Química

15 de abril de 2011

IYC 2011 – Ensino de Química – Cursos de todos os níveis devem ir além da formação científica

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Química e Derivados, IYC 2011, Ensino de Química, Cursos devem ir além da formação científica

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    á um consenso sobre a necessidade de reestruturar o ensino de Química no Brasil desde o ensino fundamental até a graduação superior. Os debates entre acadêmicos, profissionais do ramo e indústrias estão sendo conduzidos há quase dez anos, mas a implementação das mudanças é lenta por duas dificuldades básicas: identifica-se uma forte corrente conservadora quanto ao ensino da ciência, e também pela falta de unanimidade sobre como introduzir essas modificações nos cursos.

    Química e Derivados, IYC 2011, O diagnóstico do problema está cristalizado: o perfil dos químicos que estão sendo formados não coincide exatamente com as necessidades da sociedade. Isso se traduz na dificuldade de adaptação crescente dos recém-formados aos ambientes de trabalho nas grandes empresas. Como aponta um artigo escrito por Márcio Rebouças, Ângelo Pinto e Jailson Andrade (“Qual é o perfil do profissional de Química que está sendo formado? Esse é o perfil de que a sociedade necessita?”), publicado no suplemento do volume 28 da revista Química Nova, órgão da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), em 2005, as exigências dos contratadores vão muito além dos conteúdos programáticos dos cursos superiores. Hoje são valorizadas características como comunicação interpessoal, redação e apresentação em público, capacidade de trabalhar em equipe, adaptação a novas tecnologias, postura ética, capacidade de liderança e espírito empreendedor, entre outras. Os autores agrupam essas competências em três eixos: técnico, comportamental, e gerencial/administrativo. E o desenvolvimento dessas habilidades está previsto nas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Química, atendendo à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394, de 1996), reforçando a importância das atividades complementares e extraclasse, como estágios, seminários e atuação em empresas juniores.

    Até aqui, não há controvérsia. A forma de adaptar a formação superior a essas exigências abre o rol das dissidências. Uma das alternativas que estão sendo adotadas por várias escolas consiste na ramificação do curso de Química em várias diferentes habilitações voltadas diretamente a uma atividade específica, como a área ambiental, têxtil, de petróleo etc. Seria uma forma de aproveitar o bom desempenho econômico desses segmentos. “Essa especialização muito precoce não é interessante, mesmo porque ela vai limitar as opções profissionais futuras dos formados”, criticou Hans Viertler, professor emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), há mais de trinta anos lecionando na instituição da qual foi diretor, além de membro da SBQ.

    “A Química conseguiu evitar essa fragmentação durante décadas, ao contrário da Engenharia, que agora estuda a redução de cursos, considerada excessiva”, comentou. Para Viertler, o curso de Química precisa oferecer uma base sólida na ciência durante os primeiros anos. “Depois disso, cada aluno deve ter a liberdade para escolher as matérias que quiser, até mesmo nas áreas de humanidades”, recomendou, além de insistir em um forte lado experimental. Isso permite alguma especialização, porém não limita o acesso ao mercado de trabalho, nem compromete a qualidade da formação química. A especialização para valer está no doutorado. “Existem alguns cursos de mestrados profissionais na área química, reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), mas são voltados para formar pessoal qualificado para empresas”, comentou.

    “É um erro imaginar que a universidade deve apenas formar profissionais para as indústrias, quando ela existe para gerar conhecimento”, alertou Viertler. Ele concorda com a avaliação geral de que a divisão tradicional do curso de graduação em orgânica, inorgânica, analítica e físico-química (como previsto nas diretrizes curriculares oficiais) está superada, exigindo ampliar a formação com aberturas para disciplinas ligadas à Biologia e à Física. A interdisciplinaridade entre as ciências é cada vez mais patente, porém é preciso preservar a identidade de cada uma delas. “A Química é a ciência ligada à identificação, à caracterização e à transformação das substâncias, tudo o que depende disso está na sua área de atuação”, ressaltou. Então, biotecnologia é química. Nanotecnologia é química, também.

    Ante a uma inevitável proposta de reforma universitária, Viertler demonstra preocupação. “Não se constrói uma casa pelo telhado, mas pelo alicerce”, afirmou. “A universidade tem seus problemas, mas a prioridade deve ser dada ao ensino de ciências nos cursos médio e fundamental”, recomendou. Segundo ele, a deficiência na formação inicial prejudica o desenvolvimento da graduação, mesmo quando aplicada a peneira do exame vestibular.


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