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26 de junho de 2003

Livros técnicos: Um romance difícil de ser concretizado

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Publicado por: Jose P. Sant Anna
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    Pequena produção nacional e preço caro dos importados dificulta a compra de livros técnicos com conteúdo dirigido para o setor de química

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    ue outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li”. A frase, de autoria do consagrado escritor argentino Jorge Luis Borges, destaca com sabedoria a importância dos livros para a formação intelectual dos seres humanos. O raciocínio não vale apenas para os amantes dos bons romances. Os ensinamentos proporcionados por obras de qualidade são imprescindíveis para o aperfeiçoamento e atualização de profissionais das mais variadas áreas. Entre elas, é lógico, a de Química.

    Comprar livros técnicos, entretanto, não é uma tarefa fácil para os estudantes e profissionais brasileiros interessados em aprofundar conhecimentos. A despeito do trabalho abnegado realizado por algumas editoras, são raras as obras publicadas por aqui. A única saída, em muitos casos, é optar por livros importados, que por conta do impressionante avanço da tecnologia são lançados aos borbotões nos países avançados. Quem se habilitar à tal aquisição, no entanto, que se prepare. Além de enfrentar a barreira do idioma, o consumidor precisará desembolsar uma quantia significativa para adquirir seu objeto de desejo. A elevada especialização aliada às tiragens reduzidas dos textos fazem com que seus preços incomodem até os leitores do primeiro mundo, que recebem salários mais altos e em moedas fortes.

    Os preços salgados são reconhecidos pelos maiores interessados no incremento desse comércio, os proprietários das poucas livrarias especializadas instaladas no País. “Os importados são tão caros que não conseguimos mantê-los em estoque. A maioria das vendas que realizamos são feitas sob encomenda”, revela Carlos Gomes, sócio gerente da Triângulo, loja que está completando 60 anos de atividades na cidade de São Paulo. “É comum um livro importado custar US$ 200. Alguns são caríssimos, superam a casa dos US$ 400”, confirma Paulo Ceschi, proprietário da também paulistana Polytecnica, outra tradicional livraria do gênero obrigada a trabalhar com pedidos “a la carte”.

    Paixão – “Para editar livros técnicos no Brasil é preciso ter paixão pelo negócio, as dificuldades desanimam qualquer um”, queixa-se Edgar Blücher, diretor da Editora Edgar Blücher, uma das mais tradicionais do mercado nacional. Fundada em 1966, a editora conta hoje com cerca de 250 títulos distribuídos no mercado. A reclamação do editor encontra eco entre os seus concorrentes e é justificada por muitos fatores. A falta de financiamento e os juros estratosféricos que assolam as atividades produtivas nacionais é um dos mais citados. O custo do papel atrelado ao dólar não ajuda em nada. “Estou com um material de um cientista brasileiro que daria um excelente livro. Mas por ser um texto longo, que exigiria um número de páginas muito elevado, sua edição tornou-se proibitiva”, exemplifica Blücher.

    Química e Derivados: Livros: Blücher - publicar livros técnicos é para apaixonados.

    Blücher – publicar livros técnicos é para apaixonados.

    O maior nível de exigência dos leitores também prejudica os empresários. “Hoje os livros são todos coloridos e o custo do fotolito também é calculado em dólar”, desabafa Arysinha Jaques Affonso, coordenadora editorial da Bookman, selo de livros técnicos criado há oito anos pela editora gaúcha Artmed. Com o avanço da tecnologia, as editoras são obrigadas a lançar mão de recursos para torná-las mais atraentes – como anexar CD-ROM’s, por exemplo -, o que gera custos adicionais.

    A decisão de publicar em português um texto internacional é complicada, pois exige investimentos para a compra de direitos autorais no exterior e também para a tradução. Por outro lado, a falta de incentivos para maior produção do meio acadêmico brasileiro dificulta a atuação das editoras. “No exterior, os professores universitários têm direito a períodos sabáticos, nos quais recebem para produzir livros. Aqui eles não têm tempo, preferem se dedicar à produção de artigos para revistas científicas”, explica Bernardo Severo, coordenador editorial técnico da carioca LTC, outro tradicional selo voltado para o ramo técnico.

    Com todos esses problemas, é natural que as obras em português cheguem às lojas com preços que, se não atingem os patamares dos importados, encontram-se fora do alcance da maioria dos consumidores nacionais, cujo poder aquisitivo não é nada animador. Com isso, as editoras nacionais passam sofrer outro duro golpe, o da pirataria. “Tirar xerox dos livros é uma prática impossível de se combater”, admite Blücher.

    Drama – Em um cenário com tantas dificuldades, selecionar um texto a ser publicado, seja ele escrito no Brasil ou traduzido, é um drama para as editoras. A primeira decisão difícil é escolher para qual nicho se destinará a obra. No caso dos livros de Química voltados para estudantes que cursam até o primeiro ano das faculdades, o mercado é mais atraente, conta com número bem maior de leitores. Mas a competição nesse filão é dura, pois nele atuam grandes conglomerados internacionais especializados no mercado de educação básica. No segmento de livros com conteúdo dirigido a profissionais com formação avançada, por sua vez, as pequenas tiragens das edições não são nada tentadoras.


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