Farmácia e Biotecnologia

15 de setembro de 2011

IYC 2011 – Medicamentos: Saúde reforçada com avanços da Química

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Química e Derivados, IYC 2011, Medicamentos, Saúde reforçada com avanços da Química

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    criação de moléculas capazes de manter saudável o corpo humano ou de restabelecer suas condições normais, superando doenças ou distúrbios fisiológicos, é a mais nobre das aplicações da química. Isso pode ser entendido tanto pelo lado humanitário e altruísta quanto pelo fato de a descoberta de fármacos resultar de complexas e desafiadoras pesquisas.

    Não menos relevante é o apelo econômico: o mercado mundial de produtos farmacêuticos foi estimado pela Organização Mundial da Saúde em quase US$ 860 bilhões em 2006. De lá para cá, esse número cresceu e deve manter essa trajetória, considerando que boa parte da população mundial ainda está longe de receber tratamento médico adequado. (veja dados estatísticos do setor na pág. 58 desta edição.)

    No Brasil, antes de 1990, houve um esforço coordenado oficialmente para a criação de uma indústria nacional de medicamentos que resultaria numa base sólida para a síntese de fármacos, a ponto de desafiar os grandes mercados produtores. Esse impulso arrefeceu com a mudança de metas e estratégia do governo federal naquele ano, retirando quase todo o apoio ao setor, que foi dramaticamente reduzido. Além da perda de patrocínio, contribuiu para o malogro a falta de uma indústria local de intermediários de síntese e de insumos relacionados à produção de fármacos, um elo fraco dessa cadeia produtiva.

    química e derivados, iyc 2011Há alguns anos, a produção local de fármacos voltou a receber a devida atenção por parte do governo federal, que fortaleceu a base para pesquisas científicas na área. O esforço começou pelos medicamentos genéricos, inicialmente pela formulação de remédios com princípios ativos importados, seguida pela produção local de alguns desses fármacos, a quase totalidade deles com patentes caducas. Uma pequena parcela teve quebrados os direitos de proteção intelectual por motivos humanitários, caso de alguns antirretrovirais aplicados nas terapias contra a aids.

    O foco oficial passou a ser a substituição das importações de moléculas farmacêuticas, em especial aquelas relacionadas aos medicamentos fornecidos pelo Sistema Unificado de Saúde (SUS). Replicar a técnica já desenvolvida há décadas em outro lugar do mundo não é exatamente o sonho dos pesquisadores da química de medicamentos. “Pelo menos isso ajuda a desenvolver massa crítica para projetos futuros”, considerou o pesquisador e professor Adriano Andricopulo, do grupo de cristalografia do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (campus de São Carlos), doutor em química orgânica pela Universidade Federal de Santa Catarina e pós-doutorado em química medicinal pela Universidade de Michigan (EUA).

    A produção desses princípios ativos “genéricos”, desprovidos de proteção patentária, acaba interessando mais aos laboratórios farmacêuticos, gerando receita de forma rápida mediante investimento relativamente baixo, em comparação com o desenvolvimento de moléculas inovadoras. “O caminho da inovação radical em fármacos é longo e precisamos dominá-lo, mas do ponto de vista empresarial ainda é melhor substituir o que já existe”, comentou Edson Lima, diretor da divisão farmoquímica do Laboratório Cristália, que se destaca entre os nacionais como forte investidor em pesquisa e desenvolvimento. Lima é farmacêutico (UFRJ), mestre em química orgânica e pós-doutorado pela Universidade de Harvard (EUA).

    Por ter atuado tanto no campo científico – foi pesquisador da UFRJ e também do Farmanguinhos – quanto na indústria, Lima atesta que o hiato entre a academia e os laboratórios ainda persiste, mas está sendo reduzido. “Aquela desconfiança mútua, pela qual o pesquisador era acusado de só querer publicar e a indústria de só querer dinheiro, felizmente está mudando, com a academia descobrindo as empresas como parceiras sólidas”, comentou. O Cristália, por exemplo, mantém mais de vinte parcerias com universidades e institutos de pesquisas nacionais.

    Lima também observa que mesmo a nacionalização de ativos sobejamente conhecidos é um trabalho complexo e estrategicamente interessante. “O Brasil importa 80% dos fármacos que consome, quando o desejável seria importar no máximo entre 40% e 50%”, afirmou. A atividade de formulação de medicamentos (galênica) com moléculas importadas sempre foi feita no Brasil, com sucesso, mas as sínteses ainda precisam de incentivos. “O governo federal tem oferecido apoio, com programas como o Complexo Industrial da Saúde, visando à redução das importações ou à formação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, que deram mais visibilidade aos pesquisadores antes isolados”, comentou. Esses incentivos devem motivar investimentos em todas as fases da cadeia produtiva de fármacos.

    Cabe lembrar que a produção de moléculas complexas, como é o caso dos fármacos, parte de moléculas menores (intermediários) e exige o concurso de vários ingredientes, passando por uma série de reações sucessivas, com variados índices de rendimento. “Temos no Brasil uma lacuna nos intermediários de síntese, agentes redutores e até em solventes específicos, que precisa ser superada”, considerou Lima.

    “Não precisamos fazer todos os catálogos, basta produzir os insumos estratégicos em quantidade adequada”, considerou Eliezer Jesus de Lacerda Barreiro, experiente pesquisador e professor da UFRJ (na Faculdade de Farmácia e no Instituto de Química), que obteve o grau de doutor em 1978 na Université Scientifique et Médicale de Grenoble, França, e é coordenador científico do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (Lassbio) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Fármacos e Medicamentos (INCT-Inofar).


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      Um Comentário


      1. Daniel Ramos (Branches)

        Parabéns pelo artigo! Verdadeiramente inspirador para nós estudiosos quimicos.



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