primeiros oito meses de 2014, foram negociados US$ 31,9 bilhões, ante US$ 34,4 bilhões em igual período do ano passado (-7,3%). O setor respondeu por 20,7% da pauta geral de importações do Brasil.

    Partes e peças para bens de capital para a agricultura e maquinaria industrial foram os segmentos mais atingidos pela queda nas importações, com porcentuais negativos de 19,5% e 17,3%, respectivamente. “Dependendo do tipo de equipamento, a queda nos negócios foi de 40% a 50% neste ano”, completou Crispino. Os únicos segmentos com variação positiva foram equipamentos fixos para transporte (16,3%) e partes e peças para bens de capital para a indústria (4,5%).

    “É imperativo mudar, 2015 deverá ser um ano de ajustes fortes”, destacou Nogami, durante a palestra “Panorama atual da economia brasileira e perspectivas para 2015 no setor de bens de capital”, feita para empresários do ramo logo após a eleição da nova diretoria. Para conter a expansão da inflação, ele apontou três medidas que forçosamente deverão ser tomadas a curto prazo: aumento da taxa de juros (para 12% ao ano ou mais), restrições creditícias e evitar aumentos reais de salários.

    Como a capacidade de produção da sociedade é menor que o potencial de consumo do mercado, as correções necessárias, no longo prazo, envolvem investimentos na produção e aumento da produtividade. “A inflação já está em uma faixa perigosa, de 6,75% de janeiro a setembro, e a tendência é de alta”, alertou. O centro da meta oficial é 4,5%, saliente-se.

    Química e Derivados, Crispino (centro): só Brasil tributa investimentos em meios de produção

    Crispino (centro): só Brasil tributa investimentos em meios de produção

    Para diminuir a pressão sobre a taxa de câmbio, Nogami aconselha a redução do volume das importações e o aumento da taxação do capital de curto prazo. O economista crê que “dificilmente” o valor do dólar baixará de R$ 2,40. E arrisca o palpite de que se poderá atingir o patamar de R$ 2,80 no próximo ano. “O Brasil é o país mais caro para se produzir”, observou.

    Também é imperativo que o Governo reduza os seus gastos. O custeio da máquina pública equivale a 50% do total dos gastos. Espera-se que uma reforma tributária ampla, o aumento dos investimentos públicos para melhorar a infraestrutura e a reforma previdenciária equilibrem o descompasso existente entre a arrecadação e os gastos públicos.

    O PIB, que desde 1995 vinha apresentando um crescimento médio de 2,97%, deverá crescer apenas 0,2% este ano. Para Nogami, a expansão em 2015 será de 1%, “se nenhuma ação mais incisiva for feita pelo Governo”. Ou seja, o mercado não aceita a manutenção do status quo. O setor industrial contribui com 21,1% do PIB, enquanto o Governo gasta o equivalente a 22% do PIB e o consumo das famílias absorve 62%. Os investimentos são da ordem de 17,9% do PIB e, de acordo com o economista, deveriam ser de 20% para atender as necessidades do país. “Há uma defasagem de 40%, nos últimos 12 anos, na relação investimento/PIB”, ressaltou.

    Medidas impopulares, como a redução do consumo das famílias, via restrições ao crédito e taxas de juros mais altas, são vistas agora como um remédio para a economia brasileira, sufocada pela recessão e inflação. Os empresários da Abimei esperam que o futuro ministro da Fazenda tenha uma formação acadêmica sólida e atue em articulação com o mercado (que deseja ajustes e reformas amplas) tendo, ao mesmo tempo, jogo de cintura para negociar com o Poder Legislativo. Será possível?



    Compartilhe esta página







      0 Comentários


      Seja o primeiro a comentar!


      Deixe uma resposta

      O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *